A loucura dos juros negativos

juros negativos

Veja porque os juros negativos estão entre os maiores absurdos econômicos da história 

Recentemente, muitas pessoas andaram compartilhando nas redes sociais a nova oferta de bonds (títulos de renda fixa ou debêntures) da Berkshire Hathaway. A oferta possui um total de 1 bilhão de Euros em títulos com vencimento em março de 2025. Até aí tudo bem, mas o que chama a atenção é a taxa de juros paga para quem comprasse os títulos:

taxa de juros negativa

Isso mesmo. Os bonds estão sendo emitidos a juros zero. Ou seja, daqui 5 anos, a Berkshire Hathaway promete devolver o mesmo valor que você pagou pelos títulos hoje.

Não tenho dúvida de que essa oferta será um sucesso e que estes títulos serão completamente colocados no mercado. Será (mais uma) excelente tacada do Buffett para financiar suas operações de forma barata.

Você deve estar se perguntando “por que será um sucesso se não paga juro nenhum?”. Porque a maior parte dos títulos europeus negociados atualmente estão “pagando” juros negativos, ou seja, se você comprar algum deles agora e esperar até o vencimento, receberá menos. Veja abaixo o título do governo alemão com vencimento em 2028:

juros negativos na Alemanha

E por que alguém compraria um título com juros negativos?

Existem algumas explicações. A primeira é porque acredita que os juros ficarão ainda mais negativos. Quando os juros caem, o valor do título sobe, aí é possível vendê-lo no lucro. A segunda é que o mercado de renda variável ficou tão arriscado, que é melhor “garantir” uma perda pequena do que se arriscar mais.

De onde surgiu essa insanidade toda?

O Banco Central Europeu cortou taxas abaixo de zero pela primeira vez em 2014 em resposta à enorme crise de dívida da região e à inflação baixa após a crise financeira de 2008. Sim, os loucos europeus consideram inflação baixa um problema. Vários países da Europa, incluindo Suécia, Dinamarca e Suíça, seguiram os passos do BCE e introduziram os juros negativos logo depois.

O Banco do Japão também resolveu aprontar e adotou taxas negativas em 2016, fixando custos de empréstimos de curto prazo em -0,10% e comprando grandes quantidades de títulos do governo para reduzir os rendimentos de longo prazo. É o chamado Quantitative Easing, movimento em que o Banco Central emite moeda para comprar títulos, inflacionando seus preços e pressionando negativamente as taxas de juros.

Na época, esperava-se que essas taxas negativas fossem temporarárias com o intuito de reativar a economia desses países (exceto a Suíça, que reduziu para contar a valorização de sua própria moeda), mas acabou se tornando uma medida de prazo indeterminado. O que não deixa de ser óbvio, pois não são apenas os juros os responsáveis pela saúde de uma economia. É motivo para outro post, mas o ambiente regulatório europeu não é o mais adequado para termos uma economia dinâmica e aquecida.

No momento apenas dois bancos centrais mantêm as taxas de juros negativas:

  • Japão: -0,10%
  • Suíça: -0,80%

Sabe o que isso significa? Quem tem atualmente uma conta bancária em Iene ou Franco Suíço, por exemplo, sofre cobrança de juros. É uma linha de débito a mais no seu extrato e no final você acaba pagando para os outros ficarem com o seu dinheiro.

Juros negativos são plausíveis?

A natureza real dos juros é a preferência temporal por algo. No caso, a preferência por ter algo agora do que no futuro. Naturalmente, você prefere $20 agora do que $20 daqui a um ano. Se eu perguntar se você prefere $20 agora ou $18 daqui a um ano, a resposta é bastante óbvia. Numa situação de juros negativos, a natureza é virada de ponta cabeça e se escolhe menos no futuro do que mais agora. Não precisar ser um gênio para perceber que o tempo tem valor.

Assim como os políticos, uma boa parte da turma dos Bancos Centrais vive numa realidade paralela de modelos e teorias e não parecem conhecer a vida das pessoas reais.

Quando o Banco Central começa a cobrar dos bancos para manter o dinheiro lá, a cobrança é repassada aos clientes, como eu mostrei anteriormente, tornando caro manter o dinheiro no banco. Em vista disso, além dos clientes correrem para os títulos onde não são cobrados (como o da Berkshire Hathaway), existe a possibilidade deles sacarem em massa das contas, deixando os bancos com menor liquidez. E banco sem dinheiro não consegue cumprir sua funcional primordial, que é emprestar. É uma bola de neve que pode comprometer todo o sistema financeiro.

