O valor do trabalho é definido pelos outros

É justo um jogador de futebol ganhar mais que um professor?

Outro dia acompanhei a seguinte discussão nas redes sociais: A história era de que uma nutricionista famosa que atendia as atrizes das novelas viria atender em São Paulo. Não seria nada demais, se não fosse pelo valor da consulta, 4.020 reais.

Sempre que é divulgada uma exuberância de remuneração como essa, muita gente questiona se o valor é justo. Afinal de contas, muitos profissionais da mesma área não chegam sequer a receber esse valor por mês.

Mas será que é correto pensar dessa forma?

Será que existe um valor do trabalho justo para cada profissão?



Quanto vale o trabalho?

Talvez você já conheça a famosa teoria do valor-trabalho, defendida por muitos economistas durante muitos anos, incluindo o mais nocivo deles, Marx. Ela dizia que o valor de um bem era determinado pelo custo de produção. Um sapato que consumisse mais horas de trabalho para ficar pronto deveria valer mais que um que demorasse menos tempo. O pior é que ainda existe muita gente que acredita nisso nos dias de hoje.

Com o surgimento da Escola Austríaca de Economia, uma nova abordagem foi estabelecida. Os austríacos diziam que o valor dos bens era algo subjetivo. Ele dependia mais da necessidade ou da vontade do comprador do que do tempo e dos recursos necessários para a sua produção.

A utilidade de um bem ou serviço é o fator mais importante para determinar seu valor. Se eu lhe apresentar uma garrafa de água mineral de 500ml e uma barra de ouro de 250g, por qual delas você pagaria mais? Agora eu lhe faço a mesma pergunta, mas o coloco no meio do deserto e há 2 dias sem comer ou beber. Percebeu como muda a resposta e mudam os valores?

Da mesma forma, o quadro de um pintor reconhecido como Cezanne ou Rembrandt vale mais do que o de um pintor local, porque as pessoas acham mais bonitos e pagam mais caro por eles, mesmo que sejam quadros menores e que tenha sido usado menos tinta e menos tempo para pintar.

Enfim, o valor de um bem ou serviço é determinado por quem o adquire.

O caso da nutricionista

Com relação à nutricionista, ter clientes famosos transmite uma confiabilidade para o público em geral. Todo mundo já ouviu falar do treinador do Ayrton Senna ou do coach do Bill Clinton. Atender a este tipo de cliente e ganhar a confiança deles pode servir de catapulta em diversas carreiras.

Muita gente ainda acredita que basta se formar, fazer pós-graduação, MBA, etc que logo todo mundo irá querer contratá-lo pagando um alto cachê. Nada mais longe da verdade. Como eu já falei no artigo Para que serve a educação? existe uma série de outras habilidades que devem ser desenvolvidas e que contribuem para a remuneração de um profissional que vai além da parte técnica.

Claro que a capacidade técnica é importante. Se as clientes da nutricionista não tivessem alcançado os resultados desejados, o feitiço viraria contra o feiticeiro. Ou você faria uma plástica com o médico que operou o nariz do Michael Jackson?

Existe uma frase atribuída ao filósofo romano Seneca:

Sorte é quando o prepado encontra a oportunidade.

Podem passar diversas pessoas famosas pelo seu “consultório”, mas se você não conquistá-las com um excelente trabalho, você não terá uma fila de clientes na porta, querendo lhe pagar 4 mil reais pela consulta.

Se com o tempo, os clientes não encontrarem o resultado esperado para um preço tão elevado, eles deixarão de procurar a profissional, a fila sumirá e o preço necessariamente irá cair. Ao contrário, se os clientes ficarem cada vez mais satisfeitos, levando ao aumento da fila, é possível até que o valor aumente.



O caso do Neymar

A discussão sobre o salário do Neymar em relação a outras profissões, digamos, mais valorizadas socialmente vem à tona com uma certa frequência.

Primeiramente, é preciso deixar claro que jogador de futebol ganha muito pouco. Segundo este estudo, no Brasil, 83,3% dos jogadores ganham menos de 1 mil dólares por mês. É um salário comum, bem longe do glamour dos jogadores de grandes times. O que vemos na televisão é uma elite muito selecionada.

Vizinho ao prédio em que eu morava anteriormente, existe um campo de várzea. Todo fim de semana havia jogo. Os portões eram abertos, entrava quem quisesse, sem pagar nada. Sempre havia meia dúzia de gatos pingados na arquibancada, provavelmente parentes e amigos dos jogadores.

Agora coloque um aviso dizendo que Neymar irá jogar num dos times na próxima rodada. A notícia irá se espalhar e no dia do jogo eu garanto pra você que milhares de pessoas apareceriam para assistir. Não só isso, seria possível cobrar 300 reais pelo ingresso e muito mais de patrocinadores que quisessem estampar suas marcas no evento.

O mercado do futebol movimenta bilhões de dólares anualmente. Entretanto, a maior parte do valor que chega no bolso dos jogadores é destinada apenas a uma pequena elite de talentosos. O mercado do esporte, como o da música, é conhecido como um mercado onde “the-winner-take-all”, como no livro dos economistas Philip Cook e Robert Frank, chamado “O Preço do talento: como executivos e profissionais são pagos e como isso afeta a América”.

