Os 3 pilares da independência dos Estados Unidos

Independência dos Estados Unidos

“Dê-me a liberdade, ou me dê a morte”

Já faz cerca de um ano que queria escrever algo a respeito dos fundadores dos Estados Unidos. Se para alguns assuntos, às vezes é difícil encontrar material, para falar da independência dos Estados Unidos e dos homens que a colocaram em prática é tanta informação que é fácil se perder.

E por que falar deles? Bom, se existe alguma coisa que deu muito certo no longo prazo, essa coisa são os Estados Unidos. O país não teria chegado ao patamar atual se não tivessem implementado um modelo sólido em sua fundação, que gerasse as condições necessárias para o desenvolvimento do país.

Agora que nos aproximamos da comemoração de mais um 4 de julho, decidi rever todas as anotações do que tinha lido e resgatar algumas das principais ideias defendidas por John Adams, Benjamin Franklin, Alexander Hamilton, Thomas Jefferson, James Madison, Thomas Paine, George Washington, entre tantos outros que contribuíram para que as treze colônias saíssem do império britânico e pudessem definir o seu futuro de maneira independente.

Já se passaram 242 anos da assinatura da declaração de independência dos Estados Unidos, mas os founding fathers são lembrados até hoje e continuam sendo uma autoridade importante sempre que os americanos precisam decidir por quais princípios eles devem se orientar.

A liberdade

A ideia mais poderosa que impulsionou os fundadores dos Estados Unidos foi a ânsia por liberdade. Muitos dos primeiros imigrantes que chegaram ao país vinham de pequenos grupos religiosos que eram duramente perseguidos pela Igreja Anglicana. Eram grupos que mantinham, cada um, uma cultura própria e um entendimento a respeito da Bíblia e aprenderam a exercer sua religiosidade de maneira individual, diretamente com Deus e longe de uma autoridade religiosa. Aprenderam a valorizar assim a cultura da individualidade e da responsabilidade pessoal.
É preciso entender que independência não significa liberdade por si só. Não basta ser uma nação independente, é preciso que os direitos individuais estejam protegidos das arbitrariedades de poder. Os fundadores tinham a noção tanto da “liberdade negativa”, que significa ausência de restrições, quanto da “liberdade positiva”, onde a liberdade anda de mãos dadas com a responsabilidade e todo cidadão deve entender os seus deveres e obrigações para não prejudicar os demais.
“Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens foram criados iguais, foram dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade.” -Thomas Jefferson na Declaração de Independência

Conversando com um amigo que morou muitos anos nos Estados Unidos e contando da minha abertura de conta no Bank of America, ele observou bem que a gerente em nenhum momento pensou que eu estivesse fazendo alguma coisa errada, mesmo sendo um estrangeiro que estava há 3 dias no país. De documento, ela  pediu apenas meu passaporte. Todas as demais informações que eu passei foram puramente verbais. Não precisei entregar comprovante de residência (apesar de ter levado) e nem reconhecer firma de assinatura. Eles confiam em você (liberdade+responsabilidade), mas se você cometer algum ilícito, a coisa pega.

Governo limitado

Os fundadores acreditavam que o propósito de um governo seria proteger a vida, a liberdade e a propriedade privada. Entretanto, eles reconhecem que esse mesmo governo pode se voltar contra você e o mesmo poder que ele tem para preservar a liberdade pode ser usado para suprimi-la. Os exemplos de governos que se tornaram tirânicos são inúmeros no decorrer da história.

O fato do povo eleger seus representantes não é por si só garantia de liberdade e mais cedo ou mais tarde, alguém com propensão ao autoritarismo pode ser colocado no posto mais alto de poder. Em virtude disso, por meio da constituição, os fundadores restringiram o poder do estado, dividindo as funções entre as diversas camadas de governo, colocando umas para vigiar as outras e evitando a concentração de poder. A alternância dos políticos por meio de eleições e a ideia de impeachment para diversos cargos foram também alguns dos processos criados com esse objetivo.

Entretanto, muita coisa aconteceu nesses quase dois séculos e meio que a noção de governo limitado foi atropelada de forma brutal. Não é fácil manter um modelo estabelecido e bem pautado de maneira absolutamente incólume por tanto tempo. E aqui vale novamente a crítica ao modelo presidencialista adotado. A alternância de poder por tanto tempo, cuja ideia inicial você acabou de ver, provocou um desvio no curso e muito do que foi estabelecido inicialmente acabou sendo perdido. Algo que talvez pudesse ser minimizado pela adoção da monarquia como forma de governo.
Independência dos Estados Unidos

Virtudes e valores morais

Para existir uma república virtuosa é preciso haver cidadãos virtuosos. Nesse contexto, estão os conceitos de cidadania e estadista. O primeiro é o conjunto de direitos e deveres de um indivíduo que vive em sociedade e o segundo se refere às habilidades administrativas e de relacionamento de um político.

