Qual o investimento mais seguro?

Investimento mais seguro

Uma pergunta, diversas possibilidades

Quem nunca se deparou com a pergunta do título que atire a primeira pedra. Do investidor mais iniciante ao mais experiente, todo mundo já parou alguma vez na vida para se perguntar isso. E por mais que seja uma pergunta simples, em geral, necessitando de apenas uma resposta direta, como “o investimento mais seguro é tal”, ela dá margem a indagações mais amplas e complexas a respeito do que é investir com segurança.

Portanto, muito mais do que falar qual exatamente é o investimento mais seguro, vou falar também sobre como investir de forma segura. Assim, existem três questões fundamentais a serem definidas quanto à segurança dos investimentos, aquela que trata do investimento de maneira individual, aquela que trata da composição de uma carteira de investimentos e aquela que trata do seu conhecimento sobre investimentos.

O que é risco?

Uma maneira de descobrir o investimento mais seguro ou de investir com segurança é entendendo o conceito de risco. Entretanto, existem diversas interpretações para ele.

De maneira geral, risco está relacionado à incerteza de retorno em determinado investimento ou, mais especificamente, na chance de perda. Desta forma, um investimento é mais arriscado quando maior for a possibilidade de prejuízo.

Por outro lado, academicamente, define-se risco como a volatilidade de preço dos investimentos. Essa definição aborda a questão da incerteza, mas ignora que um ativo poder se valorizar mais do que o esperado não seja exatamente um risco ruim.

Independente de qual definição seja a melhor, podemos dizer que para investir com segurança é preciso controlar e reduzir riscos e aumentar a previsibilidade dos resultados.

Qual o seu conhecimento?

Um fator que julgo importante quando se avalia a segurança dos investimentos é em relação ao seu nível de conhecimento.

Quanto maior ele for e quanto mais você entender sobre determinado investimento, menos incerteza você terá e maior a chance de você saber interpretar as variações de preço. Por exemplo, se você entende a marcação a mercado dos títulos do Tesouro Direto, sabe que aqueles com componente prefixado (Tesouro prefixado e Tesouro IPCA+) podem desvalorizar em caso de subida dos juros. Então, se isso acontecer não deve ser uma surpresa. Ao mesmo tempo, você entende que, independentemente da variação dos juros, se você segurar o papel até o vencimento, a rentabilidade será aquela acordada no momento do investimento. É outra incerteza a menos.

No caso das ações, é importante entender não só sobre os negócios e planos da empresa em que se investe, como também do comportamento de preço das ações no mercado. Portanto, você analisa a empresa, gosta dos números e do negócio, acha que o preço está bom e compra. A partir daí você precisa saber que haverá flutuação de preço da ação, mesmo que o negócio esteja funcionando como você esperava. Se você entende o que a empresa está fazendo, sabe avaliar os resultados quando divulgados, sabe se o preço da ação está abaixo, no patamar ou acima do preço que considera justo, você será capaz de reduzir as incertezas e portanto o risco deste investimento.

Qual o seu horizonte de tempo?

Um segundo ponto a se avaliar na escolha do investimento mais seguro é o horizonte de tempo.

Quando se investe visando o curto prazo (meses a poucos anos) ou quando está se construindo a reserva de emergência, duas características são importantes, a liquidez e a rentabilidade, que por menor que seja, não pode ser negativa. Desta forma, investimentos em renda fixa, como poupança, Tesouro Selic (em curtíssimo prazo pode render negativo eventualmente), fundos DI sem taxa de administração, além de LCIs, LCAs e CDBs de curto prazo ou com liquidez diária são opções que se encaixam. No exterior, as savings accounts, money market accounts, certificates of deposit (CDs) , treasury bills e short-term bonds são opções. Dentre elas, apenas os CDs, em geral, não possuem liquidez imediata.

Não espere grandes rendimentos nessas aplicações, o objetivo quando se investe no curto prazo está mais para o lado de não perder do que de ganhar.

Por outro lado, quando se fala em investimentos de longo e longuíssimo prazo (muitos anos a décadas) existe uma gama maior de opções que podem ser consideradas seguras. No Brasil, dentro dos ativos de renda fixa, os papéis indexados à inflação são uma possibilidade a mais.

