2017 – Nada poderia estar melhor

Diversificação internacional

Saiba por que 2017 tem se mostrado até aqui um ano tranquilo no mercado de ações

Se o ano de 2017 começou com algumas turbulências políticas, como a questão da Síria e os movimentos militares na península da Coréia, e sociais, como a problemática imigração de milhares de pessoas do Oriente Médio para a Europa, ele tem se mostrado até aqui bastante zeloso com os investidores no mercado de ações.

As principais economias do mundo estão em crescimento. As perspectivas futuras têm melhorado na visão de inúmeros analistas. Os lucros das empresas negociadas em Bolsa também vêm crescendo. E o mercado de ações dos principais mercados tem conseguido ganhos, acompanhando toda essa evolução.

Neste artigo mostrarei o que tem acontecido nos mercados internacionais até agora em 2017 e explicar por que o maior risco agora é um otimismo exacerbado.

Os mercados

Nos últimos trimestres a economia dos Estados Unidos tem se mostrado estável e com um crescimento moderado. Alguns dados divulgados recentemente registraram crescimento na geração de empregos e o nível de confiança dos negócios e do consumidor também está em um patamar mais alto.

Os primeiros meses do governo Trump reanimaram os americanos. Existe uma enorme movimentação para que se retome a construção de fábricas e as reduções tributárias em vista devem atrair muito capital ao país.

Usina de energiaAo mesmo tempo, o dólar americano vem se fortalecendo, o que de certa forma favorece àqueles países com forte exportação para os Estados Unidos, caso do Japão, China e Europa. A recuperação da Europa, mesmo que modesta, vem acontecendo de maneira simultânea em diversos países. A produção industrial na Zona do Euro atingiu este mês o ponto máximo em 6 anos e alguns países como Áustria, Bélgica e Espanhas apresentaram crescimento acima do esperado.

A China mesmo com crescimento menor que nos anos anteriores, ainda deve crescer acima de 6% em 2017, particularmente impulsionada pelos gastos domésticos e aumento do consumo pela população local. O crescimento do Japão, mesmo que menor, mantém ainda uma trajetória positiva, tanto pela demanda doméstica como pelas exportações.

As  ações

Uma pequena amostra que como anda o mercado corporativo nos Estados Unidos é o fato de que das 500 empresas que compõem o índice S&P 500, 458 divulgaram até o dia 17 de maio o resultado do primeiro trimestre. E eles foram bastante animadores. A média de crescimento dos lucros tem girado em torno de 15% e a das receitas em torno de 7,2%.

Os destaques são o setor de energia que vem se recuperando junto com o preço do petróleo e principalmente a área de tecnologia. O índice Nasdaq Composite, composto principalmente por empresas desta área, já acumula ganhos de 13% em 2017. O S&P 500 composto por large caps tem alta de 6,3% no ano e o Dow Jones 30, de mega caps, sobe 5,2% nestes quase cinco meses do ano.

Abaixo você pode ver a evolução dos principais índices acionários em 2017:

ÍndiceVariação
Hang Seng (Hong Kong)14,4%
BSE Sensex (Índia)14,4%
KOSPI (Coréia do Sul)12,9%
DAX (Alemanha)10,1%
SMI (Suíça)9,7%
CAC 40 (França)9,5%
STOXX 50 (Europa)8,2%
FTSE 100 (Grã-Bretanha)4,6%
Nikkei 225 (Japão)2,5%
S&P/TSX (Canadá)1,1%
S7P/ASX 200 (Austrália)1,1%
Shanghai Composite (China)-0,4%

Como é possível concluir, a maioria dos mercados tem apresentado valorização robusta neste ano. Muitos inclusive rompendo a máxima histórica, como é o caso dos índices americanos.

As ações estão sobreavaliadas?

Uma das preocupações quando se chega em patamares de preço elevados, com índices nos topos históricos, é se não estamos perto do topo.

Vou me ater ao mercado americano, que possui muito mais dados disponíveis.

Existe uma série de medidas de valuation que medem a “saúde” dos mercados e tentam dizer se as ações estão caras ou baratas em relação à média histórica.

Qual a importância disso? Simples, pagar caro demais por algum ativo reduz a perspectiva de retorno desse ativo nos próximos anos.

Em artigo recente publicado no site do Mebane Faber, autor americano, ele avalia a perspectiva de retorno do mercado local baseado na fórmula de John Bogle, que diz o seguinte:

retorno anualizado das ações em 10 anos = dividend yield + crescimento dos lucros + mudança no índice P/L

De acordo com o valuation atual e supondo a manutenção do índice CAPE na média histórica de 17 (hoje este índice está em 29), o retorno provável das ações nos próximos 10 anos seria em torno de 1,18% ao ano. Um valor extremamente baixo quando comparado com a média histórica entre 9 e 10%.

