Como investir para renda no exterior – Parte 3

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Como escolher as melhores empresas pagadoras de dividendos no exterior

É o sonho de praticamente todo investidor passar o resto da vida recebendo pagamentos periódicos das empresas em que investe. É como receber salário sem precisar trabalhar. Se este é também o seu objetivo, o artigo de hoje foi feito pra você.

Você já aprendeu como receber renda através de investimentos comuns e outros nem tão comuns, agora irá descobrir mais a respeito do investimento em ações voltado para renda. E, em se tratando de mercado acionário, a renda se consegue através do recebimento de dividendos, que nada mais são do que os lucros distribuídos aos acionistas.

É um assunto bastante procurado, mas que ainda gera muitas dúvidas. Diante disso, vou mostrar o que fazer e o que não se deve fazer quando o objetivo é conseguir renda através da distribuição de lucros pelas empresas.

Nem todo dividendo é igual

Antes de mais nada, é preciso ficar claro uma enorme diferença que existe entre as empresas norte-americanas (principalmente) e as demais do resto do mundo. Nos EUA, é muito mais comum encontrar empresas com políticas claras de pagamento de dividendos. Algo que se encontra também em muitos países, mas não na mesma proporção.

E o que são estas políticas? São pagamentos periódicos, em geral a cada trimestre, todos os anos e que costumam ser elevados a cada 12 meses.

Vamos ver o examplo da Procter & Gamble para deixar tudo mais claro. A companhia paga dividendos desde a fundação, em 1890. Sim, os acionistas da P&G tem sido remunerados por 126 anos consecutivos. Desde 1993, os pagamentos têm sido ainda mais consistentes. São pagos religiosamente nos meses de fevereiro, maio, agosto e novembro. De maio de um ano a fevereiro do ano seguinte, os dividendos são exatamente iguais. Quando completa o ciclo de quatro pagamentos, a empresa aumenta o valor dos dividendos.  Isso aconteceu mesmo durante a crise de 2008. Veja abaixo:

Dividendo P&G

Dividendos trimestrais da Procter & Gamble

Esse tipo de empresa é caracterizada como de crescimento de dividendos ou Dividend Growth. Empresas dessa categoria, como a P&G, são importantes para o investidor que busca renda devido a previsibilidade de seus dividendos. Por ter uma política muito clara, por ser uma empresa dominante em seu setor, com alta geração de caixa, ela tem condições de manter essa distribuição por muitos e muitos anos.

Não quer dizer obviamente que isso é eterno. Nada impede que no futuro a empresa passe por alguma dificuldade e que ela reduza ou cancele estes pagamentos. E isso já aconteceu com algumas companhias que tinham histórico de décadas de pagamento, como por exemplo Pitney Bowes em 2013, Century Link em 2012 e General Electric em 2009. A GE é outra empresa centenária no pagamento de dividendos. Reduziu esse pagamento apenas duas vezes. A primeira após a crise de 29 e a segunda agora em 2009.

Dividendos GE

Histórico de dividendos da General Electric.

Por outro lado, há empresas que pagam dividendos de maneira aleatória, não frequente ou apenas em ocasiões especiais. Esse tipo de empresa não é o mais adequado para quem procura renda periódica e perene, pois não há como saber quando a empresa pagará dividendos novamente.

Como avaliar as empresas olhando para o presente e passado

Avaliar uma empresa pagadora de dividendos não é tão diferente assim de avaliar qualquer outro tipo de empresa, apenas a questão dos dividendos é que passa a ter um peso maior. A evolução da receita, do EBITDA, do lucro, da participação de mercado, etc continuam tendo importância. Ao mesmo tempo, deve-se avaliar a qualidade dos dividendos. Estão sendo pagos com frequência? Há quantos anos? Estão sendo elevados periodicamente? Os dividendos são elevados acima da inflação? A empresa já aboliu ou reduziu dividendos alguma vez?

Relatório Sure Dividend

Em termos de múltiplos dentro da análise fundamentalista, três são bastantes usados. O primeiro é o dividend yield, que nada mais é que a divisão entre o dividendo pago nos últimos 12 meses pela cotação da ação em Bolsa. O segundo é o payout, que é a divisão do dividendo pago em relação ao lucro. Mostra quantos porcento do lucro foi distribuído aos acionistas. O último é o yield on cost, que mostra qual seria o dividend yield atual caso você tivesse comprado a ação ao preço de 5 anos atrás. Não se deve usar esses dados isoladamente, mas sim em conjunto com uma avaliação mais ampla da empresa.

