Formas incomuns de selecionar ações

Veja algumas estratégias para selecionar ações que a maioria dos investidores desconhece

Quando começamos a estudar o investimento em ações, descobrimos inicialmente que existem duas formas de selecionar as ações que irão compor nosso portfólio, uma é a análise fundamentalista e a outra é a análise gráfica.

Pela análise fundamentalista, procuramos empresas lucrativas, com um bom fluxo de caixa, baixo endividamento e com diferencial competitivo no mercado. Auxiliar a isso, temos a escola de valor, que é comprar essas boas empresas a preços atraentes. É a estratégia básica de Warren Buffett e Charlie Munger que investidores do mundo todo tentam replicar.

Já a análise gráfica busca padrões no comportamento de preços para indicar quando comprar e quando vender ações. Ela não se preocupa muito com os lucros e condições financeiras da empresa, apenas com a movimentação de preço da ação.

Entretanto, existem algumas outras formas de se investir em ações que não seguem exatamente estes princípios diretamente.

São 6 formas incomuns de selecionar ações que você irá aprender agora.

Dividendos

A análise dos dividendos é uma maneira bastante simples e tem se mostrado eficiente no longo prazo. Entretanto, não é aquilo que você pode ter escutado por aí, que é escolher as ações com base apenas no dividend yield. Essa é uma das maiores besteiras que você pode fazer na vida. Sei porque já fiz e nunca funcionou.

Mas vamos ao modo mais adequado de usar os dividendos como guia para seus investimentos no mercado de ações. Lembrando que essa estratégia se aplica bem aos Estados Unidos, mas nem tanto aos demais mercados.

A maneira clássica de começar é selecionando as ações que fazem parte do S&P 500 e  que tenham aumentado o pagamento de dividendos anualmente nos últimos 25 anos. Adicione um critério de tamanho (pelo menos 3 bilhões de dólares de valor de mercado) e liquidez (5 milhões de dólares por dia) e temos a seleta lista de ações chamadas de Aristocratas dos Dividendos. Atualmente, temos 53 empresas que preenchem esta lista.

O raciocínio se baseia no seguinte. Se a empresa está no S&P 500, significa que é uma empresa grande. Se ela não apenas distribui, como também aumenta seus dividendos anualmente por 25 anos ou mais, quer dizer que é uma empresa madura, com boa geração de caixa e lucros consistentes. Enfim, é uma companhia estável financeiramente, pois mesmo durantes as crises (e olha que tivemos várias nos últimos 25 anos) ela aumentou a remuneração dos acionistas.

Como selecionar açõesO uso dessa estratégia pode ser interessante, pois ela também indica quando vender uma ação. Veja, mesmo que a empresa tenha queda das vendas ou redução dos lucros, ela pode continuar subindo dividendos, pois sua situação financeira é tão boa e sua posição no mercado é tão confortável que ela acredita que a situação é passageira e em breve os lucros voltarão a crescer. Entretanto, quando uma empresa com essas características corta ou reduz os dividendos, indica que ela já não está tão confortável financeiramente como antes e pode ser que seu modelo de negócio ou produtos tenham ficado defasados. Quando isto acontece é um indicativo de que é hora de vendê-la.

A outra vantagem de focar nos dividendos é que você se desliga um pouco das cotações e flutuações do mercado. Você se preocupa apenas com o dinheiro caindo na conta. E como são empresas que sempre aumentam os dividendos, este valor sobe ano após ano. Inclusive, recentemente, me deparei com a história de uma pequena firma de Wall Street, que ainda mantém os certificados de ações em papéis já envelhecidos e o único trabalho a que se dão é ir até a calçada recolher os cheques que chegam frequentemente pelo correio com o pagamento de dividendos. Investimento à moda antiga e preocupação zero com a variação de preço das ações.

Com esta lista reduzida de 53 ações, você pode usar outros critérios para escolher quais ações efetivamente comprar. Selecionar os maiores yields? As que estão mais aumentando dividendos nos últimos 5 ou 10 anos? As de menor relação Preço/Lucro? Aquelas com menor payout? Enfim, fica a seu critério, agora sim, usar dados fundamentalistas ou de valuation para chegar no seu número ideal de ações.

As 10 maiores empresas em valor de mercado que compõem a lista atualmente são:

  1. Johnson & Johnson (NYSE:JNJ)
  2. Exxon Mobil (NYSE:XOM)
  3. Wal-Mart (NYSE:WMT)
  4. AT&T (NYSE:T)
  5. Chevron (NYSE:CVX)
  6. Procter & Gamble (NYSE:PG)
  7. Abbvie (NYSE:ABBV)
  8. Coca-Cola (NYSE:KO)
  9. Pepsico (NASDAQ:PEP)
  10. 3M (NYSE:MMM)

Viu como só tem peixe grande?

