Como escolher as melhores ações

Melhores ações

Veja os critérios mais importantes na hora de escolher as melhores ações da sua carteira

Não é uma tarefa simples escolher as melhores ações. Depois que você estuda bastante sobre investimentos e decide investir nelas, surge a parte mais difícil antes de apertar o botão “comprar” no home-broker:

Em qual ação investir?

Se você procurar nos livros verá uma série interminável de indicadores, critérios e dicas que podem ser usados como guia nessa tarefa. Resolvi selecionar aqueles com eficiência comprovada (vou dar exemplos) e que julgo mais importantes para que você consiga tomar essa decisão de forma eficiente.

De maneira simplificada e usando alguns critérios eternizados por Warren Buffett e Charlie Munger, é possível dizer que uma boa ação é aquela de uma empresa bem administrada, lucrativa, com um negócio durável, negociando a preço justo ou abaixo dele.

Partindo desse princípio, vamos responder agora algumas questões antes de investir em sua próxima ação.



Que tipo de negócio?

A análise de uma ação começa ao avaliar que tipo de negócio a empresa possui e se esse negócio é sustentável daqui pra frente.

No passado, grandes empresas como Olivetti e Kodak foram a bancarrota justamente por estarem em linhas de negócios sem perspectivas. Foram substituídas por empresas de tecnologia mais avançada, ligadas a era digital. Mesmo antigas gigantes do mercado de PCs, como Dell  e Hewlett Packard foram jogadas a segundo plano com a revolução dos smartphones.

Por outro lado, negócios tão antigos como o de fraldas, sabonetes e papel higiênico devem permanecer ainda por muito tempo. São produtos consumidos tanto nas épocas de bonança, quanto nas crises e não se vislumbra nada (pelo menos até onde eu saiba) para substitui-los.

Hoje, com mudanças tecnológicas cada vez mais disruptivas, é importante avaliar a perenidade do negócio, caso não queira ver seu investimento naufragando no futuro.

Um exemplo de empresa atual que pegou em cheio uma mudança tecnológica foi a Nvidia e o resultado tem sido espetacular. Uma que ficou para trás e está tentando se recuperar é a IBM.

Quais os diferenciais competitivos?

Escolhido o negócio, é hora de avaliar as empresas. Qual delas está um passo à frente dos concorrentes? Qual possui a marca mais lembrada? Qual tem os melhores produtos?

A Apple estabeleceu o padrão dos smartphones há 11 anos com o iPhone. Sua marca é sinônimo de qualidade e beleza. Seus usuários não são apenas clientes, são fãs.

Mesmo que hoje, numa análise mais fria, seus produtos não tenham tanta superioridade frente à concorrência, ela consegue vendê-los a preço muito superior. Mesmo vendendo menos unidades, a Apple abocanha a maior fatia das receitas geradas pelas vendas de smartphones em todo o mundo. É disparada a maior margem do setor.

Outro exemplo é o Google. Quem hoje em dia se atreveria a criar um novo buscador de internet? Ninguém mais fala para procurar na internet, dizemos “Dá um Google”, não é mesmo? Acontece o mesmo com o Facebook, Netflix e Amazon. Mesmo o McDonald’s, que está num setor onde surge uma cadeia nova de fast-food por mês, possui seu diferencial. Em qualquer shopping que eu vá, a fila nele sempre é maior que a dos concorrentes.

Alguns fatores que ajudam você a identificar os diferenciais competitivos são a força da marca, consumidores leais e satisfeitos, ganho de mercado, custos e endividamento menores que o dos concorrentes, maior lucratividade, ganhos de escala e posição de domínio no mercado.



Gestão de qualidade

Só se constrói um grande negócio com uma grande equipe de gestão por trás. São aqueles administradores que cuidam do negócio com a mentalidade de dono, que sabem organizar a estrutura da empresa, que investem de maneira produtiva, que evitam disperdícios ou risco desnecessários e entregam resultados aos acionistas.

Como reconhecer essas qualidades? Vou dar alguns exemplos. A Netflix começou como um serviço de entrega de DVDs em casa. Com o avanço da velocidade da internet, a empresa foi paulatinamente transicionando para o serviço de streaming online. Foi o que alçou à empresa à glória e enterrou a Blockbuster, sua maior concorrente.

