minha ação favorita

Como analisar uma ação e investir para longo prazo como Warren Buffett e Benjamin Graham

Eu não sou muito de usar o nome dos investidores famosos para atrair cliques ou curtidas, apesar de já ter escrito dois artigos falando do Warren Buffett, bem como o texto sobre a Berkshire Hathaway. Na verdade, o artigo de hoje entra na seleção de curiosidades do mercado financeiro, como aquele artigo A primeira história do mercado financeiro totalmente honesta. Por outro lado, o número de ensinamentos que se pode tirar do texto de hoje excede em muitas vezes o texto anterior, que tinha uma pegada mais humorística e uma lição principal.

“The Commercial & Financial Chronicle” foi uma das mais longevas publicações financeiras do mundo. Criada em 1865, foi publicada semanalmente até o seu fim em 1987. Dados a sua qualidade e volume de informações, é uma das principais fontes de informação sobre a história do mercado financeiro americano.

Uma das seções da publicação era chamada “A ação que eu gosto mais”, onde diversos  profissionais do mercado explicavam qual era sua ação favorita.

Na edição de 6 de dezembro de 1951, o jovem Warren E. Buffett, então com 21 anos, escreveu sobre a sua ação favorita, chamada Government Employees Insurance Co., ou GEICO. Basicamente é a ação que criou a fama de Buffett e da Berkshire.

Eu traduzi o artigo e fiz anotações sobre os pontos mais importantes que todos nós como investidores devemos aprender. Ao final do artigo, você ainda irá descobrir tudo que aconteceu desde que ele começou a comprar ações da GEICO pela primeira vez em 1951 até o fechamento de capital em 1995. Você não imagina a quantidade de reviravoltas que aconteceram.

Eis o artigo de Buffett. As anotações estão em itálico.

Government Employees Insurance Co.

Warren Buffett
Warren E. Buffett

O pleno emprego, os lucros exorbitantes e distribuição recorde de dividendos recorde não estabelecem o cenário para reduzir os preços das ações. A maioria das indústrias vem aproveitando essa onda de prosperidade nos últimos cinco anos com poucas ondulações para perturbar a corrente.

Já no começo um grande ensinamento. Economia bombando diminui o número de oportunidades de se comprar ações baratas. Contrasta com o artigo que ele escreveu no auge da crise de 2008, chamado Compre os Estados Unidos. Eu compro.

O negócio de seguros de automóveis não compartilhou o boom. Após as perdas impressionantes do período imediato do pós-guerra, a situação começou a se endireitar em 1949. Em 1950, as ações de seguradoras voltaram a tomar no queixo, com o segundo pior  ano dos últimos 15 anos. Os recentes relatórios de lucro das empresas de seguro, particularmente aquelas mais envolvidas na linha de automóveis, não acompanharam o entusiasmo do mercado de ações. Com base no poder de lucro habitual e nos ativos detidos, muitas dessas ações parecem subvalorizadas. A natureza da indústria é tal que facilita esses acidentes cíclicos.

Aqui ele percebe que o setor de seguros não acompanhou o boom dos demais setores, ao mesmo tempo que ele entende a ciclicidade do negócio. E o melhor momento para investir em empresas cíclicas é quando elas estão com problemas.

O seguro de automóvel é considerado uma necessidade pela maioria dos compradores. Os contratos devem ser renovados anualmente a taxas baseadas na experiência. A defasagem das taxas em relação aos custos, embora prejudicial em um período de alta dos preços, como caracterizou o período de 1945 a 1951, deve ser benéfica se as forças deflacionárias forem acionadas.

Outras vantagens da indústria incluem a falta de estoque, coleção, mão de obra e problemas de matéria-prima. O risco de obsolescência do produto e obsolescência de equipamentos relacionados também está ausente.

Aqui ele nota uma vantagem competitiva do setor de seguros. As seguradores não possuem uma série de passivos que os outros setores possuem.

Government Employees Insurance Co. foi organizada em meados da década de 30 para fornecer seguro de automóvel completo em todo o país para uma classe elegível, incluindo: (1) funcionários públicos federais, estaduais e municipais; (2) oficiais comissionados ativos e da reserva e os primeiros três níveis salariais de oficiais não comissionados das Forças Armadas; (3) veteranos que eram elegíveis quando em serviço ativo; (4) ex-segurados; (5) docentes de universidades, faculdades e escolas; (6) funcionários contratados do governo dedicados exclusivamente ao trabalho de defesa e (7) acionistas.

Buffett percebe que o clientela foco da GEICO é composta apenas de funcionários públicos, uma classe com bom poder aquisitivo e estabilidade de emprego. Enfim, um grupo de pessoas que apresenta menos riscos para uma seguradora em relação a um público amplo.

