A metamorfose do investidor

Metamorfose do investidor

Ou aprendemos a mudar de opinião ou não estamos aprendendo nada

Como eu conto um pouco no meu próximo e-book, a ser publicado na próxima semana (para receber em primeira mão, cadastre-se na newsletter ao final do artigo), minha trajetória como investidor foi cheia de altos e baixos e tudo isso serviu de aprendizado para o que sou hoje.

Já faz uns doze ou treze anos. Tinha lido uns dois livros sobre investimentos e já era praticamente um Warren Buffett. Parecia ter descoberto a fórmula mágica para ficar rico e que tudo seria muito simples e fácil. Tinha caído naquele paradigma do quanto menos você sabe, mais certeza tem sobre aquele assunto.

Com o passar do tempo, os estudos, a prática e o debate com outros investidores, descobri que não era tão simples assim. O caminho era mais tortuoso e acidentado do que havia imaginado. Muita coisa que aprendi no início passou a não fazer tanto sentido e muito do que desconfiava passou a ter a importância revelada.

Resolvi escrever este artigo para mostrar um pouco dessa trajetória e como o aprendizado ajuda a termos resultados melhores. Também serve de alerta para não cometer os mesmos erros que cometi e colocá-lo mais à frente na progressão como investidor.

O início como investidor

Como já falei, essa fase de empolgação inicial pode ser muito prejudicial. Primeiro porque você não tem o conhecimento adequado e acaba colocando o seu dinheiro “na reta” sem ter a noção exata do risco.

Depois de ler o primeiro livro sobre ações transferi boa parte das minhas aplicações que estavam 100% em um fundo DI para a conta da corretora. Ao mesmo tempo eu acompanhava o ranking de fundos da Revista Exame que saía anualmente.

Na corretora fiz do básico ao “avançado”. Comprei ações das Blue-chips, que vinham em ascensão e os investimentos deram certo. Também comprei ações de empresas que nem conhecia muito bem, muitas vezes seguindo as dicas de outros. Era o próprio “Buy and pray”. Por sorte, o mercado até o começo de 2008 era uma tendência de alta absurda e mesmo fazendo muita coisa errada, o resultado mesmo com algumas perdas no geral foi positivo.

Neste meio tempo, os fundos de ações em que investia vinham também com ótima performance. Eu me guiava pelas estrelas dadas pela revista para escolher os fundos. Não acredito que havia algum outro critério na seleção, exceto a performance. Só que performance por si só não é um bom indicador, principalmente se estiver ligado a altíssimo risco.

Nessa época, eu já tinha noção de que operar alavancado era muito perigoso, o que me livrou de ter investido nos fundos da gestora GWI, cujos rendimentos estavam sempre entre os melhores. Por operarem ativos sem liquidez e alguns fundos serem alavancados, eles sofreram desvalorizações brutais na crise de 2008, quando até foram fechados para aplicações e resgates. Logo depois, em 2011, um fundo chegou a ficar com patrimônio negativo. Os cotistas perderam tudo e ainda tiveram que colocar dinheiro para tapar o buraco.

Investidor gráficoComo já expliquei no artigo como me comportei nas crises, não fiz muita besteira em todas as que aconteceram. Olha que foram várias! Os fundos e as ações detidas em 2008 por exemplo foram mantidos e ainda consegui aproveitar algumas oportunidades principalmente nos títulos do Tesouro. Com a recuperação nos anos seguintes, evitei realizar o prejuízo nos piores momentos.

O meio do caminho

Na virada da década, por volta de 2010/2011 eu já não tinha mais fundos tradicionais e comecei a investir mais por conta própria. Após estudar muito e usando sites de análise fundamentalista, selecionava as ações que fossem mais lucrativas e ia comprando mês a mês.

Já investia em fundos imobilários desde antes deles aparecerem no home-broker e nesse período começou um boom de novas ofertas. A possiblidade de investir em imóveis e receber renda mensal livre do imposto de renda, pareceu-me bem atrativa. Consegui participar das ofertas iniciais de fundos de grande sucesso como o Shopping D. Pedro e Anhanguera Educacional.

Só que investir totalmente por conta própria tem suas vantagens e desvantagens. Uma das desvantagens é que consome muito tempo. Primeiro que é preciso estudar bastante, particularmente se você não é da área financeira. Precisa ler as demonstrações financeiras, balanços, acompanhar os indicadores e múltiplos. Estudar o negócio da empresa, avaliar a gestão, etc. Não é tão simples como muitos tentam vender. Requer realmente bastante dedicação.

Mesmo os fundos imobiliários, que a princípio tendem a ser mais simples de avaliar, podem gerar uma grande dor de cabeça. O imóvel está lá e na maioria das vezes o inquilino também, então, de maneira simplicada, o administrador teria só o trabalho de receber e transferir o pagamento pros cotistas. Só que na prática, a teoria é outra. Inquilinos problemáticos que entram na justiça para reduzir o aluguel, imóveis vagos e sem perspectiva de locação, gestores mal intencionados, negligentes e omissos, etc.

Hoje, com o aumento desse mercado, alguns anos de história e o surgimento de novos gestores, já é possível ter um portfólio enxuto e de maior qualidade, mas não isento de dores de cabeça, principalmente no que se refere à governança.

