O investidor de retrovisor

Investidor de retrovisor

Ver os números de uma empresa é o suficiente para investir nela?

Se você é ou pretende se tornar um investidor em ações, este é um dos artigos mais importantes que você lerá aqui. Dominar o que eu irei demonstrar aqui é o que separa os homens dos meninos na ciência (ou seria arte?) do stock picking.

O artigo de hoje é pra mostrar que muitas pessoas (e eu já fui uma) esquecem de analisar talvez o fator mais importante na escolha de uma ação, as perspectivas futuras da empresa.

O que eu mais tenho visto, principalmente numa era de análise de empresas pelo YouTube, é que só se fala nos números do passado e pouco se pensa no futuro da empresa.

Então vemos muitas menções a evolução dos lucros, da receita, ao ROE, às margens, etc e nada se comenta sobre projetos futuros da empresa, ou qual o diferencial dela em relação aos concorrentes, ou sobre a fidelização dos seus clientes, etc.

Isso é algo que já tenho colocado nas avaliações das empresas selecionadas para os assinantes do Passaporte Internacional. Uma das empresas, por exemplo, tem um projeto industrial grande e moderno a ficar pronto em 2020 e que aumentará sua produção. Outra empresa tem um serviço que é praticamente único no mundo e possui uma taxa de renovação de clientes na casa dos 98%.

Ficar olhando apenas balanços passados não é suficiente para se tornar um investidor em ações. Existem coisas que não aparecem neles. Claro que ver o que a empresa já fez, sua evolução no tempo e sua situação atual são importantes, mas não se pode fazer como a moça da foto no alto do artigo, focar apenas no retrovisor e esquecer de olhar para frente.

Dar a devida importância para o futuro da empresa é algo que parece óbvio agora, mas pra mim isso só ficou claro há alguns anos quando eu me deparei com as primeiras ferramentas de screening.

Essas ferramentas nada mais são do que filtros, onde você seleciona uma série de critérios e o sistema escolhe as ações que preenchem esses critérios.

Por exemplo, posso colocar no filtro que desejo empresas com ROE acima de 30%, margem líquida acima de 20%, dividend yield acima de 8% e que esteja sendo negociada a um preço/lucro menor que 10.  Parece mentira, mas em um universo de ações grande como o norte-americano, encontrei 6 ações que preenchem esses critérios hoje.

Você pode estar pensando “Ah, então é só aplicar um pouco em cada uma e esperar alguns anos para ficar rico.” Errado. Cansei de ver portfolios com critérios puramente baseados em balanços não gerarem nenhum tipo de alfa em relação aos índices de mercado, ou até mesmo naufragarem.

Vou mostrar agora um exemplo real que acredito acontecer com muita gente.

Um exemplo daqui do Brasil

Para exemplificar isso que estou falando, vou usar uma análise em vídeo que foi publicada em maio de 2017 sobre uma determinada empresa da bolsa brasileira.

A análise era referente ao fechamento do balanço de 2016, mas usava os balanços de anos anteriores para mostrar a evolução da companhia.

O vídeo começava mostrando uma geral sobre a empresa, que oferecia (e oferece) serviços de meios de pagamento.

A planilha de referência mostrava que o resultado bruto, o EBITDA e o lucro líquido haviam crescido, as margens e o ROE estavam caindo, mas ainda estavam altos, em níveis bem aceitáveis para o setor. O resultado financeiro estava vindo muito bem.

A empresa tinha feito muita dívida em 2015, mas os resultados dos investimentos já apareciam. O Fluxo de Caixa Livre estava sobrando no campo positivo e a dívida já havia sido parcialmente amortizada.

Nesse momento, a concorrência não era vista como problema. Afinal de contas, que empresa não tem concorrentes, não é mesmo? Também dizia que mesmo as boas empresas passam por pequenas turbulências e que elas sempre acabariam se recuperando.

Em setembro de 2018, um vídeo de outro canal mostrava uma análise mais atualizada da mesma empresa.

Era uma análise bem rápida, que dizia assim: “Patrimônio, receita e lucro estáveis. 6 bilhões em caixa. Dívida equilibrada. Fluxo de caixa livre de 4 bilhões.”

Na conclusão do vídeo era dito que uma empresa com tanto lucro e patrimônio não iria quebrar no dia seguinte e que não tinha cabimento acreditar que as pessoas iriam parar de usar cartões de crédito e débito.

Nessa altura do texto, você já deve ter percebido que a empresa em questão é a Cielo e o gráfico abaixo mostra em que momento os vídeos foram publicados e onde o preço da ação estava:

Cielo

Nada contra quem produziu os vídeos. Tenho enorme respeito por eles e acho que contribuem enormemente para a educação financeira de muitos brasileiros, mas vamos ver como vieram os resultados referentes a 2018, que foram publicados no final de janeiro último.