Nesse tipo de mercado, os melhores ficam com “todos os lucros”. O artista e o jogador de futebol do momento conquistam todos os holofotes, são convidados a estrelar campanhas, receber patrocínios e a ter a imagem exibida para o mundo. E isso acaba concentrando o dinheiro nesse pequeno grupo, enquanto a maior parte dos profissionais desses meios vive uma vida comum.



Em relação à educação, existem sim professores muito competentes que são disputados por escolas. Claro que nada que chegue perto dos jogadores de futebol mais famosos. O salário de um professor (aqui falando de escolas privadas) será tão maior quanto mais alunos ele puder atrair. Só que esse número é limitado. Por melhor que o professor seja, não é possível colocar mil pessoas dentro de uma sala de aula.

Um outro fator é o alcance do trabalho de um e de outro. O do Neymar é transmitido para o mundo inteiro, enquanto as aulas do professor são dadas a um número restrito de alunos. Os patrocinadores sabem se colocarem uma placa de publicidade no estádio Parque dos Princípes em Paris, ela será exibida para o mundo inteiro, então estão dispostos a pagar mais. Parte desse valor acaba indo pro bolso do camisa 10. Já o professor tem um número limitado de alunos que pagam mensalidades.

Também não podemos nos esquecer de que isso vale para os esportes mais populares e que consequentemente atraem as maiores cifras de dinheiro. Não adianta você ser o “Neymar” da peteca, que não irá receber seus milhões.

Não mencionei as escolas públicas, porque a dinâmica e progressão de carreira são diferentes em relação ao setor privado. Não tem a ver com mercado, mas com leis e negociações com o secretário ou ministro da educação ou reitor da universidade.

Conclusão

Existem diferentes variáveis que determinam o valor da remuneração de uma pessoa. Ela depende sim da qualidade e qualificação do profissional, mas muito mais do que os outros estão dispostos a pagar.

É a percepção de valor pelo consumidor que determina o valor de um bem ou serviço. E essa percepção é definida pelos bilhões de moradores no planeta, quando eles decidem onde gastar o dinheiro.

Se apegar ao que você acha justo ou ao que seria mais útil para a sociedade não encontra repaldo no funcionamento das relações econômicas.


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By | 2018-05-19T19:14:11+00:00 13 de Maio de 2018|Economia, Opinião|10 Comments

10 Comments

  1. Douglas Hosoda 14/05/2018 at 08:08 - Reply

    Perfeito raciocínio.
    As mesmas pessoas que criticam o alta salário do Neymar, são as mesmas que dão a audiência, que compram os produtos por ele anunciados, que seguem a sua moda, enfim ajudam a construir esse enorme salário que o Neymar ganha justamente, simplesmente por ter um talento fora do comum.

    • Investidor Internacional
      Investidor Internacional 14/05/2018 at 22:14 - Reply

      Olá Douglas,

      Exatamente. Neymar ganha mais por existem mais pessoas dispostas a pagar para vê-lo.

      Abçs!

  2. Antonio 14/05/2018 at 11:54 - Reply

    O exemplo; da garrafa de água mineral, e a barra de ouro, é o oásis de uma oportunidade impar..

    parabéns meu nobre.

  3. Bruno 14/05/2018 at 17:02 - Reply

    Fantástico seu texto e raciocínio!

  4. Luiz 15/05/2018 at 11:57 - Reply

    As pessoas normalmente são hipócritas e irresponsáveis, especialmente quando as consequências das suas ações (ou opiniões) ao invés de serem suportadas apenas por elas podem ser “socializadas” com os outros.

    Sempre quando alguém me fala que o salário do professor deveria ser maior eu pergunto: “Mas você estaria disposta em ter um aumento de 30%/50% na mensalidade dos seus filhos para os professores terem um aumento de salário?”

    E claro que dai a coisa muda de figura.

    Mas o grande problema é no setor público, porque lá o aumento irresponsável do salário de um professor não vai refletir diretamente no bolso das pessoas (pois na prática o dinheiro público é um dinheiro de ninguém), oque tende a fazer com que eles passem a viver numa realidade paralela e sejam mais irresponsáveis.

    É a mesma coisa com os crackeiros, é legal ir para a televisão defender e ajudar os crackeiros, mas desde que eles não vão na minha rua transformar ela em um chiqueiro.

    • Investidor Internacional
      Investidor Internacional 15/05/2018 at 12:03 - Reply

      Olá Luiz,

      Tem um vídeo do Peter Schiff em que ele vai ao Wal-Mart e pergunta para as pessoas se elas gostariam que os funcionários tivessem um aumento. A maioria diz que sim. Aí ele fala, então deposita aqui 15% a mais da sua compra para os funcionários receberem.

      É um teste bem interessante.

      Abçs!

  5. Natalia 19/05/2018 at 11:18 - Reply

    Parabéns pelo artigo. Você tocou num ponto interessante. Acho que a remuneração das pessoas tem a ver com o que a sociedade valoriza. Se as pessoas valorizassem o conhecimento, o trabalho de um bom professor poderia ganhar escala através de vídeos no YouTube

    • Investidor Internacional
      Investidor Internacional 19/05/2018 at 11:56 - Reply

      Olá Natalia,

      Professores que dão cursos extra-curriculares pela internet têm um potencial muito maior do que aqueles que ficam na sala de aula.

      Não são todos que terão esse perfil de saber explorar as ferramentas online.

      Abçs!

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