Aprenda com os fundos de doação das universidades americanas

Veja a estratégia adotada pelos gestores dos Endowments americanos

Este artigo foi publicado originalmente para os assinantes do Passaporte Internacional em 2020. Veja no final da página como se tornar um e ter acesso a conteúdos avançados sobre investimento.

Ao estudarmos sobre ações, é comum nos depararmos com análises e visões dos grandes gestores de fundos de investimento. Bill Ackman, Joel Greenblatt, Carl Icahn, Seth Klarman estão entre os mais conhecidos e são modelos para muita gente.

Entretanto, existe um outro grupo de excelentes gestores, que são responsáveis não por fundos de investimento, mas sim por fundos de doação de grandes universidades americanas, os chamados Endowments.

O recém falecido, David Swensen, gestor do Endowment de Yale, é o nome mais conhecido, mas os Endowments de outras universidades também têm gestores de destaque.

Basicamente, estes fundos são responsáveis por administrar o dinheiro doado para as universidades.

Quando observamos estes fundos de maneira mais detalhada, identificamos algumas características que podemos usar em nossos próprios investimentos.

O objetivo deste artigo é justamente mostra quais são elas.

“Para o doador, Endowment é uma soma de dinheiro dada a uma caridade com propósitos beneficentes, com apenas a ‘renda’ sendo gasta e o ‘principal’ sendo preservado.”

Destrinchando um Endowment

Quando dividimos o patrimônio de um Endowment, encontramos três tipos de “dinheiro”:

  1. Fundos restritos com propósito específico (bolsas, pesquisas, financiamentos específicos): são fundos que devem se manter na perpetuidade e deve gerar e distribuir rendimento para as finalidades propostas
  2. Fundos irrestritos: podem ser usados a critério da universidade
  3. Quasi-doação: doados para um propósito específico, como a construção de um prédio, hospital, etc

Ou seja, não é um dinheiro livre para o gestor investir no que quiser. É necessário separar os valores e dar um destino específico para cada um deles para alcançar os objetivos desejados. E são três os objetivos principais de um Endowment:

  1. Prover estabilidade ao financiar as operações do dia-a-dia da universidade
  2. Manter a independência da universidade (quanto mais dinheiro, maior a independência)
  3. Margem de excelência (conforme o fundo cresce, a renda gerada por ele também cresce e é possível investir mais na estrutura acadêmica e de pesquisa)

Para manter a estabilidade e financiar as operações diárias de uma universidade é necessário investir em ativos de baixo risco e baixa volatilidade. Requer uma distribuição de resultados constante e regular.

Para manter a independência e criar excelência é necessário buscar retornos com ativos mais arriscados e de crescimento. É necessário crescer o dinheiro acima da inflação para aumentar o poder de compra da universidade no futuro.

Aqui já vem um ensinamento importante. Primeiro é necessário você ter uma parte da carteira em ativos de baixo risco. É aquele dinheiro que você não pode perder. Em segundo lugar viria a parte da carteira onde você investiria em ativos mais arriscados buscando retorno. A proporção dependerá da sua propensão a risco e do quanto você depende deste patrimônio para viver. Você também pode separar o dinheiro com propósitos específicos, como uma viagem ou a compra de um imóvel.

Você percebe que um portfólio nesse modelo teria dois objetivos interessantes. O de curto prazo, que seria não perder dinheiro e o de longo prazo, que é a manutenção e elevação do poder de compra.

Existe até uma lista de princípios que os gestores devem seguir de forma a fazer uma administração responsável do fundo. É a chamada UPMIFA (Uniform Prudent Management of Institutional Funds Act). É recomendado que o gestor considere certos aspectos ao investir o dinheiro do fundo:

  • Condições econômicas gerais,
  • Efeitos da inflação e deflação,
  • Consequências fiscais,
  • O papel de cada investimento no portfólio geral,
  • Retorno total esperado de renda e valorização,
  • As necessidades da instituição e do fundo para fazer distribuições e preservar o capital

Algo que é bastante desaprovado sob esses princípios é o saldo do Endowment cair abaixo do volume original de doações. Ou seja, não se deve gastar mais ou arriscar demais de forma que o saldo do fundo fique abaixo do valor original.

Essa ideia vai ao encontro daquilo que eu prego, que é justamente começar a investir em ativos de baixo risco e só depois ir aumentando em ativos de risco, conforme o conhecimento e o patrimônio evoluem. Se você já começa no risco e perde, fica mais difícil recuperar. Mas se você já cria uma “gordura” de lucro, uma performance ruim no futuro é melhor tolerada.

A preservação de capital requer uma política de investimento que seja ajustada ao risco/retorno e não apenas para baixo risco/baixo retorno. Ela deve manter o valor original das doações, de preferência corrigido pela inflação. É importante conhecer formas de minimizar quedas, do que simplesmente ficar 100% comprado aguentando toda a volatilidade do mercado.