Essas noções diferem do libertarianismo, que advoca pela plena liberdade individual e do coletivismo, que prega exatamente o oposto. Os fundadores dos Estados Unidos defendiam a liberdade individual com unhas e dentes, mas defendiam a preservação de valores morais e de civilidade, muitos deles oriundos dos ideais clássicos greco-romanos.

“Apenas pessoas virtuosas são capazes de ter liberdade. Conforme as nações se tornam corruptas e viciadas, elas terão maior necessidade de um mestre.” – Benjamin Flanklin

A defesa da ética, a noção de caridade, honra na defesa do próprio país, civilidade e auto-suficiência são apenas algumas das virtudes defendidas pelos fundadores e que devem seguir como norte para o cidadão americano de qualquer época.

Somente a manutenção desses valores é capaz de fornecer a maturidade moral necessária para que o povo e seus governantes vivam em harmonia e não haja quebra dessa relação por motivos de corrupção ou rebeldia.

Entendeu porque os americanos são os maiores bilionários e também os maiores filantropos do mundo?

Conclusão

Procurei mostrar de forma bastante resumida aquilo que julguei mais importante dentro dos conceitos defendidos pelos fundadores dos Estados Unidos e que estão colocados na Declaração de Independência, na Constituição e em tantos outros documentos.
Os ideais de liberdade, a limitação do governo para atividades definidas e a preservação de valores morais, que não são individualistas e nem coletivistas, serviram de base para a construção de uma nação que se tornou a mais próspera do mundo e o destino de milhões de pessoas que se sentem infelizes ou perseguidas em suas terras-natais.
E aqui deixo a reflexão: O Brasil se tornou independente de Portugal em 1822, mas você consegue me dizer se vivemos realmente em uma sociedade livre?
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Este post tem 19 comentários

  1. Avatar

    herdamos o modelo burocrático racional baseado no controle estatal, talvez uma herança dos antigos colonizadores espanhois e portugueses. Isso afeta a forma como as organizações e a sociedade de forma geral vivem e institucionalizam suas práticas. Tem haver com a dicotomia de governança entre teoria da agência e stewardship theory. A visão brasileira de controle diz que o controle não é apenas necessário, ele é essencial e dessa forma sempre a uma justificativa para aumentar a atuação do Estado. O que fazer? Criar as regras do jogo ou jogá-las? Terceirizar sua decisões ou decidir por você e pelos outros? No mínimo é necessário aprender a jogá-las, e esse blog faz isso com perfeição.

    1. Avatar

      No caso da “herança” comentada, quero contribuir que não vem do Brasil Império, fomos ensinados, doutrinados assim, por nosso sistema de ensino falido, tendencioso e socialista, nossa herança estatal nasce na “República” que foi um golpe, onde fica mais grave com os “governos” de Getúlio Vargas, reflexo que até hoje temos uma CLT. O Brasil no Império era referência mundial em educação, economia, diplomacia e governança.
      Pode se questionar como o Brasil conseguiu manter este território todo?
      O que vejo atualmente é o Mercado Financeiro não querendo pagar o preço da mudança, preferindo manter o governo atual PSDB e PMDB e morrendo de medo de Comunistas como Ciro Gomes, Boulos e Manuéla Dávila.
      Leandro Ruschel faz uma bela analise sobre isso.
      Quando tínhamos um Monarca tinha um poder moderador focado no estado, na nação, uma visão a longo prazo.
      Agora temos o chefe de estado e de governo na mesma pessoa, moderados por uma constituição totalmente socialista guardada pleo nosso graaaaaaaande STF.
      Sugiro o conteúdo do pessoal do Brasil Paralelo para uma melhor compreensão de nosso cenário político anterior e atual…
      https://www.brasilparalelo.com.br

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    Em hipótese alguma,vivemos num país onde as ideias e arte de inovar são impedidas por buracratas incompetentes e arrogantes do governo que não sabem fazer outra coisa,a não ser criar regras e normas sem sentido para dificultar o crescimento não só das pessoas como também do país.

  3. Avatar

    E os democratas (liberals) querem destruir esses pilares a todo custo … lamentável …

    A prioridade deles é a supressão da segunda emenda e fronteiras abertas para todo tipo de criminoso estrangeiro (open borders).

    Espero que fracassem.

  4. Avatar

    Eu diria uma fé inabalável em liberdade e ciência… essas duas palavras mágicas que constroem o progresso…abraços

  5. Avatar

    É uma grande história, II. É incrível que os liberais de lá, como os esquerdistas daqui, fazem de tudo para derrubar esses pilares que construíram a maior nação desse mundo. Com todas suas bobagens, espero que o Trump consiga dar uma freada nessa tendência.

