Ações de valor ou ações de crescimento?

ações de valor

Onde é melhor investir, em ações de crescimento ou ações de valor?

Provavelmente você já deve ter ouvido falar desses termos para designar diferentes tipos de ação. Existem investidores que preferem ações de valor e outros que preferem as de crescimento. Quem está certo? Qual a melhor ação para você?

Para responder a estas perguntas, mostrarei as características das ações de valor e das ações de crescimento, revelarei a situação atual de mercado de cada uma delas e darei alguns exemplos de ações que se encaixam nessas categorias.

Ações de crescimento

Se formos levar ao pé da letra o investimento no mercado de ações, podemos definir que o preço que se paga por uma ação hoje nada mais é que o preço pago pelo fluxo de caixa futuro que aquela ação representará.

Só que existe um número grande de variáveis que irá determinar qual será esse fluxo de caixa futuro. Dependendo da ação, o número de variáveis se torna tão grande e as premissas para o futuro tão distintas que é praticamente impossível estimar qualquer valor. Por isso que diversos analistas chegam a conclusões bastante diferentes quando analisam a mesma ação.

Vou usar um exemplo extremo. Quando Peter Thiel investiu 500 mil dólares no Facebook em 2004, ele não estava fazendo cálculos de fluxo de caixa. Ele gostou do modelo da rede social e viu o crescimento exponencial de número de usuários que a plataforma ganhava dia após dia. Não se sabia exatamente se aquele negócio daria certo ou como a empresa iria ganhar dinheiro.

Em casos de investimento anjo, como acima, as incertezas se avolumam. Já no investimento em ações feito no mercado secundário de bolsa, onde há empresas maiores e já estabelecidas, elas se tornam menores, mas não irrelevantes.

Assim, quando falamos de empresas de crescimento, o foco está mais no que a empresa pode se tornar do que naquilo que ela é hoje. Claro que empresas grandes e já consolidadas atualmente também podem ser empresas de crescimento, como é o caso da Nvidia.

O fato é que empresas como essa estão inseridas em mercados de franco crescimento, fornecendo produtos e serviços que são cada vez mais demandados. No melhor dos mundos, a empresa é que cria este novo mercado, com um produto ou serviço que ninguém mais oferece. Foi, no início, o caso da Netflix.

Para este tipo de empresa, deve-se avaliar o crescimento da receita e da participação no mercado, bem como o crescimento do próprio mercado. Por estarem crescendo em todos esses aspectos, as ações de crescimento são consideradas mais caras quando analisadas do ponto de vista tradicional, que inclui os múltiplos Preço/Lucro, EV/EBITDA, etc.

Claro que não se deve esquecer desses múltiplos por completo, mas sim entender que eles não contam a história completa.

Muitas empresas de crescimento, inclusive, não estão focadas em apresentar lucro, como é o caso da Amazon, que só começou a lucrar com a criação da AWS (Amazon Web Services). Isso se deve ao fato desse tipo de empresa reinvestir a receita na expansão e melhora do próprio negócio.

A questão da imprevisibilidade e o fato dos resultados desse tipo de ação serem mais variáveis implica também no fato dessas ações serem mais voláteis.

Outro fator que ajuda a analisar as empresas de crescimento é a análise gráfica. Por meio dela podemos ver a tendência de preço da ação, de volume, etc, que refletem a percepção do mercado acerca dela.

“Se você deseja ser um investidor de longo prazo em grandes empresas e aproveitar todos os benefícios do crescimento, precisará se acostumar a manter ações que nem sempre são baratas. Empresas que continuamente excedem as expectativas raramente o fazem sendo baratas.” -Ian Cassel

Em resumo, ações de crescimento são aquelas que estão aumentando receita e participação no mercado e possuem maiores perspectivas de valorização. A expectativa de serem maiores no futuro faz com que sejam negociadas a múltiplos mais caros. A imprevisibilidade e variabilidade nos resultados financeiros tornam as ações mais voláteis.

Ações de valor

As ações de valor são aquelas que com o mesmo dinheiro você compra mais patrimônio, mais lucro, mais fluxo de caixa ou mais dividendos em relação à média do mercado.

A ideia do investimento em valor é justamente definir um preço adequado para a companhia, o chamado valor justo, e comprar a ação por um preço menor do que ele. Quanto menor for esse preço, maior é a margem de segurança.

Os investidores que seguem essa linha são da escola de Benjamin Graham, Warren Buffett, Walter Schloss, Seth Klarman, entre outros.

Para o investidor de valor, o mercado está errado ao dar um preço para uma ação, sendo que ela vale mais do que isso. Ele tenta perceber isso antes do mercado e busca valorização quando o mercado perceber que realmente aquela ação valia mais.