A empresa não possui agentes ou filiais. Como resultado, os segurados recebem apólices de seguro de automóvel padrão com descontos premium que chegam a 30% de desconto. Os pedidos de indenização são tratados prontamente por cerca de 500 representantes em todo o país.

A GEICO possui uma vantagem competitiva (não tem agentes), que reduz seus custos e a permite vender seguros a preços menores que a concorrência.

O termo “empresa em crescimento” tem sido aplicado com abandono nos últimos anos a empresas cujos aumentos de vendas representaram pouco mais que a inflação de preços e a flexibilização geral da concorrência nos negócios. A GEICO se qualifica como uma empresa legítima de crescimento com base no seguinte registro:

Ano – Prêmios Recebidos – Segurados

1936 –         103.696,31      –    3.754

1940 –        768.057,86     –   25.514

1945 –     1.638.562,09     –   51.697

1950 –     8.016.975,79    –  143.944

A GEICO não apenas cresce exponencialmente no valor dos prêmios, mas também no número absoluto de segurados.

É claro que o investidor de hoje não lucra com o crescimento de ontem. No caso da GEICO, há razões para acreditar que a maior parte do crescimento está à frente. Antes de 1950, a empresa só foi licenciada em 15 de 50 jurisdições, incluindo D. C. e Hawaii. No início do ano, havia menos de 3.000 segurados no Estado de Nova York. No entanto, 25% economizados na conta de um seguro de US$ 125 em Nova York devem parecer maiores para a perspectiva do que os 25% economizados na taxa de US$ 50 nas regiões mais escassamente povoadas.

Neste parágrafo ficam claras duas coisas. A primeira: crescimento passado não indica crescimento futuro. Portanto não seja apenas um investidor de retrovisor. A segunda: ele acredita que a empresa tem ainda muito a crescer, por estar presente em 15 dos 50 estados americanos. Essa é a diferença entre uma empresa menor, com mercados a conquistar e uma empresa grande que já ocupa todos os mercados.

À medida que a competição de custos aumenta em importância durante os períodos de recessão, a atração da taxa da GEICO deve-se tornar ainda mais eficaz em redirecionar os clientes dos cunhados. Com as taxas de seguro subindo devido à inflação, o spread de 25% nas taxas se torna mais amplo em termos de dólares e centavos.

Aqui ele mostra o diferencial competitivo da GEICO em relação às seguradoras menores, cujas apólices são vendidas pelos cunhados.

Não há pressão de agentes para aceitar segurados questionáveis ​​ou renovar riscos maiores. Nos estados onde a estrutura da taxa é inadequada, novas promoções podem ser interrompidas.

Provavelmente, a maior atração da GEICO é a vantagem da margem de lucro que ela desfruta. A relação entre o lucro subscrito e os prêmios auferidos em 1949 foi de 27,5% para a GEICO, em comparação com 6,7% para as 135 empresas de acidentes e garantias de ações, resumidas por Best. Como o mercado de seguros piorou em 1950, a margem de lucro do agregado da Best caiu para 3,0% e a da GEICO caiu para 18,0%. GEICO não atende todas as linhas de seguro; no entanto, lesões corporais e danos materiais, ambas linhas importantes para a GEICO, estavam entre as linhas menos lucrativas.

Aqui ele mostra outra vantagem competitiva da GEICO, as margens maiores em relação à  concorrência. Ela vende mais barato e ainda fica com uma maior parte dos prêmios recebidos.

GEICO também faz uma grande quantidade de seguros de colisão, que foi uma linha rentável em 1950. Durante o primeiro semestre de 1951, praticamente todas as seguradoras operaram no vermelho em linhas de acidentes, com lesões corporais e danos materiais entre as mais deficitárias.

Enquanto a margem de lucro da GEICO foi reduzida a pouco mais de 9%, a Bonding & Insurance, de Massachusetts, apresentou 16% de perda, a New Amsterdam Casualty 8% de perda, a Standard Acident Insurance 9% de perda, etc.

Devido ao rápido crescimento da GEICO, os dividendos em dinheiro tiveram que permanecer baixos. Os dividendos em ações e o desdobramento de 1 para 25 aumentaram as ações em circulação de 3.000 em 1 de junho de 1948 para 250.000 em 10 de novembro de 1951. Os direitos valiosos para subscrever ações de empresas afiliadas também foram emitidos.

Benjamin Graham é Presidente do Conselho desde que seu fundo de investimento adquiriu e distribuiu um grande bloco de ações em 1948. Leo Goodwin, que orientou o crescimento da GEICO desde o início, é o Presidente de fato.

Aqui ele identifica Benjamin Graham como grande investidor e Presidente do Conselho da GEICO. Também elogia o atual presidente. Ter grandes investidores naquela ação e uma equipe de gestão competente também são fatores que podem ser avaliados antes de se comprá-la.

No final de 1950, os 10 membros do Conselho de Administração detinham aproximadamente um terço das ações em circulação.