A equipe da Advisor Perspectives também acredita que os mercados permanecem sobreavaliados. Eles usam 4 indicadores principais para chegar a essa conclusão:

  1. o índice Preço/Lucro da Cresmont Research
  2. o CAPE usando os lucros passados de 10 anos como divisor
  3. o índice Q, que é o preço total do mercado dividido pelo custo de substituição
  4. a relação entre o preço do S&P Composite com regressão à linha de tendência

Não irei me aprofundar neles. Está no artigo, caso queira saber mais. Mas o gráfico principal é este abaixo, com a média dos 4 indicadores:

Valuation Mercado de Ações

Como dá pra perceber, estamos atualmente acima de 2 desvios-padrão em termos de valuation, um número bastante preocupante, que só foi maior às vésperas da explosão da bolha “ponto com”.

Obviamente é difícil prever o que acontecerá no curto prazo, mas as perspectivas futuras em termos de retorno não são nada satisfatórias e os investidores devem se manter cautelosos. O lucro das empresas teria que crescer muito no futuro para que esses indicadores voltem a patamares mais razoáveis.

Por outro lado, Bill Nygren, gestor da Oakmark Capital, acredita que o mercado de ações dos Estados Unidos talvez não esteja sobreavaliado e que o retorno do investimento em ações deve superar a renda fixa no longo prazo. Ele diz não tentar acertar os altos e baixos do mercado, apenas foca em escolher as melhores empresas baseadas em análises individuais e que quem tenta prever topos acaba perdendo grandes retornos.

Portanto, existem argumentos para os dois lados. O fato é que o valuation não está muito atraente hoje. Quem deseja investir no mercado de ações internacional hoje deve ser prudente e alocar parte da carteira em ativos de menor risco como forma de se proteger em caso de virada.

“Ficou maluco? E o circuit break da Bovespa?”

É bem provável que você deve estar pensando nisso enquanto lê o artigo. O Brasil em pânico e eu falando de uma possível bolha. Se pensou, é provável que esteja com muito ou até todo o seu patrimônio no Brasil e que também tenha feito aplicações na Bolsa brasileira além do que pode suportar em momentos de crise.

Não se culpe. Não sei quantos dos artigos deste site você leu até agora, mas por mais que a gente tente explicar são eventos como este do dia 18 de maio de 2017 que enfatizam de maneira catastrófica tudo que tenho colocado aqui nos últimos 2 anos e meio.

“O mercado brasileiro sobe de escada e cai sendo jogado do penhasco”

O que você precisa aprender é aquilo descobri há alguns anos e que me fez passar relativamente ileso a estas últimas crises no Brasil. Descobri que prefiro estar investido em países como o Japão, país estável, com um nível cultural e educacional de primeira linha, com empresas que ampliam as fronteiras da tecnologia e onde quem é pego praticando corrupção comete suicídio a investir num país como o Brasil, onde estamos cercados de bárbaros iletrados e os corruptos, mesmo quando pegos, riem da nossa cara.

Descobri que posso investir em empresas americanas que criam os melhores negócios e as maiores empresas do mundo. Aprendi que o Franco Suíço é uma moeda que jamais enfrentou crises em mais de 200 anos de história. Que posso aproveitar o tremendo crescimento chinês a deixar meu dinheiro aplicado em empresas que convivem em um ambiente burocrático de depressão e desemprego.

“Acima das nuvens está sempre sol”

Enquanto os investidores brasileiros somente viam os home-brokers vermelhos e as ações caindo até 18%, eu acompanhava os preços dos títulos brasileiros no exterior. Movimentos como esse, mesmo sem a amplitude do que ocorreu em fevereiro de 2016, ponto máximo da crise, abrem algumas oportunidades de conseguir uma boa taxa de renda fixa em dólar:

Gráfico Título Brasileiro
Gráfico de 6 meses do Bond “Brasilien Foederative Republik 10,125% 5/2027”

Também não é pra se iludir achando que os mercados internacionais não entram em crise. 2008 ainda vive na memória e os circuit breaks foram a nível mundial, sendo 5 vezes no Brasil. O fato é que uma crise, por exemplo, nos EUA afeta o mundo inteiro e a nossa crise atual tem afetado apenas o Brasil e os ativos ligados ao governo e empresas brasileiras. Também não é difícil pensar que quanto mais desenvolvido e maior for a capacidade de produção de riqueza de um país, mais rápido ele é capaz de sair de uma crise, se ela ocorrer.

Conclusão

Precisa acontecer mais o que para você entender que não adianta diversificar em ações, renda fixa, FIIs, etc, se você mantiver todos esses investimentos dentro do Brasil? Que toda a casta que controla o Brasil, seja no executivo, no legislativo e no judiciário é formada por elementos que não valem o conteúdo dos próprios intestinos? Que toda a instabilidade política reflete negativamente na economia do país, desvaloriza nossa moeda e compromete os lucros das empresas em que você investe?