Dividendos e DólarHá ainda uma corrente de pensamento que leva os dividendos de maneira ainda mais a sério. O raciocínio é o seguinte. Se uma empresa tem pagado dividendos trimestrais por 25 anos e aumentado esses dividendos anualmente, isso significa que a empresa está em setor perene do mercado, tem sido bem administrada mesmo com a troca de executivos, está lucrando por muito tempo, está com boa gestão de caixa, possui dinheiro sobrando para investir e para pagar os acionistas, etc.

Seguindo esta corrente, a evolução do dividendo por ação e o números de anos de pagamento consecutivo de dividendos (sem cortes ou reduções) são as métricas mais importantes a se observar, pois é elas refletem de maneira indireta a qualidade da empresa. Existe até uma classificação relacionada ao número de anos consecutivos de pagamentos de dividendos:

Dividend Kings: acima de 50 anos.

Dividend Champions ou Aristocrats: acima de 25 anos.

Dividend Contenders ou Achievers: entre 10 e 24 anos.

Dividend Challengers: entre 5 e 9 anos.

Uma análise tão criteriosa assim só pode ser aplicada em países como os EUA e o Reino Unido, onde há um número grande empresas com histórico de décadas e até mais de 100 anos de fundação. Existem algumas outras listas com critérios um pouco diferentes compiladas por alguns sites e blogs. Essas listas buscam filtrar as empresas com melhor histórico de pagamento de dividendos em diversos países. Elas podem ser baixadas em arquivo para Excel ou visualizadas diretamente do site em que são publicadas.

Estas listas podem também ser usadas por você como uma pré-seleção de empresas que você poderá estudar mais a fundo depois.

Como avaliar as empresas olhando para o futuro

Um longo histórico de pagamento de dividendos pode ser um excelente critério para escolher ações. Entretanto, ao mesmo tempo em que você escolhe empresas tão antigas, você acaba deixando de lado empresas brilhantes e mais novas que podem no futuro distribuir muito mais dividendos que as mais velhas.

Nenhuma das grandes empresas de tecnologia altamente lucrativas de hoje fazem parte por exemplo das lista S&P Dividend Aristocrats. Microsoft, por exemplo, já é considerada uma grande pagadora de dividendos e tem “apenas” 15 anos de crescimento de dividendos. A Apple com as toneladas de dinheiro que produz vendendo iPhones e correlatos tem só 5 anos de pagamento de dividendos.

Dividendos e AçõesPortanto, avaliar apenas o passado, mesmo que traga maior previsibilidade no pagamento dos dividendos, pode não incluir empresas que lucrarão muito e distribuirão bastante dividendo nos próximos anos. Assim, é preciso também ter um olho no futuro e avaliar se a empresa está preparada para as novas tendências de mercado, se ela projeta crescimento das vendas, se possui diferencial competitivo, se os seus lançamentos têm feito sucesso e como está a expectativa dos novos projetos, etc.

Avaliar dividendos passados é importante, mas você só irá receber dividendos vindos de lucros futuros da empresa em que investir.

Erros que o investidor em dividendos não deve cometer

Investir em dividendos pode ser uma grande maneira de conseguir renda e crescimento patrimonial no longo prazo. Entretanto, deve-se ficar atento a alguns erros comuns que muitos investidores cometem.

A primeira seria focar apenas no dividend yield. Como sabemos, é um dado que leva em conta o preço da ação e os últimos dividendos pagos. A companhia pode ter pagado um dividendo especial nos últimos 12 meses, ou estar passando por problemas que derrubaram o preço da ação, distorcendo o dividend yield para cima. Em um ambiente onde a média de dividendos é de 2%, encontrar uma empresa pagando 6 ou 7% não é motivo para tanta alegria antes de uma avaliação mais profunda.

Relatório Sure Dividend

Esquecer do payout. Um payout muito elevado, acima de 90% por exemplo, mostra que a empresa está distribuindo muito do seu lucro aos acionistas e a margem para aumentos futuros dos dividendos vai depender muito de uma elevação nos lucros. Já uma empresa com 60% de payout tem uma margem muito maior para elevar dividendos no futuro, mesmo que o lucro fique estável ou caia. Uma empresa que aumente dividendos apenas às custas de aumento do payout deve ser vista com bastante ceticismo.

