A diversificação internacional irá salvar a sua vida

Diversificação internacional

Não faz sentido manter todo o seu dinheiro investido no Brasil

Quem busca preservar e crescer patrimônio no longo prazo, que pra mim é o decorrer de toda uma vida, deve buscar meios de tornar esse patrimônio o mais resiliente possível aos percalços do mundo. Isso inclui crises financeiras, políticas, guerras e pandemias.

A melhor maneira de montar um portfólio que esteja preparado para bons e maus momentos é encontrar as peças para compô-lo em qualquer lugar do mundo, não importa onde elas estejam. Isso é particularmente importante para quem mora em um país periférico, instável e pobre como o Brasil.

Entretanto, se formos pesquisar, veremos que a maioria das pessoas possuem todos ou a maior parte de seus investimentos em seu próprio país. É devido a um componente das finanças comportamentais chamado Home Country Bias (viés do país natal).

Home Country Bias

Para quem mora no Brasil é muito mais conveniente abrir conta em um banco ou corretora brasileiras, investir em CDBs ou ações brasileiras negociadas na B3. É algo natural e repetido geração após geração. A expectativa de que o país irá se desenvolver e a preferência por aquilo que lhe é familiar são fatores que contribuem para isso.

A grande maioria das pessoas não investe em outros países por completo desconhecimento. Uma outra parte até sabe que é possível, mas ainda possui alguma desconfiança pela distância e por não conhecer de perto outros mercados e isto impede que elas tomem esse passo.

A comparação mais usada para quebrar o estigma de investir em outros países é com a de um time de futebol. Qual time se sairia melhor, uma seleção formada apenas por jogadores brasileiros ou uma formada pelos melhores jogadores do mundo?

Diversificação internacional no mercado de ações

Observando algumas publicações sobre diversificação internacional, vemos claramente os benefícios de proporcionar uma estabilidade maior de retornos quando espalhamos os investimentos por vários países.

diversificação internacional
Comparação de retornos do mercado acionário dos países por décadas. Fonte:Bridgewater

Vemos que o Brasil foi o número 2 da década de 2000 e o pior da década de 2010. Uma alocação de tamanhos iguais (equal weight) em todos os países lhe manteria na média, evitando extremos.

Evitar extremos é importante quando se fala em “drawdown”, que são os movimentos de desvalorização da carteira. Um dos segredos de um bom desempenho de longo prazo é conter as quedas.

diversificação internacional
Drawdown das ações e bonds entre múltiplos países, Estados Unidos e pesos iguais entre países (em vermelho). Fonte: Bridgewater

Na imagem acima temos as quedas no decorrer de diversas décadas. A linha vermelha mostra as quedas de uma distribuição igual entre papéis de todos os países. Veja que elas são menores que as quedas individuais.

O motivo é simples. Enquanto alguns países vão bem, outros vão mal. Uma coisa compensa a outra. E se levarmos em conta que o mundo vem se desenvolvendo durante todo esse tempo, as épocas de “vacas gordas” tendem a ser maiores que as épocas de “vacas magras”. Isso é particularmente importante, porque vacas magras podem eventualmente ser problemas específicos de alguns países, como foram os casos de Venezuela e Argentina e mesmo do Brasil (em outra proporção, claro!). Estar diversificado quando o problema é no seu país reduz as chances do seu patrimônio ser varrido do mapa.

Backtest: Brasil e Estados Unidos

Fiz um backtest comparando três carteiras de investimento:

  • 100% Ações Brasil
  • 100% Ações Estados Unidos
  • 50% Ações Brasil e 50% Ações Estados Unidos

Tudo é em dólar e para acompanhar Brasil foi usado o ETF EWZ que segue o índice MSCI Brazil e para acompanhar Estados Unidos foi usado o ETF SPY, que segue o índice S&P 500.

O período estudado vai de agosto de 2000, quando o ETF EWZ foi criado, até março de 2020.

Aqui está o resultado final caso fosse aplicado 100 mil dólares em cada carteira e fosse feito rebalanceamento anual:

Resultado do backtest

O maior retorno foi da carteira combinada, com uma diferença significativa. Essa combinação conseguiu aproveitar tanto a “época de ouro” do mercado de ações brasileiro nos anos 2000, quanto o excelente período dos americanos na última década.

Veja o gráfico das evoluções:

Diversificação internacional

Abaixo temos o drawdown. Só olhando esta imagem para termos noção do tanto que o patrimônio dos brasileiros investido em ações foi dizimado nos últimos 10 anos.

Drawdown

Viu o tamanho da queda lenta e duradoura da última década e da queda brutal de 2020? Percebeu que ao final de março estivemos abaixo da crise financeira de 2008 e da crise da eleição do Lula em 2002, quando medido em dólar?

Sabe aquela história da Bolsa do Japão que não cresce há décadas? Pois bem, esta acontecendo aqui e agora bem na nossa cara.

