Investindo em Biotecnologia

Biotecnologia

Como investir no segmento de maior crescimento dos últimos anos

Quando eu comecei a escrever sobre tecnologia fiquei tão focado na questão de engenharia, software e novos aparelhos eletrônicos, que por um instante deixei passar um dos segmentos mais interessantes e rentáveis do mercado, o de biotecnologia.

Se na bolsa brasileira não temos nenhuma empresa farmacêutica (rede de drogarias não conta, ok?), o que dirá biotecnologia, que é algo ainda mais complexo e restrito? A título de comparação, só na Nasdaq temos mais de 160 empresas deste segmento!

As empresas de biotecnologia possuem características próprias, que as diferem das outras, inclusive daquelas do setor farmacêutico.

Em geral, quando você quer investir numa ação, você procura o histórico de lucratividade, de pagamento de dividendos, avalia se ela possui diferenciais competitivos e se os seus produtos são bem recebidos pelo mercado.



Nas empresas de biotecnologia não tem nada disso. Existe um outro fator mais importante que as move. Neste artigo você saberá qual é e poderá acompanhar em tempo real como as ações de uma empresa são afetadas por ele.

Você também verá um gráfico assustador para ficar bem claro o que você perde investindo apenas no Brasil.

Como funcionam as empresas de biotecnologia

Este tipo de empresa trabalha com processos biológicos para desenvolver e fabricar produtos que atendam ao mercado. Dentre as áreas de aplicação desses produtos podemos citar:

Agricultura: com o desenvolvimento de plantas mais produtivas e resistentes às pragas.

Industrial: com a criação de bactérias comedoras de petróleo usadas após vazamentos no mar.

Saúde: com a produção de novas drogas e vacinas.

Estes são apenas alguns exemplos. Se pararmos para pensar, processos antigos e comuns do dia a dia, como a fabricação de pães, vinho, cerveja e queijo envolvem biotecnologia. E aquelas enzimas do sabão em pó que deixam a sua roupa mais branca? Também é biotecnologia. Assim como o álcool que abastece o carro, o poliéster das roupas, entre muitos outros produtos.

Mas o que move essas ações?

Como essas empresas são motores de desenvolvimento e necessitam criar soluções até então inexistentes para atender o mercado, elas investem pesado em pesquisa e inovação.

biotecnologiaE todo esse processo entre a idealização de um produto e a sua chegada ao mercado leva muitos anos e requer grande investimento. Enfim, é uma fase em que há somente despesas e nenhuma receita em relação a este produto.

Por exemplo, para um medicamento ser aprovado pelo FDA (Food & Drug Administration), órgão federal americano responsável por regulamentar os setores de alimentação e saúde, ele precisa passar por diversos passos.

Passo 1: Pesquisa e desenvolvimento no laboratório a nível molecular.

Passo 2: Ensaios pré-clínicos in vitro e in vivo (com animais).

Passo 3: Ensaios clínicos divididos em 3 fases:

A fase 1 demora até 1 ano e é quando o medicamento é testado em um número restrito de pessoas saudáveis para determinar a sua segurança e dosagem. Cerca de 70% das drogas passam para a próxima fase.

A fase 2 demora entre 2 e 3 anos e é quando o medicamento é testado em centenas indivíduos que sofrem daquela doença. Objetiva ver a eficácia e efeitos colaterais do produto. Cerca de 33% passam para a próxima fase.

A fase 3 leva de 2 a 4 anos e é quando o medicamento é testado em um grande número de doentes, buscando-se saber seu efeito de longo prazo. Cerca de 25 a 30% passam para a próxima fase. Passou daqui está praticamente aprovada.

A fase 4 envolve milhares de voluntários doentes para avaliação da segurança e eficácia. Esta fase pode acontecer depois da aprovação da droga.



Passo 4: Fase de revisão pelo FDA.

Passo 5: É o monitoramento das drogas já aprovadas e que estão no mercado.

Entendeu a dificuldade do negócio? São empresas que passam anos apenas gastando e investindo diante de uma alta probabilidade do medicamento não ser aprovado. Muitas passam anos no prejuízo até conseguir ter uma droga aprovada. Algumas inclusive fazem parcerias com grandes indústrias farmacêuticas em busca de financiamento para os projetos.

Então, não adianta analisar apenas lucro, receita ou dividendos se quiser avaliar a perspectiva futura de uma empresa de biotecnologia. As estimativas futuras de lucro devem se basear na evolução das vendas de medicamentos já aprovados e, mais importante, no pipeline de desenvolvimento de novas drogas.

O pipeline

O pipeline é a alma das empresas de biotecnologia e nada mais é que uma visão geral das fases de aprovação que os produtos em desenvolvimento têm passado.

Veja na imagem abaixo, o pipeline da Amgen, uma das principais empresas deste segmento:

Pipeline Amgen
Pipeline de desenvolvimento da Amgen

Como você pode ver, existem 10 medicamentos já na fase 3 do processo, poucos na fase 2 e bastante também na fase 1.

