As lições do coronavírus

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O que devemos aprender com a forte correção dos mercados acionários

Meu amigo, que semana foi essa? A medida que o coronavírus se espalhava pelo ocidente e os governos adotavam medidas para conter a pandemia, os mercados começaram a se dar conta de que o impacto na economia seria brutal. O movimento de aversão a risco, caracterizado pela venda de ações e demais ativos de renda variável e compra insana de treasuries americanos (flight to quality), escalou de tal forma que derreteu os índices acionários em todo o mundo.

O pior é que o mercado como um todo caiu. Mesmo Bonds e Ações Preferenciais, que nos Estados Unidos possuem muito menos volatilidade, despencaram. O medo da parada na economia refletir tanto na receita, quanto na capacidade de pagamento de dívidas por parte das empresas tomou grandes proporções.

Em 15 anos de mercado, jamais havia visto uma semana com tanta volatilidade. O que mais se assemelhou ao que estamos presenciando foi 2008, mas a queda veio de forma mais lenta, no decorrer de alguns meses, enquanto agora foi em questão de dias.

O fato é que a psicologia de um bull-market deixa os investidores inebriados e a vontade de pular no barco que está correndo mais rápido  faz com que muitos baixem a guarda e tomem mais riscos do que deveriam. Nesses últimos meses, quantas vezes não passou pela cabeça que poderíamos ter uma alocação maior em ações?

Como no momento da dor é que se aprende, resolvi enumerar alguns princípios que devem ser seguidos à risca por quem deseja surfar os mercados sem perder os cabelos e entupir as coronárias em momentos como esse.

Conheça os ativos em que você investe

Você sabe exatamente porque tem cada título ou ação em sua carteira? Acho que essa é a premissa básica que todo o investir deve seguir. Antes de comprar uma ação, conheça o negócio, os pontos positivos e negativos. Saiba dos riscos que a empresa corre, das situações em que ela se beneficia. Saiba a situação financeira dela, seus projetos futuros, etc. Detém algum título de renda fixa? Veja como está a geração de caixa da empresa, de quanto é a cobertura para o pagamento das dívidas, etc.

Ao conhecer bem aquilo em que você investe, você também será capaz de reconhecer os efeitos que imprevistos como esse podem gerar. Fechamento de fronteiras, por exemplo, prejudica empresas aéreas e demais ligadas ao turismo. Guerra no preço do petróleo prejudica as petrolíferas, mas pode ajudar as petroquímicas. Dólar alto favorece exportadores. Enfim, entendendo a dinâmica de cada uma, você conseguirá se preparar melhor.

Não invista em mais ativos de risco do que você pode suportar

Nos Estados Unidos existe um termo chamado Fear of Missing Out. É o medo de perder algo. No mercado é o medo de não estar participando da alta das ações ou do Bitcoin, por exemplo. Assim, conforme as ações valorizam, mais gente tende a entrar no mercado. Com o tempo, o nível de exposição à renda variável começa a ficar acima do que deveria e uma queda, como a que vimos, pode pegar todos de surpresa e levar ao pânico. Pânico leva à irracionalidade e a más decisões. É o famoso comprar no topo e vender no fundo. O resultado disso no longo prazo é destruidor.

Defina uma alocação de ativos e a respeite

Uma das maneiras mais simples de você evitar super-exposição a ativos é ter uma carteira equilibrada com diferentes classes de investimentos. Ações, Bonds, REITs, ETFs, Metais Preciosos, Investimentos alternativos, Commodities e etc estão à sua disposição para montar uma alocação de acordo com o seu conhecimento, seu horizonte de tempo e o seu perfil de risco.

A alocação clássica americana é dividida em duas classes, 60% em Ações e 40% em Bonds. A cada 6 ou 12 meses, analisa-se se ela mudou. Suponha que na hora da revisão, o investidor descubra que as Ações são 63% e os Bonds 37%. Neste caso, ele vende parte das ações e compra Bonds de forma a deixar 60/40 de novo.