São empresas que apresentam não só uma grande variedade de produtos, em geral com marcas líderes, como também atuam em pelo menos uma centena de países. Com exceção da AT&T.

Você pode ver maiores detalhes sobre a seleção de empresas pagadoras de dividendos no artigo Como montar sua carteira de dividendos a partir do zero.

Recompra de ações 

A recompra de ações ou buyback é uma medida, juntamente com os dividendos, que algumas empresas tomam para retornar valor ao acionista.

O raciocício em cima do investimento nessa estratégia à princípio é simples. A empresa XYZ, por exemplo, vale 100.000 dólares. Ela é composta por 100.000 ações que valem 1 dólar cada. Ela anuncia a recompra de 2.000 ações no mercado. Após recomprar, a empresa cancela essas ações. Mantidas as demais condições, em teoria, a empresa permanece com valor de 100.000 dólares. Só que agora existem apenas 98.000 ações, indicando que cada ação vale 1,05 dólares.

Claro que as flutuações do mercado não levarão a um resultado tão preciso, mas a tendência é a de que com menos ações compondo o capital da empresa, cada uma valha mais.

A ideia é simples, mas sua aplicação nem tanto. Não basta simplesmente você sair comprando uma ação só porque foi anunciada a recompra. É preciso alguns critérios para definir quais dessas empresas merecem sua atenção.

Recompra de açõesPrimeiramente, não são todas as empresas que anunciam recompra que efetivamente irão recomprar as ações no mercado e depois cancelá-las. É comum uma empresa anunciar a recompra de tantas ações e ao final do período ter recomprado apenas 5% do que prometeu, o que tem um efeito insignificante no valor de cada ação. Outras empresas ainda fazem pior. Anunciam e depois cancelam a recompra.

Então, a primeira coisa é ver se a empresa que está anunciando a recompra, efetivamente comprou as ações nos últimos anúncios que fez. Desta forma, você seleciona apenas as empresas que cumprem o que prometem.

Uma empresa que tem uma política frequente e efetiva de recompra de ações como forma de gerar valor ao acionista são as que mais se adequam a este critério.

O outro ponto é escolher empresas que recompram as ações quando elas estão sendo negociadas a preços bastante descontados ou nos momentos de crise. Para isso, você pode verificar os períodos de recompra passados de uma empresa e ver se coincidem com os períodos de baixa no preço das ações. Uma empresa que anunciou e efetuou recompra de ações quando elas estavam negociando na “bacia das almas” e logo depois a ação recuperou o preço, deve ser avaliada com carinho quando anunciar novamente a recompra.

Em resumo, esta estratégia consiste em comprar ações de empresas que anunciam e cumprem o processo de recompra de ações, caso elas estejam negociadas com desconto no mercado. Desta forma, você estaria comprando as ações num momento de baixa, com o preço sendo pressionado positivamente pelo processo de recompra.

Copiando os melhores fundos

Nos Estados Unidos, gestores de recursos com pelo menos 100 milhões de dólares sob administração são obrigados a preparar o formulário 13F dentro de 45 dias após o fim de cada trimestre fiscal. Neste formulário os gestores devem colocar os detalhes sobre as ações que possuem e enviá-lo para a SEC (Securities and Exchange Comission). A Comissão responsável pelo gerenciamento do mercado financeiro publica os formulários de todos os gestores em seu site e eles podem ser acessados por qualquer pessoa de forma gratuita. Essas informações ficam numa seção do site chamada EDGAR.

Dentre as empresas obrigadas a preencher este formulário estão os principais hedge funds, fundos de pensão, fundações e holdings dos Estados Unidos, incluindo aí a Berkshire Hathaway de Warren Buffet. Inclusive, se quiser ver a posição de ações da Berkshire publicada no último formulário 13F, basta clicar aqui.

O conteúdo deste formulário pode ser uma interessante fonte de informações. Entretanto, deve ser usado da maneira correta. Não basta simplesmente você pesquisar, anotar as posições e sair comprando as ações. É preciso lembrar que as posições podem ser de curto prazo, que na data de divulgação da posição (com até 45 dias de atraso), elas podem até já ter sido vendidas. Pode ser que aquela posição faz parte de uma estratégia long-short. Enfim, é preciso usar certos critérios.

Mas quais são esses critérios?