Não parou por aí. Os administradores da Netflix transformaram a empresa em uma produtora de filmes e séries, como forma de se diferenciar dos demais serviços e não ser apenas mais um canal passando os mesmos filmes dos outros. Grandes nomes de Hollywood foram contratados, incluindo roteiristas e produtores do mais alto calibre. O resultado são fãs e não clientes, pessoas que ficam alucinadas e não param de falar nisso. Talvez você seja uma delas. E isso não é demérito. As séries são mesmo excelentes.

A Amazon começou sendo uma loja online e agora é a maior empresa de computação em nuvem do mundo! Ela corresponde a uma fatia pequena da receita da empresa, mas em 2017 foi responsável por 100% do lucro. Só uma gestão brilhante conseguiria avaliar o mercado e inserir um serviço que pegasse uma nova onda tecnológica.

Mercado de nuvem
Mercado de computação em nuvem do mundo. Fonte: CNBC e Synergy

Finanças de qualidade

Aqui já partirmos para a avaliação dos números da companhia.

Em primeiro lugar, avalia-se a saúde financeira. Um dos modelos mais consagrados é o F-Score de Piotroski. Não precisa se assustar com o nome e nem com o cálculo. Alguns sites já calculam automaticamente. O modelo de Piotroski avalia 9 critérios para definir um resultado, que é o F-Score.

  1. Return on Assets (ROA) > 0
  2. Cash Flow Return of Assets (CFROA)
  3. Change in Return on Assets > 0
  4. Quality of Earnings (fluxo de caixa operacional/lucro líquido) > 1
  5. Change in Gearing or Leverage (evolução da dívida/total de ativos) < 0
  6. Change in Current Ratio (liquidez corrente) > 0
  7. Change in shares in issue (número de ações) < 0
  8. Change in Gross Margin (margem bruta) > 0
  9. Change in Asset Turnover (receita/ativos totais) > 0

A soma dos pontos ganhos em cada critério é o F-Score. Acima de 7 indica uma posição financeira confortável. Abaixo de 3 é uma situação de estresse. A Nvidia, por exemplo, tem F-Score perfeito de 9.

Em segundo lugar avalia-se a lucratividade e crescimento. Mais uma vez, a Nvidia é o exemplo (dados do site gurufocus.com):

  • Margem operacional: 36%
  • Margem líquida: 34%
  • ROE: 56%
  • ROA: 36%
  • ROIC: 214%
  • Crescimento anual da receita nos últimos 3 anos: 22%
  • Crescimento anual do EBITDA nos últimos 3 anos:44%
  • Crescimento anual do lucro por ação nos últimos 3 anos:62%

Empresas com margens baixas e lucro caindo, em geral, não são boas opções de investimento. Claro que há exceções, mas cada caso é um caso. É mais seguro para o investidor individual investir em empresas com boa lucratividade do que tentar encontrar um caso de turnaround.

Que preço pagar?

Infelizmente muita gente é ainda levada a crer que preço não importa. Gostaria de vender minhas ações da Ambev ON cotadas na bolsa hoje ao redor de 20 reais por 50. Será que quem não se importa com preço pagaria?

Voltando ao assunto. Definido qual empresa comprar, o passo seguinte é definir que preço você está disposto a pagar por ela.

Um dos cálculos mais usados para definir se uma empresa está cara ou barata é o Owner Earnings Yield, ou num português claro: porcentual de lucros do dono.

Esse número é definido pela divisão entre o Owner Earnings e o Enterprise Value.

Não perca o foco agora, isso é muito importante.

Como escolher as melhores ações
É importante analisar as demonstrações financeiras

O conceito de Owner Earnings basicamente é entender quanto do fluxo de caixa cai no bolso do dono. É o dinheiro que é possível retirar da empresa sem afetar a operação. É bem diferente do lucro líquido e do lucro por ação.

Para calculá-lo é assim:

Owner Earnings = Lucro reportado + Depreciação, depleção, amortização e custos sem efeito caixa – capex anual de manutenção (custo anual para manter as atividades da empresa) +/- mudanças no capital de trabalho (capex/custo de manutenção anual)

Esse conceito foi criado por ninguém menos que Warren Buffett em sua carta aos acionistas de 1986!