Essa simples movimentação permite que se realize os lucros daquilo que mais subiu e que se coloque naquilo que subiu menos ou caiu. Esse reequilíbrio da carteira é bastante importante para o controle de risco.

Evite alavancagem

Os maiores prejuízos obtidos nessa crise foram dos fundos e investidores alavancados. No Brasil, houve um fundo fechado que perdeu todo o patrimônio que havia chegado a 5,6 bilhões de reais em janeiro. As informações atuais dão conta que ele estava alavancado em 5 vezes o patrimônio.

A alavancagem é uma maravilha quando se está ganhando, mas quando ela vira contra você, os prejuízos são exponenciais. Mesmo gestores experientes e dedicados sofrem prejuízos bilionários ou quebram com a alavancagem. O que dizer então do investidor comum que não tem o mesmo conhecimento e as mesmas ferramentas dos profissionais para lidar com isso?

Portanto, o investidor comum deve evitar a alavancagem, pois ela pode acabar com todo o seu patrimônio investido.

Tenha dinheiro fora do Brasil

Sei que é chover no molhado, mas em todas as crises o Dólar e o ouro sobem. Ao ter dinheiro fora do Brasil, mesmo que seja com Dólar americano na conta corrente, você está protegido dos movimentos abruptos do mercado brasileiro. Vamos olhar o histórico:

2008 (Crise Financeira): Bolsa: -41%, Dólar: +30%, Ouro: +37%

2015 (Dilma II): Bolsa: -13%, Dólar: +47%, Ouro: +31%

2020 (Coronavírus – até 13/3): Bolsa -28%, Dólar: +20%, Ouro: +21%

Mesmo que seja no Brasil, com fundos cambiais ou contratos de ouro na BM&F (OZ1D), você pode ter esses ativos para contrabalancear os investimentos em renda variável. Investindo fora, você não precisa pagar taxa de administração e nem impostos sobre os ganhos dos fundos locais e pode investir em ouro de forma muito mais barata.

Bom momento para comprar

Até outro dia, todos os educadores financeiros orientavam a sacar dinheiro da poupança e da renda fixa para alocar em ações. O Ibovespa estava próximo dos 120 mil pontos.

Bom, quem não seguiu as recomendações ou quem seguiu só um pouco, saiba que correções e crises são o melhor momento para comprar ações. É quando ninguém quer, quando as notícias são as piores possíveis, que os investidores conseguem encontrar as barganhas. Claro que nada impede que caia mais, claro que a crise pode se aprofundar e os resultados de curto prazo virem piores do que o esperado. O fato é que daqui 1 ou 2 anos, essa crise já terá passado.

Vamos supor uma estratégia de alocação de ativos no Brasil que tenha parte em ações, renda fixa, ouro e dólar. Neste momento os dois últimos estariam acima das metas e as ações estariam abaixo da meta. Respeitando obviamente a periodicidade dos rebalanceamentos, ou respeitando o tamanho do desvio em relação à meta de alocação, como no Portfólio Permanente., deve-se vender as duas classes com estão mais alocadas para a que está menos.

Lembrando que isso não é uma recomendação de investimento. É apenas uma constatação.  Tome suas próprias decisões.

Conclusão

No momento da alta todo mundo de não ter sido mais agressivo, na queda todo mundo gostaria de ter sido mais conservador. O fato é que uma alocação moderada e bem balanceada em diferentes classes de ativos é a única que permite à maioria dos investidores surfar bem os bons e maus momentos, sem precisar antever crises ou entrar em pânico quando elas vierem.