Em resumo, o lucro líquido e o EBITDA caíram abaixo do obtido em 2015, a receita líquida veio inferior a 2016, as margens e o ROE seguem em queda.

Mas o pior de tudo é o guidance para 2019. A empresa projeta lucro líquido entre entre 2,3 e 2,6 bilhões de reais. O mesmo lucro que atingiu um pico de 4,2 bilhões em 2017.

Onde foi que as análises erraram?

Justamente por focar apenas nos balanços, esqueceram de notar a transformação que o setor de meios de pagamento estava passando.

Até 2010, apenas as maquininhas da Visanet (antigo nome da Cielo) aceitavam cartões com a bandeira Visa, enquanto a bandeira Mastercard era exclusividade das maquininhas da Redecard (que fechou o capital e hoje se chama apenas Rede). Essa reserva de mercado era muito rentável para ambas empresas e péssima para os comerciantes.

Foi quando o Banco Central entrou em cena e acabou com essa exclusividade.

Nessa hora temos que lembrar de Warren Buffett:

“Nos negócios, procuro castelos econômicos protegidos por ‘fossos’ inacessíveis. Estamos tentando descobrir o que está os mantendo – por que esse castelo ainda está de pé? E o que vai mantê-lo em pé ou fazer com que ele não fique de pé 5, 10, 20 anos a partir de agora. Quais são os fatores-chave? E como são permanentes? Quanto eles dependem do gênio do senhor no castelo?”

O fosso que protegia Cielo e Redecard havia sido destruído e era questão de tempo para o castelo que abrigava margens líquidas de quase 50% ser saqueado.

O processo para que todas as maquininhas pudessem aceitar todos os tipos de cartão foi encerrado em março de 2017. Entretanto, muito antes dessa data, já se notava o aparecimento de novos concorrentes.

A Getnet, que começou no Rio Grande do Sul e mais tarde foi vendida ao Santander, acredito que tenha sido a primeira a concorrer nesse mercado. Logo depois vieram Stone, Pagseguro, SafraPay, entre outros.

Se há 5-6 anos só encontrávamos 2 tipos de máquinas nos estabelecimentos comerciais, nestes últimos 1-2 anos, a variedade tem sido enorme. Como diria Peter Lynch, era algo que qualquer pessoa percebia no seu dia-dia.

Para quem realmente pesquisou a fundo e conversou com comerciantes, não foi muito difícil perceber também que a Cielo era a maquininha mais cara de se ter e oferecia um atendimento ruim. As empresas mais novas e recém-capitalizadas entraram com tudo, oferecendo preços menores e atendimento melhor.

Só que esse tipo de acontecimento só se refletiu no resultado mesmo ao final de 2018 e virá com muito mais força em 2019. A Cielo precisou entregar os anéis para preservar os dedos. Teve que repensar a estratégia e abaixar preços. Pro comerciante hoje, tanto faz a marca da maquininha, desde que cobre pouco. Para quem não tem contato com comércio, saiba que o custo com esses meios de pagamento são bem relevantes e qualquer economia ajuda.

Quem ficou esperando o resultado piorar para sair da posição viu a ação despencar de 27 para 10 reais. A ação precisará triplicar para o investidor voltar para o campo positivo.

Eu particularmente comprava as ações da Cielo desde antes de 2013. Precifiquei mal e cheguei a pagar 32 reais (valor não ajustado), mas saí na casa de 20 reais no fim de 2017 quando vi que a situação ia piorar.

Então é pra ficar longe de Cielo agora?

Agora é outra história. O mercado anteviu o naufrágio e espancou a ação, que bateu 9 reais ao final de 2018 e chegou a 10 reais agora. Muito da queda dos lucros já está precificada. Resta saber quanto ainda custará para a empresa defender seu market share de 45%.

É o tipo de cálculo que deve ser feito novamente. Se levarmos em conta o valor de mercado atual que é de 28 bilhões e o guidance de 2019 com lucro entre 2,3 e 2,6 bilhões de reais, temos um P/L projetado para 2019 entre 10,7 e 12,1, o que não é ruim.

A questão é saber se os lucros continuarão caindo em 2020 ou se estabilizarão. Se mantiver pelo menos o guidance de 2019 em 2020, é muito provável que a ação suba. Se não mantiver, o pesadelo dos acionistas continuará.

O fato é que o “fosso competitivo” da Cielo foi destruído e o setor como um todo ficará saturado e tenderá a ter margens cada vez menores, o que não o torna tão atrativo. Para entender as maravilhas do lado oposto a isso, eu sugiro a leitura do artigo Investindo em oligopólios.

Conclusão

Ler os balanços das empresas é importante, mas não se torne um investidor de retrovisor. Apenas sabendo as perspectivas futuras da empresa é que você conseguirá distinguir a diferença entre preço (cotação da ação à mercado) e valor (quanto a empresa é capaz de gerar para você futuramente).

