Empreendedorismo na Europa

Como uma família de baianos alcançou o sucesso empreendendo na Europa

Esta é a continuidade da série de histórias reais sobre brasileiros que deixaram nosso país em busca de oportunidades no estrangeiro. A primeira história aconteceu em um país surpreendente e dessa vez Tarik Darian, criador do site Oceans14, nos conta sobre os desafios que o seu amigo baiano enfrentou ao levar a família para se aventurar na Argentina e Holanda.

De Salvador para Buenos Aires

Conheci o Beto nos idos de 1994. Lá se vão 23 anos…. Eu era oficial da Marinha Mercante recém-formado, “docando” um navio da Petrobrás em Buenos Aires e o Beto tinha vindo da Bahia para tentar a vida na Argentina de Carlos Menem.

Conheci essa figura numa noite em que sai com outros tripulantes para conhecer a noite portenha. Fomos para um clube onde havia uma banda baiana tocando axé e lambada. Programa de silvícola total, mas no frio bonaerense, dançar um pouco não faria mal.

O Beto era o gerente e dançarino principal da pior banda de axé que a Bahia produziu, mas os gringos não entendiam que metade das letras estavam erradas e a outra metade era só analfabetismo mesmo e embalados por muitas garrafas de Quilmes e doses cavalares de caipirinha, achavam tudo bom.

Ele desembarcara de Salvador havia um ano e descolou um trampo dirigindo um “rami”, uma espécie de táxi clandestino da época, mais baratos e melhores que os malditos táxis oficiais da capital argentina. Digamos que o Beto era um precursor do Uber… E à noite ia dançar lambada para animar os argentinos. Assim ele sustentava a esposa e o filhinho recém-nascido, na economia dolarizada que sangrava a Argentina a passos rápidos.

Empreendedorismo na EuropaCom três meses em Buenos Aires, os integrantes da banda que tocava lambada se desentenderam com o dono da boate por causa de cumprimento de horários e bebedeira, mas Beto fez uma oferta para o proprietário que ele não pôde recusar. Arrumaria músicos para tapar o buraco até quinta-feira (era segunda) e se eles não cumprissem o horário ou arrumassem problema, o dono do clube não precisava pagar pelo fim de semana de trabalho deles. Em troca, se cumprissem o horário e se comportassem, ele receberia o dinheiro do couvert e faria a distribuição entre seu pessoal. Além disso, reforçaria com seu 1,90m e pura ginga de capoeirista, a segurança do clube sem cobrar mais por isso.

Nove meses depois ele ainda passava as noites de quinta a domingo no clube. A banda era honestamente horrível, mas o Beto mantinha todo mundo sob controle e não hesitava em demitir algum membro caso esse arrumasse problemas.  Se tornara o homem de confiança do dono do estabelecimento e o rami que dirigia agora já era seu. E assim estava meu amigo quando, um mês após conhecê-lo, o vi pela última vez antes de navegar de volta ao Brasil.

Doze anos depois

Andava eu pelas ruas do centro de Roterdã, após um dia de trabalho duro, quando escuto aquele sotaque baiano embalado em uma voz tonitruante: “Turco dos infernos!”. E quase desapareci num abraço de tamanduá do meu amigo.

O Beto me contou que de uma hora para a outra a situação na Argentina se deteriorara. Cortaram a paridade com o dólar e os panelaços começaram. Um negro de 1,90m não parecia mais ser bem-vindo no pais, pois não havia emprego para ninguém e ele era visível demais para passar despercebido. Um estrangeiro roubando trabalho de um argentino (embora não houvesse muitos argentinos capazes ou dispostos a dançar lambada por 5 horas seguidas em troca da arrecadação do couvert). Com a situação piorando e a lambada saindo da moda, a banda se dispersou e ele decidiu se mandar para a Holanda, por recomendação de um amigo.

Vendeu o rami, juntou o dinheiro que conseguira economizar (uns USD 15 mil!) e se mandou para uma Holanda que ainda usava o florim como moeda. Trabalhou como professor de capoeira e quando conseguiu aprender o suficiente do idioma, comprou um carro e começou a fazer transporte. Seu filhinho já tinha 6 ou 7 anos nessa época e sua esposa começou a trabalhar num restaurante de comidas do Suriname.