O pensamento atual

Se por outro lado, durante todo esse tempo, a Bolsa brasileira  não evoluiu muito (temos praticamente o mesmo número de ações para investir que tínhamos em 2005), o mercado brasileiro de material de apoio e serviços para o investidor está bem mais desenvolvido.

Número de Ações na B3
Número de ações listadas na B3. Fonte B3 e Estadão

A evolução da internet e o engajamento de investidores, gestores e analistas têm proporcionado o surgimento de inúmeras ferramentas de auxílio aos investidores individuais. Existem, por exemplo, diversos sites mais sofisticados, com indicadores de análise fundamentalista bem estruturados e que ajudam você a avaliar as empresas de forma mais fácil. Mesmo os fóruns atualmente contam com discussões mais racionais do que descobrir qual é “mico” da vez.

Além disso, existem hoje diversas casas de análise que vendem relatórios dos mais diversos tipos para auxiliar na tomada de decisão, seja na escolha de ações, títulos de renda fixa ou FIIs. Eu, que por muito tempo não acreditava nesses relatórios, hoje vejo como uma ferramenta que vêm para somar em nossas decisões de investimento.

Antes de mais nada, julgo importante ter um bom conhecimento para saber do que os analistas estão falando, para entender os motivos que os levaram a escolher determinada ação e para analisar se aquele investimento é adequado a você.

Da mesma maneira com fundos. No começo eu só investia neles. Depois comecei a fazer tudo por conta própria. Agora vejo que é perfeitamente possível aliar as duas coisas. Como os analistas, os gestores de fundos também possuem mais tempo, mais conhecimento e mais ferramentas para escolher os melhores investimentos. É possível você escolher as blue-chips por conta própria e optar por um fundo de small caps, por exemplo, e se beneficiar de uma cobertura mais ampla do mercado.

Também existe uma complementaridade em poder investir em LCIs e CDBs por conta própria e diluir o risco de debêntures, que são ativos de baixa liquidez e maior risco, em um fundo específico. Enfim, invista por conta própria onde você tem mais conhecimento e facilidade de avaliação e “terceirize” onde você não domina ou conhece bem ou mesmo para ouvir uma segunda opinião.

Conclusão

Você deve se valer do máximo que for possível para realizar os melhores investimentos, seja com o uso de ferramentas para análise fundamentalista, filtros de ações, análises independentes ou mesmo selecionando alguns fundos específicos.

Nesse mercado, ficar tomando lado de um modelo ou de outro pode fazê-lo perder diversas oportunidades. Achar que conseguirá selecionar sozinho as melhores opções de investimento em ações, títulos, fundos, etc é pura ilusão. Mesmo os grandes gestores institucionais fazem uso de diversas ferramentas (os modelos quantitativos estão cada vez mais em alta)  e contam com uma segunda opinião. Até o maior deles, mudou várias ideias pré-concebidas quando conheceu Charlie Munger.

O importante é adquirir conhecimento, ter equilíbrio e adotar os materais mais adequados que o mercado tem a oferecer para melhorar a rentabilidade dos seus investimentos.

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Este post tem 8 comentários

  1. Investidor Internacional,

    Interessante a sua trajetória e por compartilhar aqui conosco o conhecimento alcançado, o que, sem dúvida, auxilia muitos investidores. Para mim, o PQDP11 é um dos melhores!

    “Mesmo os fundos imobiliários, que a princípio tendem a ser mais simples de avaliar, podem gerar uma grande dor de cabeça.”
    O caso MFII11 que o diga…
    Com a quantidade de fundos existentes atualmente, provavelmente esse não seja o 1º com problemas dessa ordem.
    Geralmente pensamos em FIIs como ativos com risco um pouco menores do que ações, mas acredito que o risco de suspensão de negociação não estava na mente de nenhum investidor – ou de poucos pelo menos.

    De qualquer forma, servirá com aprendizado.

    Boa semana,

    1. Investidor Internacional

      Olá Rosana,

      MFII11 não foi o primeiro e não será o último. Dos que eu tenho ou já tive, o Nossa Senhora de Lourdes, o Mercantil e o Edifício Galeria também tiveram momentos de estresse.

      Muita gente minimiza o risco e não leva em conta o risco do gestor, que pra mim é um dos mais importantes.

      Abçs!

  2. Artigo muito bom como sempre… como está a 13 anos no mercado, deve ter pego uma parte do bull da década passada (mesmo que em fundos)…

    Não sabia dessa exigência de investidor injetar dinheiro em fundo com patrimônio negativo… obrigado por compartilhar…

    Abraço,

    1. Investidor Internacional

      Olá Vida Rica,

      Eu desenvolvi esse conceito do seu texto no e-book “A pirâmide das finanças pessoais” e no próximo e-book que sai esta semana “A pirâmide dos investimentos”.

      Abçs!

  3. Olá Investidor Internacional,

    Constumo acompanhá-lo pelo twitter e gosto muito dos seus textos. E perceptível sua dedicação ao escrever, portanto parabéns por mais um excelente artigo.

    Aceitar os acertos e erros como parte de um processo de aprendizagem me parece a melhor forma de encarar a jornada de investimentos. A melhor forma de minimizar os erros é se preparar e estudar. Uma fonte de informação aliada a opiniões e comentários são exatamente blogs como o seu de quem realmente põe em pratica o que comenta.

    invistamuito.blogpot.com
    Meus investimentos do zero à 1 milhão

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