Se você compra uma ação a qualquer preço e as perspectivas de retorno e os resultados caem, a ação desvaloriza. Claro, existem empresas capazes de reverter a situação, por isso estudar cada caso é essencial.

Portanto, olho no futuro. É de lá que virão os retornos dos seus investimentos.

 

 

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Este post tem 26 comentários

  1. Avatar

    Ótimo artigo!!!!

  2. Avatar

    As verdades mais perigosas são aquelas que acreditamos ser corretas.

  3. Avatar

    Bom dia sr. Raphael Monteiro…
    Muito obrigado pela sua visao e capacidade de sintese…
    Mais uma vez, o seu artigo, revela se de grande nivel, e sem duvida, cada vez mais se transforma num forte pendor na minha avaliacao de investimentos…
    Cumprimentos…

  4. Avatar

    Excelente análise,
    O preço atual pode ser uma oportunidaxe de compra, mas com cautela e sem uma exposição exagerada.

  5. Avatar

    Raphael, bom dia !!!

    Excelente artigo !!!

    Um forte Abraço

  6. Avatar

    Tudo o que relatou é pura realidade, porem essa análise do futuro a maior parte das vezes é pouco clara e assertiva ou na maioria das vezes, digamos, é apenas intuitiva ( o próprio Warren Buffet errou ao não assumir a fundo sua premissa e não precificar que o fosso da Heinz-Kraft tambem não era tão grande assim). Vivemos em uma época que a dinamica empresarial e profissional é tão gigantesca que tudo que parece bom hoje ano que vem poderá apresentar uma inversão de lógica total. Abs II.

    1. Raphael Monteiro

      Olá Marcos,

      Exatamente. Lembrou bem. Até o Buffett erra. Foi assim com a Kraft e com a IBM, que eu me lembre.

      É até assunto para um artigo.

      Abçs!

  7. Avatar

    Gostei muito do seu artigo. Muitas das recomendações dadas hoje para o investimento em certas ações olha muito para quanto uma empresa valorizou ao longo de X anos, e não foca no futuro, projeção ou no guidance. Eu invisto atualmente em empresas que acredito terem planos concretos de crescimento no futuro. É bom refletir sobre os aspectos futuros de uma empresa para não ser pego ‘de calças curtas’. Obrigado por compartilhar.

  8. Avatar

    Muito boa reflexão ! Você poderia complementar com algumas dicas de como analisar as perspectivas das empresas nos curto e médio prazo.

    1. Raphael Monteiro

      Olá Efrain,

      A análise de empresa é algo bem individual. Cada situação é única.

      Abçs!

  9. Avatar

    Analisar o futuro da empresa é complicado. Falar com os comerciantes do seu bairro é mais complicado ainda. É uma amostragem mínima sobre o todo. Na minha opinião, para o investidor médio, tentar adivinhar o futuro é como ganhar na mega sena. É um achismo que você não tem como comprovar. De 100 análises de empresas futuras que for fazer, 50% você errará. E esses 50% que você acertou não quer dizer absolutamente nada. Você só tirou as conclusões da Cielo porque agora o tempo passou e fica mais fácil compreender o que aconteceu. Mas se daqui a 5 anos a Cielo mudar a sua forma de trabalhar e voltar a crescer, a sua análise de hoje estará totalmente errada. E ela pode ou não ter a solução “mágica” nesse momento e ninguém tá sabendo ainda. Ou seja, imprevisível demais. Para investidor médio é praticamente impossível adivinhar.

    Continuo acompanhando seu site para ver ideias contrárias as minhas. Não estou criticando nem nada. Só dando minha opinião. Abraços.

    1. Raphael Monteiro

      Olá Carlos,

      Não era imprevisível não. Eu tinha chegado a pagar 32 reais (não ajustados) na ação da Cielo. Tinha posição desde 2012. Saí ao final de 2017 pelos motivos acima.

      Saí de Ambev também, metade no início de 2018 e metade (essa no prejuízo) na época das eleições. Saí de Raiadrograsil no começo de 2018 a 79 reais.

      Não é tão imprevisível. É saber a diferença entre preço e valor. É difícil sim e as premissas precisam de tempos em tempos serem revistas.

      Basicamente este é o trabalho do analista fundamentalista.

      Procure o trabalho de analistas que operam vendido. Eles procuram identificar essas empresas que o mercado elevou demais.

      Abçs!

  10. Avatar

    Ninguém tem bola de cristal mas alguns tem mais perseverança, conhecimento e paciencia que outros para esperar os frutos. Buffett errou em alguns casos, como qualquer outro pode errar mas sabe esperar e agir.
    Aí entra os estudos do Taleb, O Cisne Negro e o Antifrágil, que em resumo “muito muito simplista”, indica que devemos diversificar nossos investimentos, buscando empresas que não são sensíveis à governos, políticas, etc, como você mesmo já expôs Raphael.
    Mais um belo artigo.

  11. Avatar

    Parabéns pelo ótimo artigo!!!

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