Primeiro, é preciso selecionar os fundos que tenham características de investimento de longo prazo. Fundos que não ficam trocando de posição a todo o momento. A possibilidade de você conseguir replicar a carteira destes de maneira mais fiel é maior. Por isso, a Berkshire é muito copiada, já que carrega as mesmas ações por vários anos.

Outro critério é que não é necessário repetir exatamente todas as posições do fundo. Em geral, orienta-se pegar as (10) maiores posições, que em geral são as que realmente irão ditar a variação de preço do fundo. Assim, você de quebra reduz os custos com transações.

Além disso, é importante considerar apenas as posições “alta convicção”, ou seja, posições que estejam presentes no portfolio há pelo menos 3 trimestres. Este é um dado que mostra confiança na ação. E se o fundo pretende ficar bastante tempo com ela é porque acredita em sua valorização.

Mas, enfim, qual fundo replicar?

A resposta é bem individual. Você pode pegar um fundo que tenha apresentado uma rentabilidade superior por muitos anos, ou mesmo cruzar os dados dos melhores fundos para descobrir quais as posições de alta convicção que eles têm em comum.

Existem diversas ferramentas que facilitam a aplicação dessa estratégia. No site Gurufocus, por exemplo, você pode ver que a Fundação Bill e Melinda Gates tem 47% das ações em Berkshire Hathaway Classe B, 15% em Microsoft e o resto em outras 17 ações.  Você também pode combinar as posições dos seus fundos preferidos, ver as posições Top 10, etc. Entretanto, para ter acesso às ferramentas mais completas é necessário fazer a assinatura paga.

No livro Invest with the House: Hacking the Best Hedge Funds, o autor mostra como copiar de maneira prática os melhores fundos. Se funciona? Um dos modelos “clone do Buffett” conseguiu não só bater o S&P 500, como também bater a própria valorização da ação da Berkshire Hathaway.

Clone Buffett vs Berkshire vs SP500
Clone da Berkshire vs Berkshire vs S&P 500

Conclusão

Estas foram as 3 primeiras das 6 formas incomuns de selecionar ações no exterior. Como dito, por vezes, é necessário o uso de algumas ferramentas (às vezes pagas) para facilitar e diminuir o tempo necessário na pesquisa e seleção das ações.

Na segunda parte do artigo, comentarei outras 3 estratégias, sendo uma ridiculamente fácil de implementar. Até lá.

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Este post tem 8 comentários

  1. Avatar

    Boa noite Rafael,

    fica a sugestão de um artigo com o passo a passo de como entrar no EDGAR e como chegar a composição dos fundos.

    Excelente material como sempre

    Marcelo Kastrup

    1. Investidor Internacional

      Olá Marcelo,

      Boa sugestão. O EDGAR é bem chatinho.

      O Gurufocus já mostra as informações bem organizadas. Prefiro ver por lá. Dê uma olhada também.

      Abçs!

  2. Avatar

    Olá vc tem uma lista com os maiores fundos dos EUA? É mais vc sempre foi do mercado financeiro ou é formado em economia, queria saber qual sua trajetória?….. Minha família não bota fé no mercado financeiro como fonte de de trabalho

    1. Investidor Internacional

      Olá Carlos,

      Não tenho esta lista. Na verdade, a ideia é escolher os melhores fundos e não os maiores.

      Não trabalho no mercado financeiro, mas é uma carreira como qualquer outra.

      Abçs!

  3. Avatar

    Excelent post, Investidor Internacional.

    O Formulário 13F costuma apresentar boas informações, concordo plenamente com você.

    Replicar 100% é tarefa dificílima para o investidor pessoa física, mas a essência de investimentos é identificável nestes relatórios.

    E após aprender a essência, você pode utilizá-los por conta própria, de forma muito mais segura e confiante na hora de tomar as decisões.

    Um forte abraço!

  4. Avatar

    É um post bom atrás do outro. Queria fazer apenas um paralelo e comentar que infelizmente em mais essa condição perdemos de lavada dos americanos no que tange à transparencia dos fundos aqui no Brasil. Na consulta à CVM as informações sobre a composição desses fundos é extremamente superficial e abstrata. Chega-se facilmente a conclusão que fazem esse tipo de trabalho só pra marcar posição meramente no dia a dia. Triste CVM, chega sempre adiantada para punir quem ainda não merece ser punido e chega atrasada demais quando o problema já aconteceu.

    1. Investidor Internacional

      Olá Marcos,

      As informações na CVM são com 90 dias de atraso, mas eles não passam todas as posições. Vale individualmente para cada posição. Então fica quebrado o portfolio e mais difícil seguir.

      Abçs!

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