Quanto mais perto da aprovação, maior a chance de algo que era só despesa passar a se tornar receita. E a data do anúncio dessa decisão pelo FDA acaba sendo mais importante que as datas de anúncio dos resultados trimestrais. E essa data tem um nome, chama-se PDUFA ou Prescription Drug User-Fee Act.

Em caso de aprovação, o efeito disso nos balanços futuros pode ser incrível dependendo do impacto dessa nova droga no mercado.

O impacto será tão grande quanto o fator novidade dessa droga. Se ela for inserida em algum mercado competitivo como o oncológico ou cardiológico, ela precisará ser muito melhor que as drogas atuais nesses que são mercados multibilionários e saturados de concorrentes. Melhor no que se refere a eficácia e menos efeitos colaterais, por exemplo. Por outro lado, se a droga atuar em alguma doença rara, onde não existam concorrentes, ela poderá gerar vendas extraordinárias. São as chamadas “drogas órfãs”.

Outro fator importante é que as menores empresas do setor, aquelas que tem poucos ou mesmo nenhum medicamento aprovado, bem como um pipeline mais enxuto, são as mais afetadas no evento de aceitação ou recusa pelo FDA.

Veja só o efeito que as respostas do FDA têm feito com as ações da Dynavax Technologies Corporation (NASDAQ:DVAX), uma small cap com cerca de U$ 500 milhões em valor de mercado.

No dia 14 de novembro de 2016, a empresa recebeu uma carta do FDA pedindo informações adicionais sobre a vacina para Hepatite B chamada HEPLISAV-B®. Veja o que aconteceu com a ação:

DVAX 2016
Variação de preço da ação da Dynavax em novembro de 2016

A ação foi de U$ 11,60 para U$ 4,10, queda de 64%, com altíssimo volume.

No dia 28 de fevereiro de 2017, o FDA enviou uma resposta para a empresa dizendo ter aceitado as explicações enviadas. Veja o resultado:

DVAX 2017
Variação de preço da ação da Dynavax em fevereiro e março de 2017

A ação foi de U$ 4,50 para U$ 6,90, alta de 53%, também com forte volume.

A ação chegou a cair para a casa dos U$5,00 e ficou assim até o início de junho quando aconteceu isso:

DVAX 2017

A empresa divulgou novos resultados de pesquisa com outra droga de seu pipeline, chamada de SD-101. Ela em conjunto com outro medicamento se mostrou bastante eficaz no combate ao melanoma metastático, o que fez a ação valorizar de U$ 5,50 para U$ 9,65 no mês, uma alta de 92%.

O mês de julho foi de certa volatilidade, pois ainda havia muita incerteza quanto a resposta do FDA em relação ao HEPLISAV-B®. No dia 28 de julho, o comitê do FDA aprovou os dados de segurança da droga. Neste dia, a Nasdaq interrompeu as negociações com a ação durante todo o pregão e ela só voltou a ser negociada no after-hours, quando a ação subiu 80%, encerrando o dia a U$16,55.

Bom, o próximo dia 10 de agosto é a data PDUFA da vacina, quando ocorrerá a decisão definitiva do FDA. Até lá, acompanharei toda a movimentação desta ação e divulgarei no Twitter e no Facebook. Caso queira sentir todas as emoções desta história, sugiro que me siga nestes canais.



Mas como conseguirei avaliar este tipo de empresa?

Não é tarefa simples encontrar a empresa certa neste mercado. Como eu falei, muitas passam anos tendo prejuízo e nunca se sabe quando terão algum medicamento aprovado na via-crucis do FDA. É preciso entender de medicina, de farmacologia, de ensaios clínicos e do mercado de saúde no mundo. Não são todas as doenças que são lucrativas e nem todos os medicamentos que têm potencial para se tornar a referência no tratamento de determinada doença, como é o caso do HEPLISAV-B®. E até onde eu consegui descobrir, esta vacina começou a ser criada em 2002.

A alternativa para o pequeno investidor que queira entrar em um setor tão complexo e volátil é pela aquisição de ETFs. Os maiores são:

  1. iShares Nasdaq Biotechnology ETF (NASDAQ:IBB)  – U$ 9,7 bilhões em ativos
  2. SPDR S&P Biotech ETF (NYSE:XBI) – U$ 3,8 bilhões em ativos
  3. First Trust NYSE Arca Biotechnology Index Fund (NYSE:FBT) – U$ 1 bilhão em ativos
  4. VanEck Vectors Biotech ETF (Nasdaq:BBH) – U$ 700 milhões em ativos

O mais antigo deles é o VanEck Vectors Biotech ETF. Inicialmente criado como um fundo em 1999, tornou-se um ETF no ano de 2011.

Aqui eu deixo a seguinte pergunta: O que dá mais retorno, investir em um ETF que contenha as principais ações dentro de um setor promissor ou escolher ações consagradas de um setor já estabelecido?