Conclusão

Atualmente é mais simples investir fora do Brasil do que era há alguns anos. Existem bem mais opções de investimento, algumas inclusive no Brasil, como fundos e BDRs. Entretanto, a maior liberdade da diversificação internacional se encontra quando você investe diretamente fora do país, com uma conta em banco ou corretora. Você abre um leque praticamente ilimitado de oportunidades, que satisfazem do mais conservador ao mais agressivo.

Não tenha dúvida de que quem está dolarizado está passando por essa crise muito melhor do que quem não está e deve permanecer assim nas próximas que virão. É uma atitude da qual é difícil se arrepender.

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Este post tem 29 comentários

  1. Avatar
    João Carlos

    Boa noite.
    No último estudo, combinando EWZ e SPY, cover deixa claro que foi feito um rebalanceamento anual.
    Porém, fazer um estudo olhando o passado, é bem diferente de montar uma carteira sem saber o futuro.
    Bem como a primeira tabela, onde se lista o ganho médio baseado em diferentes países. Mar como saber quais países escolher, e o quanto alocar em cada?

    Não tenho dúvidas que montar uma carteira dolarizada e diversificada é melhor do que manter só no Brasil e em reais.
    A dificuldade aparece na montagem da estratégia, para quem não tem conhecimentos de mercados internacionais e em geo política.

    Obrigado

    1. Raphael Monteiro

      Olá João,

      Existem ETFs que distribuem a alocação entre países e outros que seguem índices de um único país. Você pode combinar quais países quiser e na proporção que quiser.

      Abçs!

      1. Avatar
        Cássio Hungria

        João, a partir do momento em que aceitamos que ninguém sabe qual país renderá mais no futuro, pode-se optar justamente por um ETF EQUAL-WEIGHT, cujas alocação é dividida igualmente entre os países.

    2. Avatar
      Daniel

      A própria estratégia de rebalanceamento periódico dispensa a necessidade de “saber o futuro” para obter rendimento otimizado. Tome por exemplo esta carteira hipotética de 50% EWZ e 50% SPY: na década de 2000, o percentual de EWZ na carteira estaria acima de 50% (porque a economia brasileira estava melhor que a americana na época), então você rebalancearia a carteira comprando mais cotas do SPY e menos do EWZ (pessoalmente sou a favor de rebalancear usando apenas “dinheiro novo” ou novos aportes, sem vender as cotas já compradas, não gosto de girar patrimônio). Na década de 2010, com a economia americana melhor que a brasileira, seria o contrário: o percentual de SPY estaria acima de 50%, então você traria o percentual de volta para este patamar comprando mais EWZ e menos SPY. Faça isso todos os meses (ou trimestres, ou anos, ou de acordo com a periodicidade dos seus aportes) e, no longo prazo (repito: NO LONGO PRAZO, pois a curto prazo sempre haverão perdas), você terá um montante final muito maior do que se estivesse 100% alocado em EWZ ou 100% alocado em SPY. Se quiser adicionar mais países à carteira, simplesmente atribua novos percentuais a cada um (por exemplo: 25% em EWZ, 25% em SPY, 25% em ERO – índice europeu -, e 25% em VJPN – índice japonês). A estratégia de rebalanceamento permanece a mesma. Abraços.

  2. Avatar
    Rodolpho Oliveira

    Faz sentido ter na carteira vários ETFs que replicam o S&P500 ou só 1 pra vida toda? (mesma pergunta para REITS). Abraço

    1. Raphael Monteiro

      Olá Rodolpho,

      Não vejo sentido em ter vários ETFs que replicam o mesmo índice.

      Abçs!

    2. Avatar
      Alison

      Penso numa carteira de ETFs VOO, VNQ, NOBL e outros. Os 30% sobre os dividendos não comprometeria significativamente os rendimentos no longo prazo? E os ETFs irlandeses?

  3. Avatar
    Andre Teixeira

    Raphael, muito bom, como sempre. Obrigado! Mas não ficou claro se o seu “backtest” considera rebalanceamento ou não, você pode esclarecer?

  4. Avatar
    Francisco

    Olá Raphael,

    Excelente artigo! Como sempre, argumentos fortes e bem embasados.

    Uma pergunta, e não é retórica, gostaria mesmo de saber a resposta. Como seria está análise caso façamos o mesmo hedgeado em dólar, ou seja, BOVA11 x IVVB11 + venda de DOLFUT, ou aplicando em fundos passivos hedgeados. Ou simplesmente BOVA11 x IVVB11 para ter uma posição dolarizado.

    Abcs

    1. Raphael Monteiro

      Olá Francisco,

      Esses ETFs nacionais são mais recentes. O PIBB, o mais antigo do Brasil, é de 2004 e o BOVA11 de 2008. O IVBB11 é de 2014. Não é possível fazer backtest de 20 anos.

      De qualquer forma, o resultado (sem hedge) seria o mesmo só que em Real. O Hedgeado acho que se sairia pior.

      Fazer hedge cambial te deixa refém de uma única moeda.

      Abçs!

