destaque besteiras investimentos

É preciso tomar cuidado para não cair em armadilhas

Investir não é tão simples quanto parece quando se deseja sair do convencional e buscar maiores retornos no mercado de ações. Entretanto, existem dois pilares principais que devem servir de sustentação para a sua caminhada na bolsa de valores, a teoria e a prática.

É na teoria que você irá adquirir o conhecimento necessário para entender como as ações e os demais investimentos funcionam e como organizá-los em um portfólio que atenda suas necessidades.

É na prática que você irá sentir na pele (ou no bolso) se realmente você está conseguindo validar aquilo que aprendeu. É muito fácil ler “compre na baixa e venda na alta”, mas só vivenciando circuit breakers e uma queda de 40 ou 50% no seu patrimônio é que você será colocado à prova.

Portanto, se você não tem uma teoria bem embasada, você poderá passar por interpretações equivocadas, quando estiver com o próprio dinheiro enfrentando o sobe e desce do mercado de ações.

Reuni 7 ensinamentos completamente equivocados e que não fazem o menor sentido. Entretanto, dada a quantidade de vezes em que os vi sendo repetidos, achei por bem alertá-lo para eles. Principalmente para quem está começando, eles podem fazê-lo aplicar em investimentos ruins e evitar investimentos bons.

Bom, vamos a eles:

1-Comprar a ação de uma empresa porque as pessoas nunca irão deixar de consumir o produto dela

Não consigo lembrar exatamente o número, mas já li isso dezenas (talvez centenas) de vezes. Aplica-se a uma infinidade de ações:

Vou comprar Ambev, porque as pessoas não pararão de beber cerveja

Vou comprar Cielo, porque as pessoas não deixarão de usar cartões de crédito

Não é porque o setor em que aquela companhia é perene, que aquela ação será um bom investimento.

Já expliquei a questão da Cielo no artigo “O investidor de retrovisor”. Leia caso não tenha feito.

Mas existem outros exemplos. Aposto que você tem televisão em casa, não tem? Como você, pessoas do mundo todo compram televisores para assistir filmes, esportes, etc.

Uma das fabricantes mais tradicionais de TVs é a Sharp. Eu mesmo já tive uma TV da Sharp em casa. Agora veja o comportamento das ações da Sharp nos últimos 17 anos na Bolsa de Tóquio:

Gráfico da Sharp
Gráfico das ações da Sharp na Bolsa de Tóquio

Ter comprado as ações da Sharp foi um péssimo investimento, mesmo com as pessoas continuando a comprar este equipamento e o trocando de tempos em tempos por modelos mais novos.

Portanto, não só identifique setores perenes, mas também as melhores companhias que irão se beneficiar dele.

2-Não aplicar em fundos de ações por causa da taxa de administração

Essa questão é repetida muitas vezes e eu cheguei a cair nela por um tempo. Como já mostrei em artigo anterior, no começo eu só investia através de fundos, depois mesclei os dois, depois fiquei apenas com ações e agora tenho ambos novamente.

Acredito que essa combinação faça sentido dentro de uma carteira diversificada de investimentos.

Primeiro que é impossível para um investidor comum analisar uma gama muito grande de ações. Também pelo fato de, em geral, quem não tem muito tempo e um conhecimento avançado sobre contabilidade, mercado e perspectivas de cada empresa, acaba optando por investir em Blue-chips, que são ações de empresas maiores, mais estáveis, com histórico mais longo, lucratividade mais constante, etc.

O fato é que as maiores assimetrias entre preço e valor encontram-se nas ações small e microcaps, que são mais difíceis de analisar. São empresas com histórico mais conturbado, gestão menos transparente, que podem estar passando por algum tipo de problema, etc. São ações que do ponto de vista puramente dos balanços são assustadoras, mas que podem estar em um ponto de virada e ofecerer grandes lucros para quem identificar esses movimentos. Existem fundos de ações geridos por profissionais especialistas neste tipo de empresa difícil de analisar e eles podem ser um complemento ideal para o investidor pessoa física.

Além disso, existem gestores muito bons no mercado, capazes de encontrar as ações com maior potencial de crescimento, independentemente do tamanho da empresa. O Dynamo Cougar é um exemplo de fundo que no longo prazo tem superado o índice Bovespa por uma margem substancial e tem feito a alegria dos investidores que tem pagado os 2% de taxa de administração e os 15% de taxa de performance.

Dynamo Cougar
Gráfico do fundo Dynamo Cougar (azul claro) vs Ibovespa (preto)

São inúmeros os exemplos de fundos com bom desempenho no Brasil. Achar que eles não têm espaço em um portfólio de investimentos é desdenhar de gestores com amplo know-how e que têm tido excelentes resultados por anos a fio.

