Antes de mudar o seu dinheiro de país, mude a sua mentalidade

A abertura de uma conta bancária no exterior é o primeiro passo para a internacionalização. É quando você se liberta das algemas mentais, do medo, do curral verde e amarelo no qual você foi enclausurado a vida toda e começa a enxergar as coisas do outro lado do muro. Talvez se assemelhe à sua primeira viagem ao exterior. A incerteza. Lugares diferentes. Pessoas que não falam português. Como será?

Se você escolheu o lugar certo para viajar, deve ter ficado bastante satisfeito com o que encontrou. É a mesma coisa em relação aos investimentos. Quando encontrar o porto seguro estrangeiro mais adequado ao seu perfil, é muito provável que também gostará.

Bandeira da SuíçaCertamente seria mais cômodo manter todos os nossos investimentos no Brasil. Infelizmente, as bases de nosso país não são sólidas o suficiente para impedir que problemas políticos e de má gestão pública prejudiquem a vida financeira dos cidadãos. Nosso patrimônio e poupança estarão sempre sendo bombardeados pela incompetência daqueles que definem os rumos e as leis do momento. Não há nada em território nacional para nos proteger disso.

Portanto, o primeiro passo para abrir uma conta bancária no exterior, também conhecida como offshore, é a mudança de mentalidade. É sair do comodismo e agir. É saber que para proteger e crescer seu patrimônio é necessário que ele esteja no local mais adequado para isso, num sistema bancário seguro em um país que respeite os investimentos, mesmo que esse local fique do outro lado do planeta.

Como já foi discutido antes, a primeira grande vantagem de uma conta no exterior é poder diversificar entre diversas moedas. E isso não quer dizer apenas uma outra moeda, como o Dólar Americano ou o Euro. Quer dizer poder ter contas correntes no mesmo banco com 3 a 7 moedas diferentes. Ter subcontas em uma corretora com até 20 moedas. É poder estar diversificado o suficiente para que no futuro as flutuações de câmbio não exerçam influência significativa sobre o seu patrimônio. Não há ocasião melhor que a atual para observar isso, com o Dólar atualmente atingindo o maior valor frente ao Real em mais de 10 anos. No mundo atual das moedas sem lastro físico, a confiança no país emissor se torna fundamental e definitivamente nosso país não transmite a confiança necessária.

Barras de OuroO segundo aspecto importante é a possibilidade de acesso a novos mercados e a investimentos não disponíveis no Brasil. As opções são diversas e vão desde acumular ouro em um cofre privado em Cingapura, até investir em empresas de energia nuclear ou fundos de Private Equity. É muito mais amplo que o binômio poupança/fundos de investimentos ao qual a maioria dos brasileiros está acostumada. Isso requer um pouco mais de estudo e dedicação por parte do investidor, que deve avaliar as oportunidades e escolher aquelas mais coerentes com seus objetivos.

Outro fator essencial na mentalidade do investidor internacional é a questão da privacidade e sigilo. Ao contrário do seu banco local, as suas informações de saldo e investimentos no banco estrangeiro não ficarão transitando entre pessoas próximas a você, como gerentes e outros funcionários. No país em que vivemos, a segurança dessas informações se faz cada dia mais necessária.

Seriedade e confiança são outros pontos importantes quando se lida com bancos no exterior. Devem estar sempre presentes tanto nas atitudes do banco como nas do cliente. Não tenha dúvida de que quando se trata de negócios envolvendo dinheiro e uma distância de milhares de quilômetros, as pessoas têm que ser o mais honestas e transparentes possíveis. Em geral, tudo é feito de forma séria e organizada. Entretanto, o processo de investigação e pesquisa sobre a reputação da instituição com a qual se deseja abrir conta é fundamental.

Royal Bank of CanadaOutra dúvida muito comum para quem pensa em abrir uma conta bancária no exterior é a questão da repatriação dos recursos. É possível, obviamente, fazer uma transferência do banco no exterior para o banco no Brasil. No entanto, é recomendável que estes recursos permaneçam fora do país, por questões de segurança e privacidade já falados. Se porventura houver a necessidade de usar o recurso depositado fora, o cartão de débito ou crédito seria a maneira mais rápida e eficiente. E se o cartão for usado no exterior, o que nesse caso é bastante indicado, há ainda uma vantagem adicional que é evitar o IOF de 6,38% dos cartões internacionais emitidos no Brasil.

Adquirida a mentalidade para o investimento no exterior, deve-se escolher onde abrir a conta bancária e como enviar os recursos. O envio pode ser feito pelo setor de câmbio dos maiores bancos de varejo brasileiros. No Itaú, por exemplo, é possível fazer pelo próprio Internet Banking. Existe também a possibilidade de usar uma operadora de câmbio para realizar o procedimento.