Veja como este modelo está matando os bancos. O gráfico abaixo mostra o comportamento do índice Euro Stoxx Banks, composto pelas ações do setor financeiro europeu.

Índice de Bancos Europeus

Os banqueiros centrais agem como se pudessem controlar toda a humanidade com suas políticas de juros. Entretanto, uma série de efeitos colaterais aparecem quando os incentivos para a alocação de capital são manipulados a tal ponto.

Um deles foi justamente a canalização do dinheiro para o mercado de ações, já que deixar o dinheiro no banco e na renda fixa estava gerando perdas. Isso catapultou o preço de muitas ações sem a respectiva contrapartida em termos de lucros. Não só as ações, mas ativos reais como casas e terras dispararam de preço, já que o financiamento ficou barato e atraiu muitos compradores.

O efeito que eles queriam que era recuperar a economia europeia, acabou não acontecendo, conforme pode ser visto no baixo crescimento do PIB:


source: tradingeconomics.com

Quando tudo encarece absurdamente, o resultado final é a supressão dos retornos futuros de qualquer tipo de investimento e a destrução do valor da moeda. Sem investimentos, a economia implode.  

Conclusão

O crescimento econômico é consequência do livre mercado e não da manipulação das taxas de juros. Ao invés de trabalhar pelo desenvolvimento da liberdade econômica, os burocratas lotados nas estruturas de estado e nos Bancos Centrais preferem centralizar o poder na ilusão de que detêm o controle.

Na verdade, eles criam distorções cujas consequências podem ser devastadoras, tanto econômica quanto socialmente. No momento, eu vejo duas saídas para quem deseja se proteger da manipulação das moedas e das taxas de juros. A primeira é o ouro e a segunda são as criptomoedas. São ativos que devem ser avaliados por todos os investidores.

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Este post tem 7 comentários

  1. Avatar
    marcos celio defina

    Concordo em genero numero e grau com seu comentário acima. As principais questões são duas: ouro é bom tem que se ter mas vai depender muito do seu patrimonio financeiro. Investidor que tem 10 milhões não vai comprar 10 milhões em ouro. Segundo: bitcoin é extremamente volatil, sofre uma manipulação enorme por parte de poucos investidores (as baleias) e ainda pode no medio prazo sofrer uma intensa desvalorização estrutural em função da concorrencia de outras moedas digitais, inclusive patrocinadas por governos. Finalmente acredito que numa crise financeira de proporções gigantescas não existe ainda nada melhor pro grosso do dinheiro do que bons imóveis e terras e ações de empresas sólidas e centenárias. Desculpe o texto longo.

    1. Raphael Monteiro

      Olá Marcos,

      Bem lembrado. Toquei mais na questão de ativos financeiros, mas ativos reais como imóveis e terras por terem valor intrínseco também são excelentes opções.

      Abçs!

  2. Avatar
    hogo hold

    Parabéns Raphael. Mais um trabalho esclarecedor para os simples mortais, numa linguagem elegante.

  3. Avatar
    Francisco

    É fato que o título paga 0% de juros, mas não é correto dizer que o comprador recebe o mesmo valor que pagou ao final, já que há um spread inicial. Olhando o registro da emissão na SEC (https://www.sec.gov/Archives/edgar/data/1067983/000119312520062545/0001193125-20-062545-index.htm) pode-se observar que existe um spread inicial, baixíssimo, concordo, mas não zero. Este papel seria o equivalente a uma LTN nossa sem cupons (juros). O PU pago inicialmente é menor que o valor de face o que é diferente de taxa zero.

    1. Raphael Monteiro

      Olá Francisco,

      Você tem razão. Existe esse pequeno spread. Entretanto, há emissões sem spread e títulos no mercado secundário que negociam a juros negativos.

      O fato é que para chegar nesse ponto é necessário uma manipulação muito grande das taxas de juros.

      Abçs!

  4. Avatar
    BPM

    A única coisa que ainda fico com o pé atrás são as criptomoedas. Prefiro imóveis por enquanto.

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