Ao abrir uma conta fora do Brasil você tem muito mais liberdade para determinar em quais mercados investir. A Índia está crescendo forte? Compra um ETF de Índia. Há boas perspectivas de recuperação de Portugal? Compra um ETF de Portugal. Azedou a situação na China? Vende o ETF de China. Descobriram que todos são corruptos no Brasil? Não precisa se preocupar se você tem o ETF Vanguard Total World Stock, que investe em ações do mundo inteiro, sendo apenas 0,8% no Brasil.

É bastante óbvio nesse momento, quando o Brasil está na contramão do mundo, que somente a diversificação entre os diversos mercados de ações lhe permite não só uma redução dos riscos, como também lhe permite capturar o que existe de melhor não importando o país.

Portanto, é o seu cuidado com os investimentos que irá determinar se na próxima crise você estará no epicentro dela ou numa ilha paradisíaca distante.

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Este post tem 14 comentários

  1. Avatar

    5 snos atrás aloquei 50 porcento de meu patrimônio financeiro(dinheiro) no exterior.Hoje vivo tranquilo.Parabens mais uma vez pelo elucidador artigo.

  2. Avatar

    Marcos Andrade,

    Poderia ajudar a gente com mais informação? Quais ações, ou bonds, investimentos que você fez?

    att

  3. Avatar

    Bom dia,

    É bem interessante essa análise, mesmo sabendo que rendimento passado não significa retorno certo. Mas, no Brasil, é certeza de PT (Perda Total) na maioria dos casos.

    Muitos FIIs não são tão ruins como a maioria das ações brasileiras, possuem até algumas vantagens sobre os Reits como o pagamento mensal e a ausência de endividamentos significativos (questão de sobrevivência no Brasil, eu sei).

    O ruim é que quem investe nisso parece que investe APENAS nisso. Logo, a concorrência diminui os retornos de maneira substancial. Existem alguns FIIs que nem estão mais sendo vendidos na prática, pois quem tem não quer vender.

    Aliás, no Brasil, a maioria das pessoas que investe em imóvel parece um bando de zumbis que não sabem o que estão fazendo, investem na base da FÉ, acreditando que o que funcionou para seus antepassados (em um Brasil bem diferente de hoje) vai funcionar para eles também.

    Pior, eles acreditam que investir em FIIs é mais arriscado do que comprar quitenetes e terrenos no meio do nada.

    1. Investidor Internacional

      Olá Geraldo,

      Obrigado por comentar.

      Em breve farei uma comparação entre FIIs e REITs, mas tem algo que poucos FIIs conseguem, que é SEMPRE aumentar a distribuição faça chuva ou faça sol. Isso só tem acontecido em alguns com contratos atípicos. A grande maioria tem reduzido fortemente as distribuições.

      A economia brasileira alterna voos de galinha com crises agudas.

      Agora tente achar alguma crise na Suíça pós-segunda guerra.

      Abçs!

      1. Avatar

        Aguardamos todos este seu artigo sobre REITs x FIIs.

        Abs.

  4. Avatar

    É isso mesmo, II. Ainda estou com baixa alocação no exterior, menos de 12% do meu portfolio, mas a tranquilidade que esse pequeno percentual me passa mostra que estou no caminho certo. Diversificação é, de fato, o único almoço grátis do mercado.

    Abraços,

    IOTR

  5. Avatar

    Tenho uma dúvida. É preciso um determinado valor mínimo que compensaria o investimento no exterior? E os custos? Só disponho de cerca de 500/1000 reais por mês para investimentos e já ouvi muitas pessoas afirmando pela internet que para investir no exterior precisa ter no mínimo 10/15 mil dólares. Onde posso me informar melhor? Obrigado

  6. Avatar

    II,

    Exato … por isso adoro o mercado brasileiro …. na compra vc leva 5 anos pra fazer lucro .. acertando a venda … em 6 meses .. pega o mesmo caminho inverso …

    Abs,

  7. Avatar

    Para quem aqueles que ainda tem baixa exposição no mundo, e acredita, nos gurus brasileiro, se liga pois eles estão mas perdidos que o sargento Garcia, tentando prender o zorro..que por sinal é o nobre senhor Diego de la Vegas….!

  8. Avatar

    Ola II, parabens pelas otimas informacoes. Cheguei no site atraves do Blog Viver de Dividendos.
    Entrei na bolsa de valores no Brasil no final do ano passado, mas a instabilidade politica aqui deixa qq investidir apreensivo diariamente.
    Estou estudando bastante sobre investimentos no exterior (muito com as materias do site II). Ja abri uma corretora nos EUA e penso em migrar aos poucos meus recursos para a terra do Tio Sam!

    1. Investidor Internacional

      Olá Pelegati,

      Ótima iniciativa.

      É o primeiro passo para proteger o patrimônio das desventuras político-econômicas do Brasil.

      Abçs!

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