Seu grande problema foi conseguir um visto. Tinham que sair periodicamente do país, até que um dos alunos de capoeira disse que poderia ajudá-lo a legalizar seu transporte e requerer um visto temporário baseado nisso. Bom… isso era antes do 11 de setembro e as pessoas ainda tinham boa vontade com seu próximo, mas hoje ainda é possível conseguir um visto como autônomo na Holanda, desde que você saiba os meandros.

Com a empresa legalizada, pôde financiar um segundo carro e colocou um amigo para dirigir para ele. Chegou a ter dez carros, quando recebeu uma oferta razoável e vendeu a empresa.

Quem já esteve em Rotterdam percebe que a cidade é extremamente moderna. Seus arranha-céus são derrubados e renascem a cada 20 anos, mais ou menos. E há apenas uma estreita faixa de casas antigas próximas ao centro. A razão disso é que os alemães arrasaram a cidade na segunda grande guerra e o industrioso povo de Rotterdam decidiu que já que seu passado havia sido destruído, o futuro seria seu. Enquanto muitas outras cidades europeias se orgulham dos prédios históricos, Roterdã se orgulha da arquitetura arrojada.

Empreendedorismo na EuropaMencionei isso para que você perceba que os poucos prédios históricos que permaneceram em pé após a guerra têm tremendo valor para aquelas pessoas. Mas, havia duas ou três casas daquelas que podiam se beneficiar de uma reforma.

Meu amigo baiano se orgulhou ao me dizer “Queria deixar aquelas casas mais bonitas que o ACM deixou o Pelourinho!”.

Com o dinheiro da venda da empresa e as economias da família, ele e sua esposa compraram um dos sobrados a fim de reformar e vender. O problema é que ele nunca ouvira falar em “departamento de patrimônio histórico”. O pessoal dessa agência embargou a obra e o Beto quase acabou preso. Após se comprometer a manter o padrão arquitetônico, usar somente material e empreiteiros credenciados e ,claro, pagar uma multa, ele pôde continuar com sua aventura.

Ao terminar a obra, praticamente quebrado, Beto teve que ser criativo (“Baiano burro nasce morto, meu rei!”). Seu patrimônio estava empatado no predinho. Se vendesse acabaria tendo prejuízo, já que gastou mais e demorou muito tempo, além da multa que teve que pagar. Fora uma lição bastante cara, mas havia aprendido.

Alugou os quartos do sobrado por um valor razoável, mas teve que voltar a ser motorista de táxi. Conseguiu colocar seu próprio carro para rodar na empresa que vendera. Estava começando de baixo de novo. Não se preocupava com o risinho de satisfação que alguns ex-funcionários exibiam ao vê-lo trabalhando como eles. Não tinha tempo para sentir humilhação. Trabalhava noite e dia. Ele e a esposa tinham um objetivo: ficar ricos com propriedades. Apesar de levar uma pancada feia com o primeiro projeto, era impossível passar na frente do prédio que ele reformara e não sentir orgulho. Quando alguém no trabalho soltava uma gracinha, pensava “eles não sabem que eu sou rico, aquele prédio vale uma grana! ”.

E com toda essa determinação conseguiram juntar dinheiro para dar entrada num imóvel em uma cidadezinha turística no sul da Holanda e usando o prédio de Roterdã como colateral, conseguiram dinheiro para a reforma.

Dessa vez já tendo aprendido “a língua do Maranhão”, segundo meu amigo, reformaram tudo como manda o figurino e conseguiram vender um mês antes de concluir a reforma, por um belo lucro.

Repetiu a operação mais três vezes. Na quarta conseguiu ficar com o imóvel, que alugou para um comércio.

Agora tinha dois imóveis. Um quitado e outro alugado pagando o empréstimo e deixando lucro no bolso da família.

O banco já o conhecia. Começou a fazer projetos simultâneos e teve de largar o táxi novamente para se dedicar as reformas, vendas, administração e aluguéis dos seus imóveis.

Encontrei com o Beto novamente no ano passado, quando fui tratar dos meus próprios negócios e aproveitei para revê-lo. Tudo estava bem para ele e para a família, agora com 4 membros. Natália nasceu em 2015. Uma holandesinha!

Ele tem uma imobiliária e administradora para gerir seus imóveis e de terceiros na Holanda. Tem alguns imóveis na vizinha Bélgica também.