Esquecer do valuation. Uma empresa com uma relação Preço/Lucro muito elevada pode imbutir uma alta expectativa de crescimento de lucros. Caso as expectativas não se concretizem, o valor da ação pode despencar. Não adianta focar nos dividendos e “perder” com a desvalorização da própria ação.

Esquecer de reinvestir os dividendos na fase de acumulação. Se você ainda não precisa dessa renda para viver, o mais adequado é reinvesti-los. Diversos estudos mostram que no longo prazo, o reinvestimento dos dividendos é responsável por boa parte do retorno de uma carteira de ações.

O papel dos ETFs

Caso ficar avaliando empresas não seja o seu caso, o mais simples a fazer é encontrar um ETF que faça a seleção de ações e rebalanceamentos para você. E como o universo dos ETFs está sempre em expansão, opções de ETF com foco nos dividendos é o que não falta. Nos EUA, há muito mais opções. Vou destacar quatro delas.

Dividendos MultimoedasProShares S&P 500 Dividend Aristocrats ETF (NOBL) é um ETF que investe apenas nas empresas dentro do índice S&P 500 que tem aumentado o pagamento de dividendos por 25 anos ou mais.

Schwab U.S. Dividend Equity (SCHD) é um ETF que investe em 100 empresas baseado em alguns critérios fundamentalistas como fluxo de caixa/dívida total, ROE, crescimento dos dividendos nos últimos 5 anos e um mínimo de 10 anos de pagamento de dividendos.

Vanguard Dividend Appreciation (VIG) possui posição atualmente 185 companhias que têm aumentado os dividendos por pelo menos 10 anos. A taxa de administração desse ETF é de irrisórios 0,09%.

iShares Select Dividend ETF (DVY) investe em cerca de 100 empresas de todos os tamanhos e que tenham um histórico de 5 anos de pagamento de dividendos. O custo é de 0,39%.

Nos demais países ou continentes também existem ETFs com focos em dividendos. Alguns exemplos:

  • iShares Swiss Dividend ETF na Suíça
  • iShares UK Dividend ETF no Reino Unido
  • SPDR S&P Euro Dividend Aristocrats ETF na zona do Euro
  • Listed Index Fund Japan High Dividend (TSE Dividend Focus 100) no Japão

Lembre-se de que um ETF é tão bom quanto o seu índice. Avaliando os critérios adotados pelo índice em que o ETF se baseia é possível ver como é feita a seleção de ações e escolher o ETF com os métodos mais alinhados com os seus objetivos.

Conclusão

Investir em dividendos é um assunto bastante amplo, que será mais discutido futuro. Neste artigo procurei mostrar os princípios que norteiam esse tipo de estratégia. Muitos dos quais é impossível de aplicar no Brasil, pois não temos nem um universo grande de ações e muito menos um histórico de longa data de pagamento de dividendos.

É uma maneira interessante de agregar renda e também crescimento patrimonial dentro do seu portfolio, quando associada com as demais classes de ativos. No próximo artigo, montarei uma carteira focada em renda como exemplo para você ver como encaixar todas essas peças distribuidoras de dinheiro.


Você pode pular para a parte 4 clicando aqui.

By | 2017-08-10T14:42:27+00:00 23 de outubro de 2016|Diversificação, Investimentos|18 Comments

18 Comments

  1. GJ 23/10/2016 at 22:52 - Reply

    Investidor Internacional,

    Desculpa se a pergunta for muito básica. Mas, por qual motivo exatamente uma empresa vai querer distribuir dividendos? Qual seria o incentivo delas?

    • Investidor Internacional
      Investidor Internacional 24/10/2016 at 08:01 - Reply

      Olá GJ,

      Os acionistas são os donos da empresa. Nada mais justo do que distribuir lucros para os donos, não é mesmo?

      Abçs!

  2. Rodolfo 24/10/2016 at 07:33 - Reply

    II,

    Bacana hein … eu conhecia o nobl … esses outros aí não … muito bom post …

    Abs,

  3. Bruno 24/10/2016 at 10:42 - Reply

    Mais um post sensacional! Ja coloquei os ETF’s no meu radar na TDAmeritrade! Vou aproveitar a queda do dolar e mandar mais uma graninha para fora! MUITO OBRIGADO!