Quando temos um horizonte de prazo longuíssimo, ou mesmo durante toda uma vida, também podemos incluir a renda variável como um investimento dos mais seguros. Um dos livros onde isso está melhor documentado é o Investindo em Ações no Longo Prazo, do Jeremy Siegel. Resumidamente, foram estudados diversos períodos de tempo, onde mostrou-se que o rendimento das ações superava o da renda fixa no longo prazo. Claro que os resultados podem mudar de acordo com o país, principalmente no Brasil, onde os juros atingiram níveis altíssimos nos últimos 30 anos, mas de forma geral nos países desenvolvidos o aumento de lucro e a valorização das ações em longos períodos costuma superar a renda fixa.

E por que podemos dizer que em longos períodos a renda variável pode ser considerada o investimento mais seguro? Justamente pelo que direi a seguir.

O fator inflação

É fato que no curto prazo, o investimento em renda fixa é mais seguro. Entretanto, em longos períodos de tempo, não podemos nos esquecer da inflação. Se considerarmos apenas alguns meses, a inflação não faz muita diferença, mas quando levamos em conta anos e décadas, a inflação pode corroer mais da metade do valor do dinheiro e a rentabilidade de investimentos como poupança e savings accounts se torna incapaz de evitar essa corrosão.

Já quando se trata de ações (aqui partindo do princípio que se escolha ações de boas empresas com boas perspectivas futuras e que se faça o acompanhamento para ver se ela realmente continua entregando resultados), vemos que elas tendem a valorizar conforme as empresas crescem e seus lucros passam a ser maiores. Para que isso aconteça, as empresas estão sempre expandindo, criando novos produtos e aumentando preços.

No curto prazo, existem outras forças mais importantes que provocam variações de preço das ações, mas no longo e longuíssimo prazo, a cotação seguirá na mesma direção do patrimônio, receita e lucros da empresa. E as melhores empresas conseguem crescer lucro e valorizar suas ações acima da inflação.

Assim, quando se tem um longo horizonte de tempo, quando se entende muito bem o negócio das empresas investidas e sabe-se que variações de preço das ações podem ser dramáticas, mas que elas tendem a voltar conforme o resultado das empresas evoluem, é possível dizer que o investimento em ações no longo prazo é o investimento mais seguro.

Em paralelo com as ações não podemos nos esquecer dos ativos imobiliários, sejam os fundos de investimento imobiliário (FIIs) ou os REITs internacionais. Os imóveis, historicamente, costumam valorizar conforme a inflação e caso sejam bem escolhidos e gerenciados até mais que isso. Nos EUA, o rendimento dos REITs tem superado o índice S&P 500 de forma contundente nos últimos 17 anos:

S&P 500 vs REITs
Índice S&P 500 (azul) vs Dow Jones US REIT Total Return Index (laranja)

 

O fator inflação também está intimamente ligado à moeda. Não adianta nada você investir de maneira segura dentro de determinada moeda e essa moeda se desvalorizar com o tempo. O ideal é medir sempre em Dólar dos Estados Unidos, que é a moeda reserva mundial, aceita em todo o planeta e pela qual são determinados os preços no comércio internacional.

Só pra você ter uma ideia, desde o início do Plano Real até agora, um investimento feito no Brasil precisaria multiplicar por 4 simplesmente para empatar com a desvalorização da nossa moeda em relação ao Dólar.

O fator emissor

No caso dos investimentos em renda fixa, é importante considerar o emissor dos papéis quando se procura encontrar aquele mais seguro. Neste caso, quando o emissor é o governo temos a maior segurança possível dentro daquela moeda. Existem também empresas e bancos que por terem um balanço tão forte possui risco de crédito classificado como AAA, o que torna os papéis emitidos por eles bastante seguros. Em termos de empresas americanas, só existem duas classificadas como AAA, a Johnson & Johnson e a Microsoft.

O fator garantia

Um último fator a ser levado em conta quando se procura o investimento mais seguro é a questão das garantias. E aqui eu falo sobre investimentos de renda fixa, já que investimentos em renda variável não possuem garantia.

