A economia nunca foi um carro, que você pode acelerar e desacelerar quando quiser

Tenho acompanhado o noticiário econômico cada vez com menos frequência. Primeiro porque o nível é baixo e como já falei no último artigo, a imprensa manipula as informações de quem ela não gosta e serve de porta-voz para quem ela gosta.  Segundo porque em geral falta o mínimo de espírito crítico em quem comenta. Engolem os maiores absurdos sem questionarem.

Não sou economista formado. Acho que isso me ajudou a compreender melhor os ensinamentos da Escola Austríaca, que são muito coerentes e relacionados com a realidade, mas que não são ensinados nas faculdades. Isso contribuiu para eu realmente enxergar a economia como um processo de relações entre as pessoas e não como sendo um monte de números e equações impessoais que magicamente promovem o desenvolvimento da sociedade.

Quantas vezes você ouviu dizer que a economia estagnou, ou teve uma desaceleração, ou que o governo vai tomar medidas para estimulá-la? De tanto que repetem essas besteiras, é difícil encontrar alguém que não perceba o tanto que isso é vazio e cria a ilusão de que os brasileiros compõem uma organização que age conforme as orientações do governo.

Isso sem mencionar o fato dos jargões complicados e praticamente incompreensíveis usados para tentar justificar uma medida ou decisão, como essa última redução da taxa de juros Selic. Veja só uma parte do último comunicado do Banco Central do Brasil:

“O atual cenário, com um processo de desinflação mais disseminado e atividade econômica aquém do esperado, já torna apropriada a antecipação do ciclo de distensão da política monetária, permitindo o estabelecimento do novo ritmo de flexibilização”

Você confiaria em alguém que escreve assim?

Einstein tem a resposta para casos como este: “Se você não consegue explicar em termos que uma criança de 6 anos entenda é porque você mesmo não entende.”

Computador antigo

Como os técnicos do Banco Central vêem a economia

A questão é que os planejadores centrais, sejam políticos, ministros ou membros da equipe econômica, têm que arrumar justificativas para seus atos e principalmente para justificar a sua própria existência. Precisam mostrar ao público (ou pelo menos fazer acreditar) que eles sabem exatamente o que está acontecendo e o que devem fazer para resolver os problemas que estejam acontecendo.

E agora você irá saber porque eles estão completamente enganados.

A ilusão do conhecimento

Provavelmente você já deve ter visto aquele mundo de dados relativos a economia. Retirei tópicos relativos a macroeconomia do site do IPEA:

  • Balanço de pagamento
  • Câmbio
  • Comércio Exterior
  • Consumo e vendas
  • Contas nacionais
  • Correção monetária
  • Emprego
  • Finanças públicas
  • Indicadores Sociais
  • Crédito
  • Percepção e expectativa
  • Preços
  • Produção
  • Projeções
  • Salário e Renda
  • Transporte

Para cada tema, há inúmeras fontes de dados. É número que não acaba mais relacionado a diversas atividades dentro do Brasil.

Agora, como saber o que é bom ou ruim dentro desses números?

Inflação

Você já deve ter visto por exemplo que o Banco Central estabelece metas de inflação. Para 2017, ele estabeleceu uma meta de 4,5%, com intervalo de tolerância de 1,5% para cima e para baixo. No caso, o BC vê a inflação como a medida de preços calculada pelo IPCA.

O problema já começa aí. Inflação não é um aumento generalizado de preços de bens e serviços, como quase todo mundo, inclusive o Banco Central, acredita. Inflação é o aumento do dinheiro em circulação, cuja consequência é a elevação dos preços. Agora como eles vão “controlar” alguma coisa que não sabem o que é?

A definição correta de inflação ficou bastante óbvia na criação da bolha imobiliária brasileira. Um aumento absurdo do crédito imobiliário, capitaneado pelos bancos públicos, associadas a medidas populistas do tipo “Minha Casa, Minha Vida”, levaram o preço dos imóveis para as alturas, totalmente desconectado da renda e do poder aquisitivo das pessoas.

O aumento da circulação de moeda e o aumento de preços nada mais são do que confisco disfarçado. O seu dinheiro simplesmente passa a valer menos. Quando o BC tem a meta de 4,5% de aumento de preços, ele diz pra você que a meta é tomar 4,5% do valor do dinheiro que você tem no próximo ano.

