Saiba o que é e como montar sua própria alocação Core & Satellite, estratégia muito popular no exterior

Uma das tarefas iniciais e por que não dizer mais importante que você como investidor deve realizar é  definir em quais investimentos aplicar e em que proporção. É a chamada Alocação de ativos. Uma alocação bem definida e com rebalanceamentos periódicos e planejados é uma maneira eficiente de investir, sem se deixar influenciar pelo sobe e desce do mercado. Independente do que aconteça, basta seguir o plano inicialmente traçado.

Infelizmente, hoje muitos focam em encontrar a próxima Tesla ou Netflix que irá deixá-los milionários rapidamente e se esquecem que investimento é uma maratona que requer regularidade e não uma aposta do tipo “tudo ou nada”.

É preciso enxergar seus investimentos como um todo, não apenas como sendo uma ação, fundo ou título. Isso não só vai lhe trazer tranquilidade, como também facilitará as decisões futuras de investimento.

Diante disso, agora você irá aprender um pouco mais sobre um tipo de alocação chamado de Core & Satellite. Alia a simplicidade do investimento em índice com alternativas mais individualizadas e que podem gerar uma valorização extra.

O que é alocação Core & Satellite?

A alocação Core & Satellite, como o próprio nome diz é composta por duas partes, o núcleo (core) e os satélites (satellite).

Alocação de ativosO Core da alocação é a base da carteira. É a parte focada no longo prazo. Longo mesmo, acima de 20 ou 30 anos. É onde as principais classes de investimentos representativas do mercado como um todo são colocadas e mantidas numa estratégia de buy-and-hold.

Dentro desse critério de encontrar ativos que representem o mercado em geral, podemos colocar fundos ou ETFs amplos, ou seja, que cubram uma ampla gama de investimentos nos principais países do mundo. Como fundo varia muito de banco pra banco, nesse artigo vou me ater aos ETFs, que podem ser comprados através de qualquer corretora.

Já os investimentos Satellite são aqueles que visam aproveitar oportunidades de mercado. Podem ser mantidos tanto no curto, quanto no médio e longo prazos. Em geral, são investimentos mais focados e não tão amplos e diversificados como aqueles que compõem o Core.

Estas oportunidades podem tanto ser um país que esteja passando por um bom momento econômico, quanto um setor específico da economia, ou mesmo a ação de uma única empresa que esteja com grandes perspectivas futuras.

Enfim, permite que você aproveite investimentos específicos sem perder a visão geral de seu portfolio.

O que colocar no Core?

O nível de detalhamento do Core pode ser maior ou menor de acordo com a preferência pessoal e também com o tamanho do patrimônio. Se você tiver um patrimônio pequeno, é mais adequado simplificar, pois isso implicará em redução de custos. Se tiver um patrimônio maior, pode optar por um número maior de componentes dentro desse segmento da carteira.

Um exemplo de alocação Core seria dividi-la entre Ações e Bonds. Tanto a parte de ações quanto de Bonds pode ser dividida entre Estados Unidos e Internacional. Assim teríamos a seguinte divisão e o respectivo ETF negociado nas bolsas americanas:

  • Ações dos Estados Unidos: iShares Core S&P Total U.S. Stock Market ETF, ticker ITOT (composto por mais de 3.700 ações representativas do mercado norte-americano)
  • Ações internacionais: iShares Core MSCI Total International Stock ETF, ticker IXUS (composto por mais de 3.300 ações de mais de 30 outros países)
  • Bonds dos Estados Unidos: Vanguard Total Bond Market ETF, ticker BND (composto por mais de 8.300 bonds dos mais diversos emissores e de vencimentos variados)
  • Bonds internacionais: Vanguard Total International Bond ETF, ticker BNDX (composto por mais de 4.100 bonds internacionais)

Viu o nível de diversificação que o mercado internacional é capaz de proporcionar? No Brasil, é comum chamarmos uma carteira de 20 ações e 4 títulos do tesouro de “diversificada”.

Seria possível simplificar ainda mais, já que a Vanguard tem um ETF chamado Vanguard Total World Stock ETF, ticker VT, detentor tanto de ações americanas, quanto estrangeiras, totalizando mais de 7.400 ações. Este ETF poderia ocupar o lugar dos dois primeiros.

Índice de açõesTambém é possível ampliar ainda mais o Core, colocando ETFs amplos de Commodities ou REITs, de acordo com sua opção. O maior ETF de commodities diversificadas é o PowerShares DB Commodity Index Tracking Fund (DBC). No caso dos REITs, a escolha poderia ser o Vanguard REIT ETF (VNQ)

Para quem visa renda, pode-se pegar ETFs amplos com foco em dividendos. Dois exemplos são o Vanguard International Dividend Appreciation ETF (VIGI) e o Vanguard Dividend Appreciation ETF (VIG).

Em termos percentuais de distribuição dentro do Core, você pode distribuir de acordo com o nível de risco que deseja correr. Quanto maior a distribuição em Bonds, menor o risco.

O que colocar como Satellite?

A alocação Satellite é mais flexível, mas também mais arriscada, pois nela você deposita confiança de bater o desempenho do mercado.