No Brasil temos o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) que garante determinadas aplicações até o limite de 250 mil reais por CPF ou CNPJ. Nos Estados Unidos, o  Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC) garante até 250 mil dólares em contas correntes, savings accounts, money market, certificates of deposit e term deposits, entre outros tipos de conta menos comuns. Outra entidade de que protege o investir nos Estados Unidos é a Securities Investor Protection Corporation (SIPC), que protege até 500 mil dólares contidos em corretoras, englobando ações, bonds, fundos, ETFs, money market e CDs. A cobertura para dinheiro em caixa é limitada a 250 mil dólares. Lembrando que você precisa escolher bancos e corretoras que sejam membros dessas entidades de proteção.

Claro, se você escolheu um bom emissor, você provavelmente nunca precisará dessas garantias, mas funciona como um seguro em caso de “cisne negro”.

Como investir com segurança

Você pode ter uma carteira de investimentos segura com uma combinação de investimentos. Já até abordei como você pode sair do zero para um grande patrimônio aplicando as lições contidas nos e-books A pirâmide das Finanças Pessoais e A Pirâmide dos Investimentos. Eles ensinam basicamente  como ter estabilidade financeira e começar a investir de forma gradativa.

Voltando ao ponto. Se uma carteira de ações, por melhor que ela seja, pode trazer fortes emoções e uma carteira de renda fixa pode não render aquilo que se deseja, a correta associação das duas pode não só trazer mais segurança, como também melhorar os retornos.

A maneira mais simples de abordar essa questão é através do rebalanceamento da carteira. Em momentos de estresse do mercado, onde o pessimismo é geral e os ativos estão depreciados, deve-se direcionar os investimentos para as ações. Quando o mercado passa por momentos de euforia e os ativos estão inflacionados, privilegia-se o investimento em ativos de menor risco e com menor possibilidade de queda.

Conclusão

Talvez você estivesse esperando uma resposta simples e definitiva para a pergunta do título, mas definitivamente existe uma série de fatores a serem levados em conta para respondê-la. Investidores com alto grau de conhecimento mantêm muito bem um excelente portfólio de ações por toda vida sem muito estresse. Buffett e Munger estão aí para provar. Já outras pessoas, não podem suportar variações bruscas de preço, nem sequer cogitar ter investimentos no prejuízo. Neste caso, mesmo para longo prazo, convém investir em papéis de renda fixa. Para investidores muito conservadores, é melhor render menos do que sofrer um infarto.

Portanto, a lição que fica de tudo isso é que a escolha do investimento mais seguro requer não só um alto grau de conhecimento sobre os investimentos, mas também sobre si mesmo.

 

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Este post tem 10 comentários

  1. Avatar

    Sempre boas matérias parabens ,venho estudando opções em varios mercados a 9 meses para paraticipar .

  2. Avatar

    Bom dia Raphael,
    Muito esclarecedor. Mas fiquei com duas duvidas:
    – Quais bancos posso abrir conta à distância?
    – As moedas mais seguras são o dólar americano e o franco suíço (Me parece que na atualidade nem a libra e nem o euro são boas opções não é?).
    Grato!

    1. Raphael Monteiro

      Olá Fábio,

      Tem uma página com os bancos e corretoras sobre as quais já comentei em artigos.

      Moedas fortes são essas que você falou, dólar dos EUA, Franco Suíço, Euro, Libra Esterlina, Iene. Claro que não são perfeitas, mas são menos inflacionárias.

      Abçs!

  3. Avatar

    Ótimo texto. Apenas acho que você se enganou na seguinte conta: “um investimento feito no Brasil precisaria render pelo menos 400% simplesmente para empatar com a desvalorização da nossa moeda em relação ao Dólar”. Se o dolar valia 1 e hoje vale 4, o aumento não seria 300%?
    Abraços!

    1. Raphael Monteiro

      Olá Heron,

      Obrigado por comentar.

      Era pra ser multiplicar por 4 e não 400%. Vou corrigir. Obrigado.

      Abçs!

  4. Avatar

    Muito legal gosto bastante das postagens do site, e essa questão do conhecimento é uma coisa que eu falo quando me perguntam o que é arriscado.
    Pra mim os 2 principais pontos para diminuir o risco são conhecimento e diversificação.

  5. Avatar

    Sempre reportagens claríssimas, diretas e bem explicadas! Parabéns!!

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