Empreender no exterior

Veja a história de um brasileiro que largou tudo para viver com a família num país distante

Convidei meu amigo Tarik para escrever sobre empreendedorismo no exterior. Ele já morou em alguns países e tem uma grande experiência na área. Este assunto é algo que desperta interesse em muitas pessoas, particularmente agora que passamos por uma das maiores crises do Brasil.

Ele irá contar exemplos de como empreender no exterior através de histórias reais de brasileiros que lograram êxito lá fora. Obviamente, os nomes e alguns detalhes serão trocados por questão de privacidade.

Essa primeira história tem como destino um país que você jamais imaginaria como sendo o dos seus sonhos. Mas para essa família o que parecia ser um lugar inóspito acabou se tornando o lar ideal.

FORTES FORTUNA ADJUVAT

                                                            A Sorte Favorece Os Bravos

A vida patinava para Marcus Henrique. Tinha a nítida sensação de estar preso no “Feitiço do Tempo”, acordando e revivendo o mesmo dia eternamente. Sua retífica pesada mal conseguia pagar as contas e não sobrava nada, nem dinheiro e nem tempo!

Nunca se vira como invejoso, mas quando via as fotos dos colegas de faculdade que largaram a engenharia mecânica para serem concurseiros, o estômago revirava.

Fotos no Caribe, no Chile, em Miami e por aí vai. Seus colegas é que estavam certos. Pra que se matar num país como o Brasil? O sonho do brasileiro é ser auditor fiscal!

Ele só conhecia o trajeto da Vila da Penha até a oficina em Niterói, fora alguns raríssimos passeios a Búzios e Angra dos Reis. Contas e mais contas se acumulavam na sua escrivaninha surrada e a única foto sua que apareceu na internet foi discutindo com grevistas do lado de fora do seu galpão.

Essa semana ele andava mais taciturno que o normal. Completava quarenta anos, na mesma semana que seu filho mais velho completava dez. Não tinha construído nada de que pudesse se orgulhar e a vida batia à porta.

Empreender no exteriorNos momentos em que não estava engajado em algum tipo de resolução de problemas ou contatando clientes, sentia as têmporas latejarem. Uma mão invisível parecia pressionar sua garganta. O peito ribombava freneticamente. Seus olhos marejados pousavam na foto sorridente do filho. Não sabia se iria quebrar ou morrer antes.

Seu pai o deixara cedo, vítima de um derrame fulminante. O destino lhe soprava ao ouvido, e não havia nada que pudesse fazer, a não ser chorar escondido e rezar.

Talvez por coincidência, ou quem sabe em resposta às suas preces, ao ir almoçar no shopping, encontrou Ribamar, um dos seus amigos do tempo de república, com quem dividira o quarto, sonhos e desesperos juvenis. Seu amigo estava de férias no Brasil e começou a lhe contar tudo que havia acontecido com ele desde que perderam contato ao se graduarem.

Marcus escutava maravilhado. Por horas se limitou a desligar o celular, fazer umas poucas perguntas e “ficar rouco de tanto ouvir”.

Ao invés de posar para fotos em Miami, em frente a algum coquetel pasteurizado, Ribamar desaparecera da face da terra após a formatura. Sem dinheiro de família, vendera o fusca que empurraram inúmeras vezes a caminho da faculdade e fora para a Europa, ainda na década de 90, com passagem só de ida.
Lá vagara se sustentando com bicos aqui e acolá até decidir pegar um ferry boat na Espanha com destino ao Marrocos.

Com o tempo, descobriu que não conseguiria se sustentar ali atendendo mesas ou cortando grama. Por outro lado, seus conhecimentos de engenharia aliados à experiência adquirida no motor do fusca, lhe granjearam receitas um pouco mais polpudas e seus novos conhecidos lhe diziam que um jovem de talentos poderia ficar rico na África.

Não naquela África, mas na outra, abaixo do Saara e que lhe fazia recordar atônito das imagens de várias crises humanitárias, que a televisão brasileira mostrara prodigamente nos anos anteriores.

Com a indicação de um amigo marroquino, viajou para a Costa do Marfim, mesmo sem falar francês, mas com o contato de um primo do tal amigo que supostamente estava bem de vida por lá.

Para surpresa de Ribamar, a história era verdadeira e nosso aventureiro montou sua primeira empresa para dar apoio e manutenção aos tratores do primo do amigo. E não parou por aí.

