O jeito mais seguro de ganhar com os juros brasileiros sem estar exposto ao Real

A principal crítica quando se trata de investir no exterior é o fato da taxa básica de juros no Brasil ser a mais alta do mundo, o que favorece os investimentos de renda fixa em nosso país. Entretanto, é preciso lembrar que os rendimentos costumam ser proporcionais aos riscos e o risco de se investir hoje no Brasil é alto. A incerteza quanto à economia e a sua saúde do governo em honrar com suas contas é a maior em 20 anos.

Também é preciso deixar claro que investir no exterior não é uma mera questão de rentabilidade. O fato mais importante é buscar a segurança e a liberdade proporcionadas ao ter parte do seu patrimônio em moeda forte, depositada em bancos seguros de países estáveis, com menor risco de confisco, taxação inesperada e desvalorização cambial.

BondsDe qualquer forma, é possível investir em ativos brasileiros no exterior da mesma forma que o investir estrangeiro faz. Neste caso, para aproveitar os maiores juros brasileiros e ao mesmo tempo estar com o patrimônio no exterior é através da compra de Bonds, ou títulos de dívida, das empresas e do governo do Brasil.

Esses títulos são emitidos no exterior em moeda estrangeira, sendo mais comumente o Dólar Americano, o Euro e o Franco Suíço. No Brasil, são mais conhecidos como debêntures, quando se trata de empresas, e títulos do Tesouro, quando se trata do governo federal.

Precisa ficar claro que sempre existe um risco adicional para quem emite um título em moeda que não é aquela que a empresa ou governo trabalham. Não há como o governo brasileiro emitir Dólar ou Euro para pagar a dívida da mesma forma que pode fazer com os títulos emitidos em Real. Entretanto, as reservas cambiais, atualmente em  U$ 372 bilhões, servem como colchão de segurança.

Antes de falar dos Bonds brasileiros especificamente, vamos entender como eles funcionam.

As primeiras informações que o investidor deve saber a respeito de um Bond são quem é o emissor do título, se é um governo ou uma empresa, qual a nota de crédito dessa instituição, principalmente se é grau de investimento ou grau especulativo, e em qual moeda o título foi emitido.

Rating de créditoO próximo fator importante a se avaliar é a taxa de juros anuais do Bond, chamado de Yield. É quanto o emissor irá remunerar o investidor pelo empréstimo. Nos títulos mais comuns, pagadores de cupons, esse é o valor dos cupons. Por exemplo, um título lançado a valor nominal de U$ 100.000,00 com juros de 2% e pagando cupom anual, pagará cupons de U$ 2.000,00 anualmente até o vencimento.

Em geral, os Bonds internacionais possuem uma taxa de juros fixa no momento da emissão, definindo-se assim como Fixed Interest. Há ainda aqueles que variam conforme as taxas de juros internacionais, chamados de Floating Rate, mas são menos comuns e cada um possui uma regra específica.

O próximo fator a se avaliar é o valor nominal ou de face do título, em inglês Denomination. Em geral, pode variar de 1.000 até 250.000 Dólares Americanos, Euro, etc . Os mais comuns entre os que eu tenho visto são os valores de 1.000 e 100.000. Os títulos mais caros acabam sendo inacessíveis para um investidor comum, mas são facilmente encontrados em fundos ou ETFs que exigem menores investimentos.

Outro dado importante de um Bond é o seu vencimento, em inglês Maturity. É quando a empresa ou governo que tomou o dinheiro emprestado devolve aquilo que recebeu. Os Bonds que pagam cupons, sejam eles anuais ou semestrais, devolvem ao investidor 100% do seu valor de face no vencimento. Os Bonds que não pagam cupons são chamados de Zero-Coupon Bonds e são lançados e negociados com desconto em relação ao seu valor de face e essa diferença é recebida pelo investidor em ocasião do vencimento. Há ainda os Perpetual Bonds, que não possuem vencimento, ou seja, o detentor do título recebe os juros para sempre.

Uma medida importante de um Bond que deve ser considerada pelo investidor chama-se Duration. É medida em anos e mostra em quanto tempo o fluxo de caixa do título se pagará. Quanto menor esse valor, em geral, menor é o risco. Além disso, quanto maior for esse tempo, mais volátil o valor do título é em relação às mudanças nas taxas de juros. Se as taxas de juros sobem, o valor dos títulos caem. Se as taxas caem, os títulos se valorizam. Claro que há outras variáveis que determinam o valor do título quando negociados no mercado secundário, mas de forma sucinta é assim que se comportam.