Enterprise Value ou valor da firma leva em conta o valor das ações, a dívida e custos fora do balanço. Seria o preço a se pagar para ter 100% da empresa de forma limpa.

Resumindo, você está vendo quanto vai receber de dinheiro anualmente (owner earnings) pelo preço total da companhia (enterprise value).

O resultado é um percentual, ou yield, da empresa. Aí você compara este valor com o ativo de renda fixa de menor risco do mercado. Pode ser uma T-Bill de curto prazo ou um Treasury de 2 anos.

No momento em que escrevo, o Treasury de 2 anos paga em torno de 2,6% ao ano. Então você avalia que tipo de retorno acima disso deseja ter. Se o yield da empresa for 10,4%, por exemplo, você estará recebendo 4 vezes mais que o ativo de menor risco, o que seria um ótimo negócio. Se fosse 3%, já não seria tanto assim.

Uma forma de refinar melhor esse cálculo é fazer uma projeção de crescimento dos números para cada um dos próximos anos. Se ele for bom, você pode até aceitar um yield menor agora que o crescimento nos próximos anos compensaria.

O fato é que você pode ajustar o valor de mercado da empresa para o Owner Earnings Yield desejado e determinar o preço que você pagaria nela e consequentemente na ação. Aí você compara esse resultado com o preço negociado em bolsa e vê se está abaixo ou acima. Se o valor em bolsa for igual ou menor, você compra. Se for maior, você senta, pede uma cerveja e espera cair. Quanto menor esse preço, maior a margem de segurança.

Quanto está o Earnings Yield da nossa estrela Nvidia? Hoje, em torno de 2,5%. Está abaixo do Treasury de 2 anos. Por outro lado, o nível de crescimento da empresa, como mostrado acima, é absurdo, o que leva o mercado a pagar mais caro hoje pela ação. Se a empresa não entregar o resultado esperado, você sabe o que acontece com a ação, correto?

E aqui vai um segredo. Nessa minha pesquisa, encontrei uma análise de 2012 que avaliava a Nvidia com um desconto de 20% em relação ao Owner Earnings Yield desejado. Quem comprou naquela época a ação por 13 dólares a viu subir até o valor atual na casa dos 250! Uma 19-bagger!



Conclusão

Ficou claro porque os investidores em valor gostam de crises e crashes? Eles determinam um preço a se pagar pela ação e aguardam o mercado sofrer uma convulsão que derrube os preços. Aí eles fazem a festa enquanto os outros se desesperam. Essa estratégia aumenta a margem de segurança, reduz os riscos e maximiza o potencial de retorno dos investimentos.

Bônus

Agora que você viu quando comprar, eu vou contar os fatores que levariam você a vender a ação:

  • Perda de confiança nos administradores
  • Valuation excessivo
  • Perda dos diferenciais competitivos (Oi, Cielo!)
  • Crescimento abaixo do esperado
  • Piora dos indicadores financeiros
  • Surgimento de oportunidades com maior margem de segurança

Para isso é necessário um acompanhamento periódico da ação visando detectar essas alterações de perspectiva.

Agora veja isso. Encontrei a história de um outro investidor que havia comprado ações da Netflix e vendido com ganho expressivo em … 2012! A ação havia subido bem e começou a cair. Para realizar o lucro antes que caísse mais, ele resolveu vender. A decisão o impediu de lucrar 50 mil dólares extras se tivesse segurado a ação até 2018.

Não basta saber escolher as melhores ações. É preciso também saber vender. Nunca se apegue a uma ação cujos critérios mudaram, nem se livre de boas empresas por alteração na cotação. Seu bolso agradece!


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Este post tem 20 comentários

  1. Para avaliação de preço das ações, o que vc acha da estratégia de estabelecer objetivos percentuais para diferentes ativos e ir comprando aos poucos sempre o que está mais para trás ? Dessa forma, no longo prazo, também compraríamos mais o que estivesse mais barato né?