O ideal é que os preços não subam, mas sim permaneçam estáveis ou caiam. Parece óbvio, mas é inacreditável como muitos não enxergam isso. Eu prefiro pagar mais barato pelas coisas. Inclusive deve ser por isso que as lojas enchem quando tem promoção. A tendência natural é a queda de preços com passar do tempo, porque o aumento da eficiência e da produtividade permitem produzir mais a um custo menor. Tem sido assim com computadores, celulares e passagens aéreas. Claro que nem tudo é linear, há inúmeros outros motivos que definem os preços, podendo levá-los a diversas direções.

Por outro lado, existe uma corrente que advoga que os preços subirem discretamente é uma “boa inflação”. Duvido que algum deles, quando faz uma compra, paga um pouco a mais, porque acredita que isso é bom para a economia. Ninguém é proibido de pagar mais caro. Só não queira isso para todo mundo.

Veja o caso do Japão. Sabe qual foi a média de inflação no Japão nos últimos 20 anos? Pouca coisa acima de zero! Ou seja, se você tivesse guardado ienes em 1997 e voltasse ao Japão hoje, poderia comprar praticamente a mesma coisa. E tem gente que acha isso ruim!!!

Inflação no Japão

Histórico da inflação no Japão

Ano passado inclusive  empresa japonesa Akagi fez um vídeo pedindo desculpas por ter aumentado o preço do picolé de 60 para 70 ienes. O picolé custava 60 ienes havia 25 anos!

O único que deve ter comemorado é o primeiro ministro Shinzo Abe, para quem o problema do Japão é a falta de “inflação” e estabeleceu uma meta de 2% ao ano. De onde tiram esses números mágicos eu não sei.  Se você souber pode comentar. No Quora, tentaram responder, mas eu não me convenci. Inclusive as metodologias de cálculo de preços mudam de país pra país. O Japão é um dos países mais desenvolvidos do mundo, como uma sociedade das mais civilizadas e tem político enxergando problema fora do espelho.

Outros dados

Se nessa questão da inflação, que é algo do dia-dia, muitos não entendem o óbvio, o que dizer então do resto da enxurrada de números que a equipe econômica do governo se debruça para querer entender o funcionamento do país?

Quanto de desemprego é bom? 1%, 5% ou 10%? Depende. Quando você está empregado, o desemprego é zero. Quando você está desempregado, o desemprego é 100%.

E o câmbio? Dólar a R$3,20 é bom ou ruim? Depende. Se eu fosse um turista americano, gostaria que estivesse R5,00, mas como eu sou um brasileiro ganhando em Real e gosta de viajar de vez em quando, gostaria que voltasse pra R$2,00. O preço ideal do câmbio é o preço que o mercado decide menos a interferência do Banco Central. Se tem muita gente querendo comprar aquela moeda, ela valoriza. Se tem mais gente querendo vender, ela desvaloriza.

E os salários? O aumento da massa salarial é bom ou ruim? Depende. Se o meu salário está subindo é bom. Se estiver caindo é ruim. E se eu estiver tendo que pagar os funcionários  cada vez mais? Aí é ruim. Bom, mas os funcionários estão produzindo mais e os lucros estão cada vez maiores. Nesse caso, então é bom.

Percebeu que é ridículo querer entender o relacionamento de milhões de pessoas simplesmente com números?

A ilusão do controle

Da mesma forma que o governo tem problemas para querer entender o que está acontecendo, ele consequentemente terá problemas para querer controlar a situação.

A inflação está cedendo? Vamos abaixar os juros.

A inflação está subindo? Vamos aumentar os juros.

O desemprego está subindo? Vamos abaixar os juros.

A inflação e o desemprego estão subindo? [silêncio]

O consumo está caindo? Vai fazer o quê? Sequestrar as pessoas em casa e levá-las ao shopping?

É absolutamente impossível querer controlar tudo isso. Não há como algumas pessoas em Brasília quererem controlar toda a produção, o consumo e as decisões individuais de quase 207 milhões de pessoas. Produtos não são produzidos na base das canetadas. Preços não são definidos em decisões governamentes (aqueles que são acabam subindo mais que os de mercado). Empregos não são criados com mudança nas taxas de juros.

Apenas uma coisa nessa confusão toda faz sentido. Em muitos casos, quando o governo quer “estimular a economia” é através da tirada de algum obstáculo anteriormente colocado por ele próprio. Redução de IPI, ou de algum outro imposto, retirada de alguma burocracia ou de custo desnecessário. Claro que no meio desses pacotes costuma ter um monte de inutilidades que não contribuem em nada.