O gráfico a seguir, que eu vi inicialmente no site do Mebane Faber, mostra o resultado acumulado das ações da Pfizer, Merck e do fundo de biotecnologia da VanEck nos últimos 18 anos, ajuda a responder essa pergunta:

Biotech Pfizer Merck
Comparação da rentabilidade acumulada entre Biotech ETF, Pfizer e Merck

Conclusão

O segmento de biotecnologia não só está bem estabelecido, como também possui um alto potencial de crescimento. É ele que promove todo o avanço nos tratamentos e procedimentos médicos que temos visto nas últimas décadas. Não é simples avaliar uma ação do segmento, mas existem ETFs que auxiliam o pequeno investidor a ingressar nele.

Caso queira aprender um pouco mais, comentei brevemente sobre duas empresas que desenvolvem biotecnologia no artigo sobre as companhias mais inovadoras do mundo.



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Este post tem 12 comentários

  1. Excelente artigo!!!
    Onde obtenho mais dados sobre ETFS não só de biotecnologia, nas de outros ETFS?

  2. Agradecido. E com a relação a Biotoscana (GBIO33) negociada na bolsa brasileira?

    1. Investidor Internacional

      Olá Gustavo,

      Bem lembrado. Do pouco que eu li agora, é uma empresa deste segmento sim. Foi formada pela união de 3 outras empresas latino-americanas.

      Só que ela teve o IPO agora e a sede da empresa é em Luxemburgo. O que é negociado no Brasil é o BDR.

      Abçs!

  3. Muito bom artigo…

    só acrescentando… no Brasil já existe uma empresa do tipo… eh uma join-venture entre Hypermarcas, EMS e Aché… não sei como estão atualmente… mas foi criada há uns 4 anos atrás com esse propósito… e por falar em hypermarcas.. melhorou mto depois da reestruturação.. q empresa.. margem bruta > 70%.. ebitda alto pra caramba…

    1. Investidor Internacional

      Olá Cristiano,

      No Brasil existem centenas de empresas de biotecnologia. O que eu quis dizer é que na Bolsa não existe empresa brasileira deste segmento sendo negociada.

      Esse Biotoscana lançada agora, como lembrado pelo Gustavo, é a única opção. Quem sabe essa Bionovis, a joint-venture que você citou não abra o capital em breve.

      A Hypermarcas é a melhor referência da bolsa brasileira no setor, já que é um conglomerado com várias empresas sob o seu guarda-chuva.

      Abçs!

  4. Olá II

    Como você mencionou, o maior risco das empresas de Biotecnologia é justamente o gasto bilionário com Pesquisa & Desenvolvimento que pode escoar pelo ralo em caso de desaprovação da FDA. Ter o fluxo de caixa suficiente para investir nestas pesquisas em um prazo de tempo longo é um desafio enorme para empresas pequenas. Não é a toa que a volatilidade é inerente às cotações das ações de biotecnologia. É muito difícil precificar utilizando o modelo mais tradicional em Wall Street – modelo de fluxo de caixa descontado – quando não se tem nenhuma segurança quanto a entrada de dinheiro futuro.

    A Ernst & Young fez um estudo bem interessante sobre as peculiaridades do setor. De acordo com o relatório, 36% das novas drogas não passam do estágio preliminar, 68% não passam do estágio intermediário e 40% caem no estágio final.

    https://www.ey.com/Publication/vwLUAssets/EY-beyond-borders-unlocking-value/$FILE/EY-beyond-borders-unlocking-value.pdf

    Abs!

    1. Investidor Internacional

      Olá Termos Reais,

      Realmente é um segmento difícil, mas que pode trazer grandes alegrias.

      Para o pequeno investidor, o ETF pode ser uma opção interessante para participar desse mercado.

      Abçs!

  5. II,

    Definitivamente é um setor muito volátil. Para o investidor brasileiro que mal conhece a Bovespa seria um grande risco entrar nesse ramo. Por outro lado, para aqueles que estudam um pouco mais e gostam de ETF, já passa a ser uma boa opção. Vou acompanhar esses ETF para ver se vale a pena entrar.

    Pra ter uma ideia, minha carteira de ETF tá dando um banho na minha carteira de ações, ainda bem que faço diversificação e equilíbrio e assim não sofro tanto.

    By the way, você é o único cara que escreve algo bem útil no Inversa. Os outros ficam contando historinha e agora veio a venda milagrosa de algo pra você ganhar exatos 565%, um número tão preciso em algo completamente volátil que são os investimentos no mercado financeiro. Mantenha a qualidade dos seus posts que nos ajudam muito.

    Abraço!

    1. Investidor Internacional

      Olá BPM,

      Realmente é um setor volátil e com muitas particularidades.

      Neste caso, o ETF ajuda bastante a diluir riscos.

      Abçs!

  6. II,

    Não estou vendo a opção para receber os comentários da postagem por mail. Estou tendo que vir ao blog pra ver se há comentário novo ou se você respondeu algum comentário meu.
    Estou fazendo algo errado ou está sem esta opção mesmo?

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