  5. Avatar
    Fernando

    Bom dia, Raphael. Vale a pena dolarizar os investimentos com o dólar nas máximas históricas? Obg

    1. Raphael Monteiro

      Olá Fernando,

      Sim, vale. Pense nos próximos 20-30 anos e não na próxima semana e programe aportes periódicos.

      Abçs!

    2. Avatar
      Daniel

      O dólar está na máxima histórica em valores nominais, não reais (corrigido pela inflação). Neste exato momento, o dólar está cotado a R$ 5.31 reais, mas corrigindo pela inflação desde out/2002 a máxima seria de R$ 10.81 (fonte: Economatica). É importante fazer esta comparação, pois R$ 5 hoje têm um poder de compra muito menor que em 2002. Portanto vale a pena sim, pois o dólar poderia (em princípio) subir muito mais. E as empresas americanas historicamente sempre foram mais rentáveis que as brasileiras. Isso pode mudar? Sim, mas não consigo ver esta mudança ocorrendo nos próximos 20-30 anos.

  6. Avatar

    Essa estratégia de balanceamento da carteira eu acho fantástica, estou adotando ela pra renda fixa vs renda variável, e futuramente vou replicar ela no exterior, com ETFs provavelmente.

  7. Avatar
    Izabelle

    Mesmo com a cotação do dólar no atual patamar vale a pena transferir investimentos para o exterior?

    1. Raphael Monteiro

      Olá Izabelle,

      Sim. Precisa começar algum dia. Como não dá para voltar no tempo, começa com o dólar do momento.

      Abçs!

  8. Avatar
    André Teixeira

    Imaginei, obrigado. Seria pedir muito você fazer uma simulação sem rebalanceamento, isto é, a valorização e dividendos de cada classe de ativo seria reinvestida na própria classe? Fiquei muito curioso para saber quanto do ganho é referente à diversificação e quanto é referente aos rebalanceamentos (que acabam criando um efeito de “dollar-cost average”, não é?).

      1. Avatar
        André Teixeira

        Obrigado! Faz sentido, né? Diversificação deveria resultar na média dos retornos das classes de ativos, mas com volatilidade menor. O que gera valor é a disciplina de manter a alocação apesar dos ciclos, mantendo a composição da carteira através dos rebalanceamentos (que, graças à regra de ganhos de capital da Receita Federal do Brasil, eu faço mensalmente…)

  9. Avatar
    GUSTAVO

    Boa tarde Raphael!
    Muita gente está tentando surfar nessa onda do petróleo através do ETF USO, quais os riscos envolvidos? Como no contrato futuro é possível ficar devendo, abaixo de zero?
    Grande abraço
    Gustavo

    1. Raphael Monteiro

      Olá Gustavo,

      É preciso conhecer a dinâmica do preço do petróleo e o funcionamento do ETF.

      No ETF, você não fica negativo no sentido de precisar pagar mais do que você gastou na compra dele, mas o fundo pode ser liquidado se o prejuízo for maior que o patrimônio.

      Abçs!

  10. Avatar
    Alexandre

    Eu fiz umas contas aqui, mesmo com essa queda da bolsa, meu patrimônio está maior hoje do que em Janeiro, graças á minha exposição ao dólar (atualmente mais de 60% do meu patrimônio está em ações EUA, REITs, Ouro e dólar em cash). O resto está em açoes BR, FIIs e Tesouro Direto Selic.

    No dia de hoje, mesmo com as ações em baixa, estou em 4,9% acima do meu máximo histórico de Janeiro!

    Isso permite poder transitar tranquilo pelos ciclos.

    1. Raphael Monteiro

      Olá Alexandre,

      Ótima decisão. Você agora vê na prática como isso funciona.

      Abçs!

  11. Avatar
    Cecília Guenara

    Raphael, ótimo texto! Além da diversificação na Bolsa Americana você acha que valeria estudar e pensar em tbm investir na Euronex (Bolsa de Paris que reune ainda as bolsas de Amsterdão, Lisboa e Bruxelas) ou a Bolsa de Londres aproveitando aí a valorização do Euro ou da Libra frente ao Real? Ou seria muito arriscado? Desde já agradeço se puder responder. Abs.

    1. Raphael Monteiro

      Olá Cecília,

      Sim, desde que você conheça as empresas em que investe, não vejo problemas.

      Também é possível investir no mercado como um todo via ETFs.

      O Brasil é mais arriscado do que todos esses países mencionados.

      Abçs!

      Abçs!

  12. Avatar
    Gilberto

    Amigo, boa tarde.
    Faz sentido investir no exterior nesse momento com o dólar nesse valor ? Caso a cotação volte a R$ 4,00 por exemplo, a diferença da cotação de hoje não seria um prejuízo ?
    Obrigado.

    1. Raphael Monteiro

      Olá Gilberto,

      Fizeram essa mesma pergunta quando o dólar estava 3,00; 4,00 e 5,00 reais.

      Se você ficar esperando o dólar perfeito nunca irá começar a investir no exterior.

      Abçs!

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