Se 1 em cada 3 ações da companhia são detidas por insiders (membros de altos cargos executivos) é um excelente sinal de que confiam na empresa e estão alinhados com os acionistas.

Os ganhos em 1950 totalizaram US$ 3,92, contra US$ 4,71 relativos ao menor volume de negócios em 1949. Esses números não incluem o aumento da reserva de prêmios não ganhos que foi substancial em ambos os anos.

Os ganhos em 1951 serão menores do que em 1950, mas a onda de aumento da taxa durante o verão passado deve se evidenciar em 1952. A receita de investimentos quadruplicou entre 1947 e 1950, refletindo o crescimento dos ativos da empresa.

Ao preço atual de cerca de oito vezes o lucro de 1950, um ano ruim para a indústria, parece que nenhum preço está sendo pago pelo tremendo potencial de crescimento da empresa.

Pra finalizar, ele mostra que esses 2 últimos anos ruins foram apenas um período ruim dentro de uma empresa que ainda tem muito a crescer e aproveitou os preços das ações, que não subiram junto com o mercado para comprar mais. Veja que o P/L de 8 da GEICO era levemente acima da média do S&P 500 deste ano (7,5), mas o potencial de crescimento era muito maior.

O que aconteceu depois desse artigo?

Nos meses que precederam o artigo, Buffett comprou ações da GEICO por 4 vezes conforme explicado na carta aos acionistas da Berkshire Hathaway de 1995. Ele gastou U$ 10.282, que ao final de 1951 valiam U$ 13.125. Essas ações correspondiam a 65% do patrimônio dele à época. Ele vendeu as ações em 1952 por U$ 15.259 justamente para comprar ação de uma outra seguradora chamada Western Insurance Securities, que era   vendida a um P/L de 1 naquele ano.

O Buffett de 1952 era muito mais ligado em múltiplos do que em crescimento e gestão competente. A troca de GEICO por Western Insurance mostra bem isso. Se ter embolsado 50% de lucro em 2 anos com a GEICO pode parecer muito saiba que se ele tivesse segurado a ação pelos 20 anos seguintes, aqueles 15 mil dólares se tornariam 1,3 milhão!

Por outro lado, foi esse apego a valor que o fez comprar uma outra empresa que mudaria sua vida, a própria Berkshire Hathaway. E naquele mesmo período que as ações da GEICO multiplicaram em diversas vezes Buffett acumulou um patrimônio de 34 milhões de dólares.

Já Benjamin Graham havia entrado na GEICO em 1948 comprando 50% da empresa, que ainda era de capital fechado. Naquele mesmo, as ações foram lançadas em Bolsa a 27 dólares cada. Em 1972, no auge da empresa, uma ação comprada no IPO já tinha valorizado para 16.349 dólares! O investimento inicial de Graham de 712 mil dólares (antes do IPO) haviam se tornado algo em torno de 400 milhões. Um retorno de 561 vezes!

Nem tudo foram flores. No meio da década de 70, as operações da GEICO deterioraram e em 1975 a companhia passou a ter prejuízos. Em 1976, para o processo de reestruturação da empresa foi contratado um executivo famoso de nome John Byrne para assumir como CEO. Em apenas um ano, ele pôs a companhia no azul. Buffett foi então conhecê-lo e já no dia seguinte começou a comprar novamente ações da GEICO por 2,25.

Com o passar do tempo, a Berkshire foi comprando mais e mais ações da GEICO. Em 1987 o lucro por ação foi de U$ 9,01, enquando o preço médio de compra de Buffett era de U$ 6,67 ! Em 1995 ele já tinha 51% da empresa. Foi quando decidiu fechar o capital pagando 70 dólares por ação pelos 49% restantes. Esse valor representava 48 vezes o investimento inicial.

Conclusão

Quantas lições podemos tirar da história da GEICO! Desde dele ter vendido cedo demais (mesmo com um bom motivo) até a derrocada da empresa na década de 70 e posterior ressurreição para se tornar uma 48-bagger!

Eu consegui encontrar os originais das publicações de Buffett, tanto o artigo sobre a GEICO, quanto aquele sobre a Western Insurance, que é ainda mais interessante e completo. Basta clicar no botão abaixo para recebê-los.

A ação que eu gosto mais

 

 

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Este post tem 8 comentários

  1. Avatar

    Parabéns Raphael, seus artigos são sempre de qualidade excelente!
    Continue com o ótimo trabalho.

    1. Raphael Monteiro

      Olá Rosana,

      Obrigado por comentar. Na atual concepção do termo, são os investidores raiz.

      Abçs!

  2. Avatar

    Nossa! Com 21 anos o WB já tinha um esclarecimento como esse. Simplesmente um Gênio.
    Obrigado Raphael por compartilhar.

    Abraço do Muk.

  3. Avatar

    Parabéns…ótimo artigo!!!

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