Empreender no exteriorAgora era dono de uma rede de concessionárias de maquinário pesado na Costa do Marfim, Gabão e Gana. Vendia e prestava assistência. Quando o boom do petróleo na costa ocidental africana começou, ele estava numa posição invejável para capitalizar em cima das necessidades das grandes empresas que chegavam aos borbotões.

Para Marcus era como ter entrado no cinema para esquecer sua vida de merda, só que muito melhor! Pela primeira vez em meses, sentia que uma porta se abria para ele. Decidiu desvelar seu coração para o amigo querido, a quem não via há tantos anos, mas não pôde se alongar muito. Afinal, os problemas não podiam esperar. Ou podiam?

Naquela noite Marcus não dormiu. Não foi a mesma insônia que o assolava constantemente. Essa foi diferente. Estava sonhando acordado novamente! Como alguém podia empreender se não sonhasse? Havia esquecido aquela sensação.

Ligou para Ribamar cedo e marcaram um café no seu galpão.

Foi feliz para Niterói, algo que não acontecia há uns dez anos. Seu amigo chegou logo em seguida e deram um passeio pelas instalações bem cuidadas. Marcus mostrou com orgulho seus sistemas administrativos e ferramentas de software que ele mesmo havia desenvolvido.

Ribamar, sem esconder a surpresa perguntou:

– Como você não está fazendo dinheiro? Cara, pelo que você me falou pensei que sua oficina fosse algo bem primitivo, não isso aqui. Não tem nada com esse nível de organização na África. De equipamentos, talvez. Mas em termos de organização te asseguro que estão anos-luz atrás. Vende essa merda e vamos para Gana comigo! Ou melhor, embala essas máquinas e despacha tudo pra lá!

E, trocando em miúdos, assim Marcus fez, contra tudo e contra todos, colocou máquinas e ferramentas em dois contêineres, despachou para Gana, pagou seus empregados e se mandou do Brasil.

Inicialmente prestou serviço para seu amigo, mas logo se estabeleceu como respeitador de prazos e palavra empenhada. Contou com a ajuda de um consultor para abrir seu negócio de maneira que fizesse jus a um visto temporário para si e para sua família. Hoje tem residência permanente e pensa em se naturalizar.

Empreender no exteriorSua esposa, que ao escutar sua mãe e amigos, se apavorara, imaginando ataques de leão ou crianças famélicas pelas ruas, hoje chama a África de lar e confessa que não fazia idéia que seria tão feliz um dia.
O filho de Marcus, atualmente com vinte anos, está noivo de uma garota local, tem uma empresa de eventos, é sócio de uma boate e da única representante autorizada da Apple. O derrame fulminante que Marcus aguardava quase com ansiedade, nunca veio e, apesar do trabalho duro, nunca esteve tão satisfeito.

A história de Marcus reflete a de um seleto grupo de brasileiros que ousaram sonhar e se embrenhar em terras consideradas inóspitas.

Às vezes nos encontramos sem perspectivas, e muitos, num momento de desespero, acabam até mesmo tirando a própria vida, sem falar nos divórcios e outras mazelas ocasionadas por falta de grana. Esquecemo-nos que o mundo é grande e sempre há uma nova chance de recomeçar.

Tarik Darian é empresário e criador do site Oceans14.

Para uma consulta diretamente com ele, use o formulário abaixo:

Share on facebook
Facebook
Share on google
Google+
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on pinterest
Pinterest

Este post tem 17 comentários

  1. Avatar

    Olá, I.I.
    Gostei da forma que foi contada, e da história em si.
    Muito bacana mesmo.
    Um abs

  2. Avatar

    Artigo excelente… Parabéns ao site e ao autor

  3. Avatar

    A vida pede coragem.
    E aqui vemos claramente como podemos mudar muito nossas vidas com decisões que nem sempre são fáceis de serem tomadas.
    Parabéns ao site e ao autor!

  4. Avatar

    Bom dia II. Lembrei daquele velho ditado: se não estiver contente, mexa-se. Voce não é uma árvore.

  5. Avatar

    Excelente post – Realmente de encher os olhos! parabens

  6. Avatar

    MUITO, MAS MUITO TOP!

  7. Avatar

    Olá I.I

    Gostei da história e da forma com que a contou! E o mundo é grande mesmo, mal temos noção de seu tamanho…

    Abraço!

  8. Avatar

    Que linda história! E jamais imaginaria tampouco encontrar numa pesquisa sobre “empreender fora do Brasil”, uma janela para a África.

    Parabéns pela coragem!

Deixe uma resposta

Posts com maior repercussão

Fechar Menu