3-Usar um gráfico passado de alguma ação específica para provar um ponto

Vejo esse tipo de exemplo com uma certa frequência. Por exemplo, alguém para provar que investir em ações é melhor do que investir em renda fixa, pega o desempenho das ações do Itaú, da Weg e de alguma outra ação que tenha tido um desempenho fantástico no longo prazo para mostrar a superioridade das ações.

Também já vi esta justificativa ser usada da seguinte forma. Determinada ação está tendo um desempenho ruim nos últimos 2 ou 3 anos e alguém dá o exemplo da ação da Coca-Cola que ficou uns 10 anos estagnada e depois subiu absurdamente.

No primeiro exemplo é óbvio o viés de escolher o vencedor e extrapolar para toda a classe de investimentos como se tudo tivesse se valorizado com a mesma intensidade. Engraçado que, para defender o investimento em ações, não vejo ninguém usando o caso das empresas do Grupo X de Eike Batista.

No segundo exemplo, trata-se de uma comparação totalmente infundada. Cada empresa é única e possui o seu próprio caminho, seja em seu próprio negócio ou no mercado acionário. Achar que a sua ação estagnada irá valorizar porque uma outra empresa de um outro setor em um outro país em uma outra época ficou estagnada e depois valorizou é realmente querer acreditar em forças paranormais.

4-Ação de empresa sem lucro não serve para investir

Tem muita gente que parte do princípio que apenas empresas que dão lucro são bons investimentos e nem chegam a analisar empresas que apresentam prejuízo. Entretanto, existe muito valor além do lucro contábil e cada empresa deve ser avaliada em seu conjunto.

Dois casos recentes no Brasil foram a Oi e a Inepar. A Oi estava colecionando prejuízos e um processo de recuperação judicial que se arrastava desde 2016. É uma empresa com uma grande quantidade de ativos, mas que estava sendo muito mal administrada. Com o novo CEO e a aprovação do novo projeto de recuperação judicial, criou-se a perspectiva da empresa voltar aos trilhos e isso se relfetiu no preço da ação, que já sobe cerca de 50% até aqui durante o ano de 2019.

A Inepar também estava apresentando uma série de prejuízos e nem mesmo divulgava os resultados nas datas corretoras. Também atrasava o pagamento de dividendos. Era uma bagunça. Quem estudou a empresa a fundo, descobriu que ela tinha patrimônio líquido de uns 2 bilhões de reais, mas estava sendo negociada em bolsa na casa de 50 milhões. Quando a recuperação judicial foi aprovada em fevereiro e alguns litígios que reverteram valor para a empresa foram definidos, a ação disparou e chegou a triplicar em poucos dias e depois corrigiu parcialmente.

inepar
Variação de preço da ação da Inepar em 2019

A própria Amazon chegou a ter prejuízo de 52 centavos por ação em 2014 e depois viu a ação multiplicar por 6 até os dias atuais. Sem falar nas small e microcaps de biotecnologia cujo valor está muito mais no seu pipeline de produtos do que em seu demonstrativo de resultados. Os próprios assinantes do Passaporte Internacional estão por dentro de uma companhia cuja ação disparou em março em virtude de excelentes resultados divulgados. E dentro desses excelentes resultados está um prejuízo líquido.

Portanto, muitas ações de empresas com prejuízo podem ser sim grandes investimentos.

5-Ignorar a cotação da ação

É preciso entender de uma vez por todas que a ação corresponde a uma fração de uma empresa. É preciso entender o funcionamento da empresa, o mercado em que ela atua, os resultados que ela tem apresentado e a expectativa futura.

Dado tudo que a empresa possui e planeja desenvolver, você precisa saber quanto aquela empresa vale ou quanto cada ação dela vale. Se o preço negociado no mercado for menor que o valor justo que você calcular, indica que a ação está subavaliada (então você compra) e se o preço negociado for maior, ela está sobreavaliada (você não compra ou então opera vendido).

Quando mais o mercado estiver subavaliando determinada ação, maior a margem de segurança para investir nela. É o princípio básico de valuation.

Comprar ação a qualquer preço é suícidio. Um exemplo extremo é dos investidores que adquiriram ações à época da bolha da NASDAQ. Muitas ações jamais chegaram de volta ao valor em que foram negociadas 19 anos atrás.

6-Comprar ação para sempre

Esse é um dos mantras de Warren Buffett repetidos inconsequentemente por muitos. A frase original dele é:

“Our favorite holding period is forever.” – Warren Buffett

Ou seja, nosso tempo preferido de permanecer com uma ação é para sempre.

Claro que não podemos seguir essa frase ao pé da letra. Nem ele mantém as ações para sempre. O que ele quer dizer é que se você conseguir avaliar uma empresa a fundo e chegar a conclusão que ela possui diferenciais competitivos fortes, é lucrativa, possui grandes perspectivas, etc, manter aquela ação por bastante tempo deve provavelmente ser lucrativo.