    • Investidor Internacional
      Investidor Internacional 24/10/2016 at 13:58 - Reply

      Olá Bruno,

      Tudo indica dólar abaixo de 3,00 até o final do ano.

      Não dá pra prometer obviamente, mas seria uma ótima oportunidade.

      Abçs!

  4. Patrícia 24/10/2016 at 16:22 - Reply

    Olá II!

    Conheci seu site há pouquíssimo tempo e a cada dia me impressiono mais com sua didática, cultura, conhecimento e experiência!

    Tenho vontade de aplicar no exterior, mas ainda estou tentando entender como os procedimentos acontecem… queria ter um pouco mais de segurança para começar…

    Vi aqui os textos sobre corretoras, me desculpe pela ignorância… como podemos nos assegurar de que o dinheiro está sendo enviado para instituições seguras?… Minha preocupação é em relação à fiscalização dessas instituições, onde posso obter mais informações sobre certificações dessas corretoras? A quem recorremos no caso de quebra das mesmas? Como isso funciona no exterior?

    Será que você poderia me fornecer alguma orientação?

    Obrigada! Parabéns pelo excelente trabalho!

    Patrícia

    • Investidor Internacional
      Investidor Internacional 24/10/2016 at 18:05 - Reply

      Olá Patrícia,

      Obrigado pelo comentário.

      A avaliação das instituições financeiras pode ser feita de várias maneiras. Primeiro e mais difícil é ter indicação de alguém confiável. Alguns dos bancos mencionados neste site foram escolhidos através da indicação de clientes e ex-clientes, pessoas do meio financeiro e algumas publicações não muito divulgadas.

      Você pode também pesquisar na instituição que regula os bancos e corretoras em cada país. No caso dos EUA, esta instituição é a FINRA. Em Luxemburgo é a Commission de Surveillance du Secteur Financier (CSSF).

      Assim como no Brasil, os demais países têm mecanismos de seguro contra quebra de instituições financeiras, mas cada um tem suas características.

      Abçs!

    • Bruno 26/10/2016 at 08:47 - Reply

      Patricia bom dia. Seguindo os valiosos conceitos desse portal, abri a poucos meses minha primeira conta na TD Ameritrade, mas nesse caso, trata-se de uma cctvm. Ano que vem quando eu for aos EUA, pretendo abrir uma conta no Wells Fargo. Abs

  5. Igor Furlan 26/10/2016 at 21:43 - Reply

    Olá, Raphael

    Tem algum site voltado para o mercado internacional semelhante ao Bastter? O mais próximo que encontrei foi o GuruFocus ou o Morning Star.

    Abracos.

  6. Antonio 30/10/2016 at 16:34 - Reply

    Antes de mais nada, parabéns pelo site. Excelente e com muitas informações úteis.
    Você já ouviu falar na corretora D&P no Uruguai? O que acha de aplicar através do Uruguai?
    Um grande abraço

    • Investidor Internacional
      Investidor Internacional 30/10/2016 at 18:27 - Reply

      Olá Antonio,

      Obrigado pelo comentário.

      Não conheço essa corretora. Acho que o Uruguai tem um risco político parecido com o do Brasil, por isso prefiro países mais distantes e menos bolivarianos.

      Abçs!

  7. Antonio 30/10/2016 at 16:37 - Reply

    Outra dúvida se vc pudesse sanar. Quando olhamos os dividendos das empresas americanas devemos tirar 30% do imposto para não residentes? O imposto é retirado na fonte para não residentes, p.exemplo, ao receber dividendos de 3% da PG americana, o governo já retira 0,9% do imposto e recebo apenas 2,1%?

    • Investidor Internacional
      Investidor Internacional 30/10/2016 at 18:28 - Reply

      Olá Antonio,

      O dividendo é pago integral e ao mesmo tempo o imposto é debitado da conta. Nos EUA, a alíquota é de 30% mesmo.

      Abçs!

  8. Antonio 30/10/2016 at 19:28 - Reply

    Obrigado pela resposta. A corretora uruguaia foi indicada pela Empiricus.
    Consegui achar o relatório na corretora americana e verifiquei que os 30% sao debitados no depósito do dividendo.
    Aguardo ansioso a sua parceria. Um grande abraço

  9. Anonimo 26/06/2017 at 22:41 - Reply

    Boa noite.
    Os ETFs citados no artigo distribuem os dividendos ou os reinveste automaticamente?

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