Para finalizar, não custa lembrar dos ensinamentos de Rocky Balboa:

Deixe-me dizer uma coisa que você já sabe. O mundo não é todo sol e arco-íris. É um lugar muito cruel e desagradável, e eu não me importo com o quão duro você seja, ele  baterá em você até deixá-lo de joelhos e assim você permanecerá, se deixar. Você, eu ou ninguém será capaz de bater tão forte quanto a vida. Mas não é o quão forte você bate. É sobre o quão duro você pode ser atingido e seguir em frente. O quanto você pode aguentar e continuar seguindo em frente. É assim que se ganha! Agora, se você sabe o que vale, saia e consiga o que vale. Mas você tem que estar disposto a sofrer, e não apontar os dedos dizendo que você não está onde deseja por causa dele, dela ou de alguém! Os covardes fazem isso e isso não é você! Você é melhor que isso!

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Este post tem 18 comentários

  1. Avatar
    decio cavalieri

    estou perdendo mais $ na nasdaq do que na B3

  2. Avatar
    marcos celio defina

    Até o ouro nos ultimos dias caiu em função de busca de liquidez e venda dos BCs pra cobrirem os subsidios. O BTC então, que era encarado por muitos como um porto seguro num crash, nem se fala. Essa crise e suas mudanças de paradigma vão ficar pra história.

    1. Raphael Monteiro

      Olá Marcos,

      Cada crise tem a sua história.

      O fato é que mais dia, menos dia, elas passam.

      Abçs!

    1. Raphael Monteiro

      Olá Bilionário,

      Sim, em crises sistêmicas pode acontecer de cair tudo mesmo. Entretanto, haverá ativos que cairão mais e outros menos. Atualmente, bonds investment grade caíram pouco e treasuries subiram. Então é possível rebalancear sim.

      No Brasil, o único que não cai é a Renda Fixa pós-fixada, como Tesouro Selic.

      Abçs!

  3. Avatar
    newton

    É verdade, diversificação é proteção. Você deve se preparar para a tempestade antes dela chegar.

  4. Avatar
    André

    Situação muito atípica, Rafael!

    Até a semana passada, ainda usei parte da reserva de liquidez (quase 1/3) e do excedente de ouro e dólar (uns 25% de valorização recente) para comprar ações e FIIs. Mas a situação ficou tão feia, que até o ouro começou a cair, com investidores buscando liquidez. Não lembro de ter visto isso antes. Hoje, por exemplo, não vendo mais o câmbio (desvalorizou também), juros longos subiram (títulos desvalorizaram) e tenho só 2/3 da reserva de liquidez em Selic. Muito a se pensar…

    Boa sorte a todos nós rsrs!

    Abraço!

    1. Raphael Monteiro

      Olá André,

      A pancada foi geral. Só pós-fixado se salvou.

      Ah, tem o dólar que valorizou muito. Muita gente esquece que ter dólar nessas horas pode fazer a diferença.

      Abçs!

  5. Avatar

    Existe um projeto de lei que, se aprovado no congresso, abre espaço ao brasileiro para ter conta corrente no Brasil em dolares

  6. Avatar
    Eu mesmo

    Rpz, posso estar cometendo um grande erro, mas desde a semana passada que estou entrando de cabeça no mercado. Hoje comprei mais.
    Resultado passado não é garantia de resultado futuro, mas se em 2 ou 3 anos os mercados se recuperarem, terei um yeld de 15 a 20% numa carteira bem diversificada.

  7. Avatar
    BPMILHÃO

    Vejo mais pessoas tentando achar o ativo que vai explodir e recuperar todas as perdas do que pessoas estudando as empresas, vendo como estão sendo impactadas e quando poderão dar bons lucros novamente. O setor de entretenimento é um que está sofrendo muito e os preços estão muito baixos. Quando isso tudo passar, ele recupera mas a pergunta é quanto as pessoas estão dispostas a correr o risco?

    1. Raphael Monteiro

      Olá BPM,

      Esse vírus não irá impedir a humanidade de frequentar shoppings, restaurantes e cinemas.

      Não duvido que tudo volte à normalidade ainda em 2020.

      Abçs!

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