    A parte mais difícil que acho para se chegar no preço de uma ação é estimar o crescimento da empresa. Como saber se uma ação está cara ou se a perspectiva de crescimento justifica aquele preço? É muito subjetivo né…. acaba tendo um pouquinho de aposta tb né (uns apostam que a empresa vai crescer mais e outros menos).

    1. Investidor Internacional

      Olá Fernando,

      Existem modelos matemáticos que ajudam nessa avaliação do crescimento futuro.

      Não é aposta não, mas claro que se a empresa não entregar o resultado esperado, ela cai. Por outro lado, se surpreender positivamente, ela dispara.

      Estabelecer percentuais para ações faz parte do processo de alocação, mas eu não recomendaria SEMPRE comprar o que está mais pra trás. A não ser que seja uma empresa de valor e o resto da carteira de crescimento. Depende de outros fatores também.

      Abçs!

  2. Excelente post bem completo.

    Com boas maneiras de escolher excelentes ações, a preços com uma boa margem de segurança, para as segurar durante muitos anos.

    Abraço e bons investimentos.

  3. Olá investidor internacional. Seu site é fantástico, e bastante inspirador. No meu caso, eu não tenho tempo nem habilidade para fazer todos esses cálculos, e você citou que existem sites que fazem essas análises. Por acaso poderia citar algum ou alguns? Gostaria de investir seguindo esse raciocínio, porém seria muito trabalhoso fazer tanta conta para tantas empresas. Grato

    1. Investidor Internacional

      Olá Gilson,

      Sim, é bastante trabalhoso fazer essas análises.

      Irei mandar um e-mail para todos os leitores que assinam a newsletter e mostrar como eu pretendo ajudar nisso.

      Abçs!

      1. poderia mandar para mim? Estou chegando no seu site agora. Muito bom!
        Já tinha visto esse conceito em um livro sobre Buffett, mas não consegui aplicar. Se possível, gostaria de uma ajuda prática para isso.
        Manda para o meu email o material por favor: [email protected]
        Muito bom o material, parabéns!

  4. copiando comentário:
    Olá investidor internacional. Seu site é fantástico, e bastante inspirador. No meu caso, eu não tenho tempo nem habilidade para fazer todos esses cálculos, e você citou que existem sites que fazem essas análises. Por acaso poderia citar algum ou alguns? Gostaria de investir seguindo esse raciocínio, porém seria muito trabalhoso fazer tanta conta para tantas empresas. Grato

    também gostaria de saber isso.
    obrigada

      1. Olá, Fiz o questionamento acima e não recebi. E sou assinante da newsletter. Poderia me enviar.

        Grato,

        Gilson Carone Neto

  5. Lupa
    Tenho intenção de comprar ações da Foxconn, Hon Hai Precision Industry Co. Ltd, código HNHPF, fui informado que o Saxo Bank da Dinamarca deve operar com essas ações.
    Além disso outras corretoras americana também devem operar com essas ações.
    Vocês tem condições de me informar como confirmar essas informações e eventualmente abrir uma conta numa dessas corretoras?

    1. Investidor Internacional

      Oi LUPA,

      Falei no Saxo Bank e não é possível investir diretamente na ação em Taiwan, mas é possível comprar o GDR dela na bolsa de Londres.

      Abçs!

  6. Olá II.
    Gostaria de investir em ETF do Canadá.
    Poderia me indicar uma corretora?

  7. Bom dia, existe algum site parecido com o fundamentus, para análise das empresas nos USA.

    1. Investidor Internacional

      Olá Celso,

      Você pode encontrar essas informações no Yaho! Finance, Thomson Reuters, Morningstar e Gurufocus.

      Abçs!

  8. Obrigado.

  9. Olá, bom dia!
    Não sei nada sobre ações, mercado de investimentos, bolsa de valores, etc…
    Porém gostaria de dar meu primeiro passo, e estou interessado nas ações da FOXCONN.
    Você poderia me ajudar como posso efetuar essa compra? Por onde começo, etc

    1. Investidor Internacional

      Olá Marcel,

      As ações da Foxconn (Hon Hai Precision) são negociadas em Taiwan e em Londres. Nos EUA, está disponível apenas no mercado OTC (fora das bolsas).

      Abçs!

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