    Abraço!

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    Peterson foi perfeito! O Brasil Império tinha veio liberal e naquela época era mais rico que os EUA. O golpe da República foi duro demais para o país e o modelo “tudo pelo café” fez com que perdessemos todas as chances de entrar no mundo dos países desenvolvidos. O pior que o endividamento indiscriminado em prol dos produtores de café não se deu por acreditar nesse mercado e sim pela pura necessidade de manter o poder através de troca de favores com os aristocratas da época, hoje representados pelos empreiteiros.
    Lamentável saber que estávamos no caminho certo e não só fomos levianamente desviados como tivemos toda nossa história e legado desse período magnífico apagado de nossa história.
    Em 15 de novembro de 1889 ratificamos nosso complexo de vira latas e mergulhamos de vez na lama da corrupção e da impunidade. Tomara que no final ainda existam bandidos que tenham a coragem de se suicidar como fez o pai dos pobres (botou foi pobre no mundo, por isso pai) Vargas.
    Tivemos a faca e o queijo na mão!

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    O Império do Brasil era uma nação ainda em desenvolvimento cujo tronco foi decepado abruptamente num momento em que muitos brotos estavam se desenvolvendo. Muitos problemas estruturais ainda estavam por ser resolvidos em 1889. A escrevatura foi o último problema econômico, moral e de desenvolvimento que foi riscado da lista, depois de décadas de tentativas e lutas. A separação da Igreja do Estado, com liberdade religiosa e registro civil para todos, foi praticamente o único problema estrutural resolvido pela República. Os outros problemas que o Brasil Imperial encarava – a necessidade de uma organização federalista que não se transformasse em várias tiranias de pequenos líderes locais, os “coronéis”, a necessidade de integração nacional por ferrovias, navegação de cabotagem e navegação fluvial, e de telecomunicações, o desenvolvimento de ensino de qualidade em todos os níveis, permanecem emperrados até hoje! Marcus Costa tem razão, tivemos a faca e o queijo nas mãos, e o pior é que ninguém mais se lembra disso, fruto do apagamento deliberado de décadas de nossa história pelo ensino oficial.

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    E pensar que existem doentes mentais que pedem a volta da ditadura. Usam a intervenção militar e o fim da democracia como desculpas para não criar vergonha na cara e lutar por um Brasil melhor, respeitando o próximo. Os americanos são livres por que vigiam a própria liberdade constantemente e lutaram para conquistá-la. Pedir para os outros ou uma instituição serem responsáveis em meu lugar, é colocar o pescoço nas mãos do abatedor.

    1. Investidor Internacional

      Olá Rodrigo,

      Sim, essa vigilância precisa partir do povo.

      Só que como mostrado, somente um povo dotado de valores morais é capaz de sobreviver dentro desse modelo.

      Abçs!

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    Boa tarde, Raphael;
    Não sei se você leu semana passada o artigo do L. Karnal no Estadão, mas é justamente sobre a Independência americana e muito interessante, o porquê de ainda hoje o porte de armas é defendido e está na própria Constituição deles.
    Foram os cidadãos (e não o exército) que lutaram contra a poderosa Inglaterra – que na época era verdadeiro império (como hoje é os EUA) e venceram. Se os colonos não tivessem armas, essa vitória pela independência seria impossível.
    Socialistas se empenham para desarmar a população (por que será?)
    Abçs

    1. Investidor Internacional

      Olá Sonia,

      Não li não. Nem gosto do Karnal, mas irei procurar.

      A posse de armas é justamente para se defender de um governo tirano, como o que está se formando no Brasil.

      Abçs!

  10. Avatar

    Da-lhe Platão ! Disse Benjamin Flanklin: “Apenas pessoas virtuosas são capazes de ter liberdade. Conforme as nações se tornam corruptas e viciadas, elas terão maior necessidade de um mestre.”
    Um excelente texto republicano e recomendo a todos lerem. Essa é a prova de que, se a República for regida pelos aristocráticos, ela será livre e teu povo próspero e virtuoso, mas se cair nas mãos dos imorais, será privada da liberdade e teu povo condenado a subserviência, mendigando o pão de cada dia e se regozijará com qualquer migalha que caia das mesas dos corruptos, mesmo que seja em forma de esmola.
    Por isso é perceptível a necessidade de um mestre, um rei ou ditador, um povo de alma escrava.
    Escravos são rebeldes e não tem capacidades de governo. Se fundamentam nos vícios e não em virtudes, por isso, a desorientação por não saberem quem são, onde estão e quais são seus deveres individuais e coletivo.
    “Dê-me a liberdade, ou me dê a morte”
    E Da-lhe Aristóteles também.

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