Nesse sentido, David Swensen foi um dos pioneiros a sair do padrão 60/40 (ações/renda fixa) e procurou retornos de ações, mas sem a volatilidade das ações, usando ativos descorrelacionados, como private equity, imóveis, etc.

Outro ponto curioso do modelo de gestão/alocação de um Endowment é que ele mostra claramente que os investimentos são feitos dentro de um contexto de gastos planejados. Em geral, o que se vê são estratégias que visam acumular, acumular, acumular, crescer, crescer, crescer. Ninguém pensa muito nos gastos. É até possível criar um paralelo do Endowment com alguém que já dependa da renda passiva para sobreviver.

Então, dentro desse contexto e de forma resumida temos o seguinte. Quem depende desse patrimônio para viver, não deve consumir mais do que 4 ou 5% ao ano. Em vista disso, a meta de retorno deve ser igual a inflação + gastos + crescimento (em torno de 8 a 10%).

Investindo como um Endowment

É possível separar em três pilares principais a gestão de um Endowment:

Alocação de ativos

É o pilar principal e aquele que será responsável pela maior parte dos retornos. Requer uma certa preferência pela renda variável como forma de manter o poder de compra.

A diversificação visa reduzir a volatilidade, com a adoção de hedges para inflação/deflação, otimização de liquidez e a mistura de várias estratégias, como crescimento, renda e momentum.

O rebalanceamento deve ser definido por regras e seguido periodicamente.

A diversificação não tem como objetivo direto o aumento do retorno, mas sim o aumento do retorno ajustado ao risco.

São exatamente estes princípios que estou procurando adotar na carteira Skin In The Game.

Market Timing

Market Timing é algo perigoso se mal utilizado. Como eu já falei em outro artigo, eu e muita gente passamos os últimos 4 anos achando que o mercado americano estava no topo.

A diferença agora é que “me armei” com alguns critérios técnicos para entender como o mercado está se comportando, se mais perto do topo ou mais perto do fundo. Os indicadores publicados mensalmente nos relatórios têm esse objetivo de orientar quanto a oportunidades de investimento tático de curto prazo, seja visando proteção ou uma busca de retorno adicional.

Seleção de ativos

Esta é uma parte importante e um dos focos principais do Passaporte Internacional. O que é mais plausível:

  1. Você, que além de ter uma profissão, precisa aprender sobre análise de empresas, saber escolher as posições, acompanhar cada uma delas, saber quando aumentá-las e quando as diminuir, sem ter a certeza de que todo o tempo gasto para isso trará algum resultado?
  2. Você gastar uma pequena fração do seu patrimônio para ter as análises e decisões de profissionais qualificados, que passam a vida analisando empresas e que tem um histórico comprovado de performance superior?

É aquele negócio: se você tem uma dor de dente, é mais barato pagar um dentista para resolver do que fazer uma faculdade de odontologia.

Acredito que com uma boa seleção de ativos é possível sim incrementar os resultados.

Diversificação

Tendo em vista tudo o que você leu até aqui, chegamos a conclusão que um Endowment deve ter um portfólio diversificado em classes de ativos diferentes, a saber:

  • Ações (americanas ou internacionais) = crescimento (40 a 60%)
  • Renda Fixa (alto grau ou baixo grau, longo prazo ou curto prazo) = proteção de deflação (5 a 25%)
  • Ativos Reais (commodities, imóveis, TIPS) = proteção contra inflação (5 a 15%)
  • Ativos de Retorno Absoluto/Diversificados (estratégia macro, valor relativo, royalties, fundos de renda, private equity) = redução da volatilidade (15 a 25%)

Conclusão

Uma abordagem do tipo Endowment é muito mais cautelosa do que uma abordagem voltada a renda variável. Além dela se comprometer com a distribuição de rendimento para consumo, ela precisa controlar a volatilidade para que não haja perdas sensíveis no curto prazo.

É uma abordagem de risco controlado, que busca retornos no longo prazo, sem se esquecer de proteger nos momentos mais difíceis do mercado.

Antes de terminar, não custa mostrar um exemplo. Esta era a alocação de ativos do Endowment de Harvard ao final de 2017:

fundos de doação

E este é o Portfólio que o David Swensen recomenda em seu livro “Unconventional Success: A Fundamental Approach to Personal Investment”:

  • 30% – Ações americanas
  • 20% – REITs
  • 15% – Ações de países desenvolvidos
  • 5% – Ações de países emergentes
  • 15% – US Treasury Bonds
  • 15% – US Treasury Inflation-Protected Securities (TIPS)

Espero que você tenha gostado do artigo e que ele lhe ajude a investir melhor.

Para ter acesso a este e outros artigos exclusivos, bem como uma seleção criteriosa dos melhores investimentos internacionais, não se esqueça de se tornar membro do Passaporte Internacional.

Endownment

Aviso: Declaro que não sou analista de valores mobiliários. As informações discutidas no artigo possuem propósito educacional e refletem única e exclusivamente meus estudos, pesquisas e opiniões. Não devem ser consideradas como recomendação de investimento.

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