O governo só lhe ajuda a correr mais rápido quando tira alguma das centenas de pedras que ele pendurou em você.

O que é a economia?

A economia nada mais é que o dia-dia. É você trabalhar, produzir, gerar valor para os outros em troca de pagamento. É você ir ao supermercado, à feira, ao médico, ao cinema, levar o cachorro no pet-shop pra vacinar. São as relações humanas envolvidas em todo esse processo. Não é um apanhado de números de inflação,  juros, cotação do dólar, índice de desemprego, etc.

Quem cria a economia é você. Não é o Banco Central ou o Ministro da Fazenda. Em geral, essa vontade de controlar a ação humana é que cria as bolhas, as distorções, as crises. Cria também fome, miséria e tudo que aqueles que acham que podem controlar o mundo dizem combater.

Economia de fato

Como é a economia na verdade

Quantas vezes você passou em algum comércio e pensou “será que alguém vai nesse lugar?” Se existe uma empresa aberta é porque ela está atendendo alguém. Se pararem de ir, simplesmente fecha. Determinado imóvel já foi uma imobiliária, uma cervejaria, um salão de cabelereiro. O que não dá certo fecha e abre outro no lugar. O mercado é um sistema que se auto-regula sozinho. Não é preciso nenhuma divindade para determinar o que se deve fazer.

Há alguns anos, houve a febre do frozen yogurt. Abriram um monte de lojas para vender esse produto. O público gostou, comprou e os empresários foram abrindo cada vez mais. Eis que com o passar do tempo, o público caiu, parou de consumir e muitas lojas fecharam. Algumas sobreviveram e continuam ativas.

Já pensou se tivessem feito algum índice para medir o desemprego e a queda da produção do frozen yogurt? Imagine a cena do presidente indo a TV dizendo que tomaria medidas para recuperar a produção de frozen yogurt, que as lojas estão fechando, o desemprego está aumentando, etc. Aí ele anuncia que o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal abririam linhas de crédito subsidiado para abertura de lojas e para fornecer capital de giro para as empresas. Também reduziriam o IPI e o ICMS da produção do igourte. Seria uma enorme perda de tempo e recursos e não resolveria absolutamente nada. As pessoas simplesmente reduziram o consumo do produto, a produção se ajustou de acordo. Nada para o governo se meter.

Quando você começa a observar, percebe que o governo se intromete demais nas relações econômicas entre as pessoas. É por isso que as coisas funcionam de maneira mais lenta, mais cara e mais tumultuada do que ela deveria ser. Falando nisso, você faz idéia do tamanho da legislação tributária brasileira?

Legislação Tributária

Tamanho da legislação tributária brasileira

Veja se precisa o governo legalizar o desconto para pagamentos à vista nas lojas de varejo. Veja se precisa o governo se meter nas relações trabalhistas, criando regras, salários mínimos, etc. As únicas regras e salários justos são aqueles acordados entre o trabalhador e o empregador estabelecidas em contrato. Veja se é necessário pedir autorização da FUNAI e de pelo menos outros 40 órgãos para construir uma fábrica de automóveis. Veja se é necessário ficar barrando por meses produtos importados que chegam ao Brasil.

É por essas e outras que muitas empresas desistem ou pelo menos pensam duas vezes antes de se instalar no Brasil. Ikea, Xiaomi, Ryanair são apenas algumas das grandes empresas que desistiram ou mesmo tiraram o time de campo no Brasil por causa de nossa burocracia, corrupção e ineficiência. E são essas empresas e todas as demais que produzem, geram riqueza e empregos.

Conclusão

A única conclusão que podemos tirar disso é que para ver a economia melhorar basta o governo parar de se intrometer. O Brasil é um dos campeões mundiais em burocracia e intervenção estatal, o que prejudica todos as pessoas e setores econômicos.

Não é preciso ninguém para regular as ações humanas, dizendo quem deve consumir, quem deve poupar ou quem deve gerar empregos. O país funcionaria muito bem se cada pessoa individualmente tivesse a liberdade para buscar os seus próprios objetivos.

Não existe esse negócio de estimular ou segurar a economia. Deixe o livre mercado agir que tudo acontece de maneira mais natural e de acordo com os interesses das pessoas.

Da próxima vez que o governo anunciar alguma medida para corrigir a economia, apenas saiba que ele faz parte do problema e não da solução.