Assim, ele busca empresa em setores ou momentos desfavoráveis e espera que haja um retorno à média, quando aquele setor ou aquela empresa se recuperarem. Portanto, ele reconhece algum tipo de problema na empresa como um problema temporário, que foi penalizado demais pelo mercado, deixando o preço da ação atraente.

“Se uma ação fizer parte de um importante índice de mercado, haverá demanda dos fundos de índice para comprá-la, independentemente de estar sobreavaliada em relação ao valor justo. Da mesma forma, se uma ação recentemente se valorizou com aumento do volume, os analistas técnicos podem considerá-la atraente; por definição, o valor justo não faria parte de seus cálculos. Se uma empresa exibiu um rápido crescimento recente, pode negociar com um múltiplo de “crescimento”, muito superior ao que um investidor de valor pagaria.

Por outro lado, uma empresa que recentemente reportou resultados decepcionantes pode ser descartada por investidores que se concentram exclusivamente em lucros, diminuindo o preço para um nível consideravelmente abaixo do seu valor justo. Um investidor incapaz de atender uma chamada de margem não está em posição de se valer do valor total; ele é forçado a vender pelo preço de mercado. ” -Seth Klarman

Portanto, o investidor de valor é muito mais focado no que ele compra agora de valor real gerado pela empresa do que no valor futuro que pode vir do crescimento. Muitas vezes, ele parte de perspectivas conservadoras de crescimento. Ele não deseja pagar muito por um crescimento que talvez não virá.

O investidor de valor valoriza o patrimônio da empresa, o valor dos ativos, a geração de caixa, o lucro e os dividendos atuais e tenta pagar o mínimo possível por eles. Um exemplo de empresas de valor hoje é a AT&T, que tem sido negociada a múltiplos historicamente baixos e a um dividend yield alto.

Um cuidado que o investidor de valor precisa tomar é evitar “value traps”. São empresas negociadas abaixo da média de mercado, mas que possuem negócios decadentes, com resultados cada vez menores, o que justificaria o preço “baixo” atual.

Em resumo, ações de valor são aquelas negociadas abaixo do preço justo. Acredita-se que o mercado posteriormente irá reconhecer essa distorção e irá elevar seu preço.

Valor x Crescimento

A situação que se apresenta hoje no mercado é a de extrema valorização das empresas de crescimento em relação às empresas de valor. O gráfico abaixo mostra isso bem:

Ações de valor ou ações de crescimento
Relação entre ações de crescimento/valor no S&P 500

Esta é a relação de preço entre as empresas de crescimento e as empresas de valor dentro do S&P 500. Os níveis atuais são bem maiores que os vistos à época da bolha “ponto com”. As tendências, particularmente no setor de tecnologia, têm drenado boa parte do dinheiro dos investidores. Eles têm preferido essas novas e modernas empresas em detrimento das empresas tradicionais, que negociam produtos e serviços mais comuns.

Claro que é preciso um certo cuidado para comparar o que foi visto em 2000 com o que estamos vendo em 2020. Naquela época, as empresas de tecnologia eram apenas promessas e hoje muitas já estão consolidadas e gerando muito caixa.

Conclusão

Ações de valor e de crescimento possuem dinâmicas diferentes. É preciso avaliar cada uma delas e ver quais irão entregar os resultados que você deseja ou aquelas que são mais adequadas ao seu perfil. Focar excessivamente em valor pode fazer com que você perca oportunidades nas empresas de crescimento. Focar muito no crescimento pode trazer muito prejuízo se você pagar muito caro e o crescimento não vier. Combinar ambos os tipos na carteira pode ser uma maneira interessante de aproveitar o melhor de cada mundo.

É bom lembrar que não é todo mundo que segue fielmente essa divisão entre os tipos de ação. Ações de crescimento podem também ser consideradas ações de valor, quando se consegue estimar com maior precisão qual será o faturamento dela no futuro.

Quanto ao investimento de Peter Thiel no Facebook, aqueles 500 mil se tornaram cerca de 1 bilhão de dólares. Quase todas as ações que ele detinha foram vendidas no IPO e nos meses que se seguiram ao “lockdown” de ações dos acionistas mais antigos. Foi um investimento e tanto, mas se ele tivesse segurado tudo até hoje, ele teria não um, mas sim 12 bilhões de dólares.

Aviso: Declaro que não sou analista de valores mobiliários. As informações discutidas no artigo possuem propósito educacional e refletem única e exclusivamente meus estudos, pesquisas e opiniões. Não devem ser consideradas como recomendação de investimento.

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Este post tem 2 comentários

  1. Avatar
    Empresário.

    Rafael, bom dia.

    Excelente a sua abordagem, com muita propriedade e clareza. Obrigado. Parabéns. Severino S. Silva.

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