Moedas internacionaisO leitor mais astuto pode estar pensando que seria uma barbada comprar um título logo antes da data de recebimento do cupom de juros e receber os juros de todo o período passado.  Nesse caso, uma outra medida impede que o investidor detentor do título perca os juros por ter  vendido o título antes desse pagamento. Chama-se Accrued Interest. É medido em dias e em juros. É o tempo que se passou desde o último pagamento de cupom medido em dias e quanto de juros se passou nesse período, medido em porcentagem. Quando você compra o título no mercado secundário, além de pagar o valor do título, a corretagem (em geral 1%), você deve pagar para o vendedor os juros que se passaram nesse período.  Obviamente que esse valor será devolvido a você no próximo pagamento de cupom.

Importante lembrar que caso o investidor permaneça com o título até o vencimento nada dessas flutuações de preço no mercado secundário irá afetar o investimento, pois o investidor ao comprar um título saberá exatamente quanto irá receber até o dia do vencimento.

Por outro lado, se o investidor pretende manter uma gestão ativa, comprando e vendendo títulos, é preciso estar atento quanto a liquidez do título. Quanto maior, melhor. Pode ser frustante querer vender um investimento e não haver ninguém para comprá-lo.

Agora que você já sabe como os Bonds funcionam, vamos mostrar alguns títulos brasileiros negociados no exterior e acessíveis para quem tem conta nos principais bancos e corretoras estrangeiros.

Vou começar por um título muito interessante do Banco do Brasil (ISIN CH0229751927), emitido pelo braço das Ilhas Cayman (Sim, o Banco do Brasil tem um braço nas Ilhas Cayman) no ano de 2013 e com vencimento em 2019. O rating de crédito da empresa é Baa3 pela Moody’s.  A moeda de emissão foi o Franco Suíço (CHF). Naquela época, 1 Franco Suíço valia R$ 2,62. Agora vale R$ 4,05. Um verdadeiro estrago para uma dívida de CHF 275 milhões. Faz parte do risco de emitir dívida em moeda que não é a sua. Azar dos clientes e dos acionistas do banco. O credor detentor do título não tem nada a ver com isso. Para uma empresa do porte do Banco do Brasil (Com ativos de R$1,3 trilhões , receita anual de R$ 157 bilhões e R$ 72 bilhões de patrimônio), vejo pessoalmente como muito remota a chance de não pagamento da dívida, mas claro que ninguém pode garantir 100%.

Bond do Banco do Brasil

Dados relacionados ao título de dívida do Banco do Brasil. Clique para ampliar.

O título foi emitido pagando juros de 2,5% ao ano em cupons anuais. O valor de face do título é de CHF 5.000,00. Um pouco mais de 20 mil reais em valores de hoje. Um valor bem acessível para este mercado. Como se pode ver pelas negociações no mercado secundário, o título está sendo negociado atualmente entre 90 e 91% do valor de face, ou seja, cerca de CHF 4.500,00. Sim, no dia  20/6/2019, o Banco do Brasil prometeu devolver CHF 5.000,00 por cada título detido. Com essa negociação do título com desconto, o investidor que comprar agora no mercado secundário receberá um rendimento anual, somando os cupons (CHF 125,00 por ano por título) e o pagamento do principal, em torno de 5,2%.

Nesse momento é bom lembrar duas coisas. A primeira é que a inflação atual na Suíça é negativa. A segunda é que os juros dos principais títulos negociados em Franco Suíço também estão negativos. Um outro título negociado nessa moeda e pagando juros interessantes é o do Santander Brasil (ISIN CH0181943983). Este vence em curtíssimo prazo, abril de 2016, custa em torno de CHF 20.000,00 cada e rende, comprado a valor de mercado atual, juros anualizados de 5,1%. Isso torna os títulos brasileiros em Franco Suiço, um oásis  no meio do deserto de juros.

Bond Soberano Brasil

Global Bond do governo do Brasil. Clique para ampliar.