Empreendedorismo na EuropaMeu amigo não tem o segundo grau. Como ele mesmo diz, é analfabeto em uns quatro idiomas. Quando perguntei para ele qual era seu segredo de sucesso, me disse, após uns cinco minutos de bravatas, que o grande segredo era que ele tinha vindo do nada, do meio de uma favela de Salvador. Então tinha que ralar, tinha que ter coragem de fazer acontecer.  Era isso ou a miséria!

Já faz uns cinco anos que Beto não vem ao Brasil, embora sua esposa tenha vindo com as crianças ano passado para rever a mãe. Na última vez que esteve em Salvador, quando tentou pagar uma cervejada para os antigos amigos, metade o achou esnobe e a outra metade tentou explorá-lo. Agora só quer saber da sua família e dos seus negócios. “Neguinho morreu e esqueceu de deitar! Fica lá, naquela mesma vidinha reclamando da vida, falando de futebol e tomando cerveja sem fazer porcaria nenhuma que preste. Minha mãe morreu quando eu era moleque. Meu pai só batia na gente. Minha irmã casou com um cara que não vale nada e não fala mais comigo. Eu vou fazer o que lá? Me diga!”

Ele não sente mais falta do Brasil. Às vezes, lembra com saudades do carnaval da Bahia, mas acaba se recordando que a maior parte do tempo passava vendendo cerveja de um isopor que carregava. A vida aqui no Brasil era dura e sem perspectivas.

Seus filhos, apesar de negros, culturalmente são europeus. O mais velho fala português com dificuldade e não gosta do Brasil. Está casado com uma alemã e se mudou para Dresden, onde tem uma empresa de segurança.

Rita, sua esposa, sente falta da mãe e diz sentir muitas saudades da Bahia, mas quando perguntam se tem vontade de voltar ao Brasil para morar, ela responde “Saudades dá e passa. Aqui é minha casa! Não volto nunca mais…”.

E assim a família de “baianos europeus” vai tocando sua vida de sucesso, sem nunca esquecer das dificuldades que passaram para conseguir uma vida confortável no primeiro mundo.

Tarik Darian é empresário, conhece mais de uma dezena de países e já morou em três continentes.

Se você tiver interesse em uma vida melhor no exterior, pode conversar diretamente com ele, usando o formulário abaixo:

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Este post tem 17 comentários

  1. Avatar

    É realmente uma grande lição de vida esta história, sem brincadeira, daria um belo filme, livro ou ambos!!!

    Obrigado por compartilhar conosco!

  2. Avatar

    Fantástica narrativa deste exemplo de empreendedorismo.
    Coragem, perseverança e oportunidade só podem resultar em sucesso.

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    Muito bom. É uma pena que os bons vão saindo e a porcaria vai ficando

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    História inspiradora. O segredo do sucesso está no trabalho e na persistência.

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    Leio sempre, mas comento pouco. Mais um texto de excelente qualidade. Estou enrolando há 3 anos (em dúvida se era melhor como PJ), mas esse ano vou abrir uma conta fora usando os conhecimentos que adquiri lendo o seu site. Obrigado

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    Que história, man!!!!!!!!!!!!!

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    Conta PJ é melhor mas é terrivelmente burocrática, F. Me corrija o II se estiver errado.

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    Bom dia

    É uma história para nós fazer pensar realmente.

    Eu vejo que as “amizades” dele apenas tentaram coloca-lo para baixo. Mas, como disse no texto, ele não teve tempo de se sentir humilhado.

    Acredito que o brasileiro em geral perde muito do seu tempo com relacionamentos inúteis e até mesmo nocivos.

    Até mesmo nos EUA, eu noto um grande exagero em relação a “habilidades sociais”.

    Até concordo que você jamais deve tratar as outras pessoas mal apenas porque pode, porém você acreditar que seu sucesso na vida vai depender disso é uma ilusão.

    1. Investidor Internacional

      Olá Jorge,

      A minha percepção é que o brasileiro é muito acomodado.

      Qualquer pessoa que tenta fazer algo mais em geral é desestimulado por aqueles mais próximos.

      Por isso é importante estar cercado de pessoas que te “empurrem” pra frente e não funcionem como âncoras.

      Abçs!

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