O investidor também deve escolher a instituição no exterior mais adequada ao seu patrimônio e objetivos. Não se deve levar em conta apenas o nome do banco ou corretora, mas também o país no qual eles se encontram. Os bancos estrangeiros possuem ramificações em diversos países e de acordo com a localidade os custos, opções de investimentos e tipos de contas mudam.

Bancos japonesesUma das características mais importantes que variam de país pra país é a necessidade ou não de comparecer pessoalmente ao banco em questão. Em alguns países como Hong Kong e Cingapura é requerido que o cliente se apresente ao banco munido de documentos para a abertura da conta. Já os centros financeiros caribenhos, as ilhas da comunidade britânica na Europa (Jersey e Isle of Man), bem como Suíça, Luxemburgo e Liechteinstein, permitem abertura a distância. Nesse caso, tudo é resolvido por e-mail, Skype e telefone.

Os documentos necessários para se abrir a conta basicamente são o passaporte, comprovante de residência e uma referência bancária, quer seja uma carta do banco ou um extrato de meses anteriores. Além disso, é importante explicar os motivos que o levaram a abrir a conta no exterior.

Um outro fator a ser levado em conta é a necessidade ou não de um agente de referência. Alguém que geralmente é pago para fazer a apresentação entre bancos, corretoras e clientes pelo mundo afora. Em geral, é o cliente que contrata essa pessoa. Felizmente, na maioria das vezes, esse serviço não se faz necessário.

Dólar AmericanoNo que se refere a valores, há bancos que aceitam depósito mínimo de U$500, outros de U$1.000, U$ 10.000 e daí por diante até U$ 5.000.000. Por exemplo, não tente abrir uma conta em Mônaco ou em um Private Bank suíço com U$1.000 ou U$ 5.000. São bancos geralmente para clientes de altíssimo poder aquisitivo e que requerem valores maiores.

Além do aporte mínimo inicial, deve-se ficar atento às outras taxas cobradas, como manutenção de conta, que pode ser cobrada mensal, trimestral ou anualmente, bem como taxas para recebimento e envio de transferências. É comum bancos que exijam maior aporte inicial, como os Private Banks, não cobrem ou cobrem baixas taxas de manutenção, já que eles geram receita através da administração de recursos dos clientes.

A disponibilidade de cartões de crédito e débito também é interessante para quem deseja fazer uso desse serviço. Há opções desde os chamados Travel Money, passando pelos cartões mais simples (Classic) até os mais exclusivos e caros, geralmente chamados de Platinum, Infinite ou Black. As bandeiras Visa, MarterCard e American Express, como aqui, são as mais encontradas.

American Express CenturionÉ importante verificar também os tipos de investimento disponíveis no banco. Os mais simples são aqueles semelhantes à nossa poupança, sendo chamados de savings account. Também existem certificados de depósito e depósitos a termo. As taxas variam de banco a banco e de moeda a moeda. Entretanto não espere muita coisa. As taxas de juros atuais no primeiro mundo estão nos níveis mais baixos da história. Conseguir remuneração de 2% ao ano em Dólar Americano ou Euro neste cenário já seria uma vitória. Existem ainda os fundos de investimento, que podem ser do próprio banco ou de terceiros, os bonds, que são títulos de renda fixa e os produtos estruturados.

Caso o objetivo seja investir diretamente em Bolsa de Valores, deve-se abrir conta em uma corretora. Existem corretoras independentes e bancos que também fornecem este serviço como opção. Deve-se avaliar a plataforma em que são negociados os títulos e os tipos de ativos disponíveis para negociação. Geralmente é possível comprar e vender ações, opções, CFDs (contratos de diferença – não encontrados no Brasil), ETFs e operar Forex. Deve-se ainda observar quais mercados ou países estão disponíveis, lembrando que há mais de uma bolsa em diversos países. Quem deseja investir nos EUA , por exemplo, deve ter acesso a NYSE, Nasdaq, Amex, etc.

Portanto, possuir uma conta bancária no exterior não é apenas uma questão financeira, mas também uma questão de liberdade. Existem alguns passos além daqueles necessários para se investir no Brasil, além de um bom conhecimento em língua estrangeira (principalmente o inglês, mas varia de acordo com o país). Entretanto, a burocracia é mínima e os processos rápidos e eficientes. Talvez o mais difícil seja encontrar o banco ou corretora que ofereça um amplo leque de investimentos com custos mais acessíveis. É exatamente isso que será abordado nos próximos artigos.

Continua na Parte 2.