Na prática, não basta apenas identificar uma ação e pagar o preço certo por ela. É preciso acompanhar e ver se a sua avaliação estava correta, se a empresa está realmente entregando os resultados esperados, se ela está ganhando mercado, lançando novos produtos de sucesso, etc. É algo que requer reavaliações periódicas.

O ideal é comprar e manter uma ação pelo maior tempo possível, desde que a tese de investimento naquela ação continue valendo.

Conclusão

Antes de investir, procure fontes de informação confiáveis e aprenda com os maiores gestores e analistas que encontrar. Principalmente para quem está começando, prender-se a informações mal embasadas pode ser bastante prejudicial.

Se é preciso teoria e prática para ter sucesso nos investimentos, saiba que uma teoria ruim colocada em prática não trará os resultados que você espera.

 

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Este post tem 8 comentários

  1. Avatar

    De fato o tópico 2 é bem importante para formar qq cateira, Raphael. Minha trajetória é idêntica a sua, comecei com fundos, larguei e agora pretendo voltar.

    Temos excelentes gestores e é totalmente possível alocar capital com eles. Super competentes. Temos alguns poucos, mas o Cougar realmente é excelente.

    Estou procurando tb colocar um fundo QUANT na minha carteira.

    1. Raphael Monteiro

      Olá YNVEST,

      Exatamente, existem muitos fundos que cobram taxas, mas entregram ótimos resultados.

      Abçs!

  2. Avatar

    Raphael,

    Muito bom o seu post.
    O tópico 6 pode tornar-se perigoso, pois tudo muda com muita velocidade. Imagine se quem investiu na Kodak pensasse assim. Foi uma grande empresa, a maior do seu setor por um grande tempo, mas o que ocorreu depois ilustra bem que é necessário muita atenção para saber por quanto tempo vale a pena manter uma ação. É o que penso.

    Boa semana,

    1. Raphael Monteiro

      Olá Rosana,

      Pior que eu li recentemente pessoas comentando que preferem ver a empresa falir do que vender a ação.

      Realmente não entendo esse medo todo de vender.

      Abçs!

  3. Avatar

    “Comprar ação a qualquer preço é suícidio.”
    Espere os cultistas do Blastter chegarem aqui com chavões de efeito.

  4. Avatar

    Investidor, tudo bem?

    Excelente artigo. Fiquei com 2 duvidas aqui.

    1) Voce falou de investir em fundos de ações.
    Vamos falar de FII? Eu por exemplo queria investir em 3 FII do Brasil.
    O fii A tinha taxa de Adm de 0.15% ao ano, o fii B tinha taxa de 0.95% ao ano e o fii C tinha taxa de 1.25% ao ano.
    Acabei optando somente por 2 FIIs (o A e o B, pois somados eu teria uma taxa de 1.1% para 2 FIIs, sendo que só o C ja tinha uma taxa maior que os outros 2 somados).

    Eu fiz isso pois li em varios lugares que o excesso de taxas prejudica os ganhos do juros composto no longo prazo. Por exemplo 3% ao ano parece pouco. Mas no longo prazo isso come os ganhos.
    Portanto, se eu tivesse comprado os 3 Fii, somando as taxas de Adm dos 3 Fiis eu teria um total de quase 2.4% ao ano em taxas.
    Queria saber se esse pensamento faz sentido ou nao. Ou se taxas nao tem que ser vistas desse modo. Meu objetivo foi minimizar as taxas.

    2) A pergunta pode parecer besta….mas quando compramos uma ação nos EUA, onde fica ”armazenada” essa ação? Por exemplo, se minha corretora quebrar, eu perco a ação e o dinheiro que investi?
    (Sei que minha corretora tem uma cobertura de proteção em até 250mil dolares em caso de quebra da corretora).

    1. Raphael Monteiro

      Olá Alexandre,

      Obrigado por comentar.

      O que vale é a qualidade do fundo e não a taxa de administração. Todos os fundos divulgam resultados já líquidos de taxas. É preciso avaliar se no longo prazo o fundo gera alfa (ou retorno acima do benchmark).

      Só pra ilustrar: 10 anos atrás eu comprei 2 FIIs de shoppings. Um era o West Plaza. Acabei vendendo com um pequeno prejuízo, mas recebi os dividendos. O outro é o Shopping D. Pedro, que já rende mais de 200% fora os dividendos.

      O que fez a diferença neste e em muitos casos, a qualidade do ativo ou a taxa de administração?

      A sua conta a respeito das taxas de administração está equivocada. Não dá esse resultado de 2,4%.

      As suas ações ficam registradas nos grandes bancos custodiantes, BNY Mellon, State Street, JP Morgan, Citigoup, entre outros. Não tem porque se preocupar com isso.

      Abçs!

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