Agora vamos falar de um título soberano do Brasil (ISIN US105756BH29). Trata-se de um título emitido em Dólar Americano pelo governo brasileiro no ano de 2006, com vencimento em janeiro de 2018. O rating do emissor é Baa3 pela Moody’s. A emissão total desse título foi de U$ 4,5 bilhões! Os juros pactuados na época da emissão são de 8% ao ano e pagos por cupons semestrais nos meses de julho e janeiro de cada ano. O valor de face de cada título é de U$1.000,00 e atualmente é negociado no mercado secundário entre 105 e 106% desse valor. Adquirindo este título no mercado secundário hoje, o investidor receberá uma rendimento até o vencimento de cerca de 5,6% ao ano.

Não poderia deixar de fora a empresa mais endividada do mundo, a Petrobras. Para quem acredita que a empresa sobreviverá ao longo prazo, seus títulos fornecem uma rentabilidade das melhores do mundo. Quem emite os títulos de dívida da estatal no exterior é a Petrobras International Finance. Sabe onde ela está situada? Sim, é óbvio, nas Ilhas Cayman.

Agora veja este Bond emitido pela Petrobras International Finance em Dólar dos EUA no ano de 2003 (ISIN US71645WAH43). O valor nominal de cada título é de U$ 1.000,00 e o vencimento do título é 10/12/2018. E de quanto é o pixuleco, digo juros, que a Petrobas prometeu pagar aos detentores dos títulos? 8,375% ao ano em cupons semestrais pagos nos meses de junho e dezembro. E quanto o mercado está oferecendo por este título hoje? Em torno de 96% do valor nominal. Comprando agora, recebo quanto se sobrar algum dinheiro no caixa da empresa em 2018? Receberá em torno de 10,2% ao ano até o dia 10/12/2018. Alto risco, alto retorno.

Falando em risco, temos também um título do Banco BMG (ISIN USP07785AF85) emitido em Dólar dos EUA em 2011, com vencimento em  2018 e pagando juros de 8% ao ano. Os cupons são semestrais e o rating de crédito da empresa é B1 (altamente especulativo). Atualmente o título é negociado entre 91 e 92% do valor de face, ou seja, com desconto. Comprando a este preço o investidor receberá cerca de 12,4% de juros ao ano até o vencimento caso a empresa honre com esta obrigação. Não é um título para qualquer um, seja pelo maior risco e pelo valor nominal de cada título ser de U$ 200.000,00.

Bond da BRF

Dados relacionados ao título de dívida da BRF. Clique para ampliar.

Não são só as instituições bancárias brasileiras que lançam títulos no mercado internacional. A BRF (Brasil Foods), cujo  rating é Baa3, também emitiu. Existe um por exemplo (ISIN USP1905CAA82) lançado em 2012, com vencimento em 2022, pagando juros de 5,875% ao ano. A moeda é o Dólar Americano e os cupons são semestrais.  Atualmente o título é negociado a 101% do valor de face, ou seja, com prêmio. O investidor receberia um rendimento até 2022 de cerca de 5,7% ao ano. Infelizmente para muitos, o valor nominal do título é de U$ 200.000,00.

Mudando agora para Euro, temos um título do BNDES (rating Baa3) emitido em 2014 e com vencimento em 2019 (ISIN XS1017435782). Os juros definidos por ocasião do lançamento são de 3,625% ao ano e pagos anualmente no mês de janeiro. O valor de emissão de cada título foi de € 100.000,00. Atualmente estes títulos são negociados no mercado secundário a 88% do valor de face. Caso o investidor adquira o título por este preço, receberá uma remuneração de 7,9% ao ano até o vencimento. Para um título de curto prazo (abaixo de 5 anos), pagando em Euro, no momento atual, são juros bastante significativos.

Pra concluir, investir em títulos brasileiros emitidos no exterior não livra o investidor do risco-Brasil, já que os títulos para serem pagos dependerão da solidez econômica ou do governo brasileiro ou da empresa emissora. Por outro lado, o investidor não fica exposto à flutuação do Real no mercado de câmbio. É uma alternativa de investimento no exterior a ser considerada, pois alia moeda forte e  boa rentalidade, já que os títulos emitidos pelos países desenvolvidos e empresas estrangeiras de primeira linha estão em patamares historicamente baixos.


O código ISIN colocado em cada título é a abreviação de International Securities Identification Number. É um código único que identifica cada valor mobiliário no mundo, seja um título de renda fixa, uma ação, um ETF, etc. É como se fosse a impressão digital do título. Com ele, você pode pedir para o seu banker localizar e comprar o título.

Uma notícia recente a respeito dos Bonds brasileiros negociados no exterior pode ser lida aqui.