Nos anos 2000, o ativo mais popular nessa alocação e que apresentou um desempenho fora de série foi o investimento em ações da China. Investidores americanos e europeus que aproveitaram o enorme crescimento da economia e das empresas chinesas e compraram ETFs de ações do país, conseguiram um retorno adicional em relação àqueles que apenas investiram no mercado local.

Mesmo o mercado brasileiro teve um excelente desempenho nesse período. Entretanto, se fosse possível ao investidor brasileiro investir diretamente daqui no mercado chinês ou indiano, por exemplo, o resultado seria ainda melhor.

Assim, caso você queira aproveitar as empresas das economias de maior crescimento no mundo hoje, considerando apenas os países que possuem um ETF próprio, você encontraria a lista a seguir:

  1. Índia
  2. China
  3. Filipinas
  4. Vietnã
  5. Irlanda
  6. Indonésia

Outras oportunidades surgem também em se tratando de setores da economia. Dois têm ficado em destaque nos últimos anos. O setor de tecnologia da informação que pode ser representado pelo ETF Powershares QQQ, que segue o índice Nasdaq-100 e o setor de  biotecnologia, que pode ser representado pelo ETF iShares Nasdaq Biotechnology ETF (IBB). Além disso, um setor que está indo muito bem em 2016 e tem boas perspectivas para os próximos anos é o de mineração de ouro, representado pelo ETF VanEck Vectors Gold Miners (GDX).

Não se pode esquecer ainda das ações individuais. É possível optar por investir em empresas de crescimento ou microcaps fora do radar do mercado, como forma de tentar uma rentabilidade extra. Por outro lado, existe também um maior risco se os resultados da empresa não corresponderem.

Investimentos MundiaisVocê também pode montar uma “mini carteira” de ações com as boas empresas que identificar. É muito mais fácil acompanhar os resultados de 3 ou 4 empresas que você tenha gostado do que uma carteira completa com 20 ou 25 empresas.

É possível ainda aproveitar situações especiais em determinada empresa, como foi o caso da compra da SABMiller pela AB-Inbev. Já era uma jogada de certa forma previsível, como eu abordei no artigo sobre o grupo 3G Capital. Quem vislumbrou e usou a alocação Satellite para especular essa transação comprando ações da SABMiller na Bolsa de Londres, recebeu um prêmio de “módicos” 50% em cima do preço de mercado das ações à época.

Da mesma forma, não existe uma regra absoluta sobre o que e quanto colocar na alocação Satellite. É um tipo de abordagem que depende das condições do mercado, das perspectivas futuras de empresas e setores e das oportunidades que você identificar.

Montando uma alocação Core & Satellite

A distribuição dos investimentos entre Core e Satellite é bastante flexível. Não há limites para um nem para outro. Tudo depende do seu conhecimento e perfil.

Quanto mais passivo e conservador for seu estilo, maior deve ser a alocação Core, que segue os índices de mercado e em geral possui menos volatilidade que uma carteira composta por poucas ações ou bonds.

Você também pode apenas limitar a alocação Satellite para um máximo de 10 ou 20% da carteira, como forma de não se sentir obrigado a comprar algum ativo em específico. Dessa forma, você terá mais tempo para identificar as opções e comprá-las conforme isto for acontecendo.

Se, por outro lado, você for um investidor mais ativo, que se aprofunda nas pesquisas e esteja disposto a correr mais riscos, pode investir apenas uma pequena parcela como Core e a maior parte como Satellite.

Exemplo de Alocação Core & Satellite

Pra exemplificar, resolvi montar uma pequena alocação Core & Satellite para um investidor com patrimônio de U$ 100 mil. Todos são ETFs negociados na Bolsa de Nova Iorque.

Alocação Core (80%):

iShares Core S&P 500 ETF (IVV): U$ 20 mil
iShares Core MSCI Europe ETF (IEUR): U$ 10 mil
iShares Core MSCI Pacific ETF (IPAC): U$ 10 mil
iShares Core U.S. Aggregate Bond ETF (AGG): U$ 20 mil
iShares Core International Aggregate Bond ETF (IAGG): U$ 20 mil

Alocação Satellite (20%):

iShares MSCI India ETF (INDA): U$ 4 mil
iShares MSCI China ETF (MCHI): U$ 4 mil
iShares MSCI Indonesia ETF (EIDO): U$ 4 mil
iShares U.S. Medical Devices ETF (IHI): U$ 4 mil
iShares Emerging Markets Corporate Bond ETF (CEMB): U$ 4 mil

Conclusão

Definir uma alocação de ativos visando adequar seus investimentos ao seu patrimônio e perfil é fundamental para se tornar um investidor de sucesso. É sobre ela que você começará a comprar ativos, sejam títulos, ações ou ETFs, de forma a encaixar as peças em seu portfolio.

A alocação Core & Satellite permite não só que você estabeleça a base de sua carteira, mas também que  aproveite as oportunidades que o mercado lhe apresentar. Isso tudo sem desviar da sua alocação e do seu plano inicial de investimentos. É algo que deve ser considerado quando você abrir sua conta no exterior.