Berkshire Hathaway

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A fantástica história e os últimos resultados da Berkshire Hathaway

[ATUALIZADO: 29/9/2019] A Berkshire Hathaway (NYSE:BRK.A e BRK.B), originalmente uma indústria têxtil da Nova Inglaterra, foi adquirida por Warren Buffett em 1965 e a partir daí foi se tornando uma das maiores holdings do mundo. Holding é o nome que se dá a um conglomerado de empresas sob o mesmo comando. Naquela época o valor de mercado da companhia era de U$18 milhões e o foco de Buffett era adquirir empresas no estilo Benjamin Graham, ou seja, fazer a avaliação contábil das companhias e adquirir aquelas negociadas abaixo do seu valor real.

Muita coisa mudou nesses últimos 54 anos. Ao conhecer Charlie Munger, Buffett percebeu que seria melhor comprar “empresas fantásticas a preços regulares do que empresas regulares a preços fantásticos”. Deste modo passou a focar nas empresas que possuíam um diferencial competitivo e que isso era determinante no sucesso da empresa frente aos concorrentes e contribuiria para o crescimento da empresa no futuro.

Como a Berkshire Hathaway é hoje?

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Empresas de capital aberto no portfólio da Berkshire Hathaway – Parte 1

Hoje, a Berkshire Hathaway é um conglomerado gigantesco, tendo um número grande de empresas de primeira linha em seu portfólio. É a  a 9ª maior empresa do mundo em vendas e a 6ª em valor de mercado. Veja na tabela ao lado as principais companhias de capital aberto que têm o maior investidor do mundo como acionista.

Suas subsidiárias atuam nos mais diferentes setores, com destaque para tecnologia, seguros, resseguros, transporte ferroviário, serviços de utilidade pública, energia, finanças, manufaturas, alimentos, serviços e varejo. A parte de tecnologia tem a Apple como maior posição disparada. A área de seguros é capitaneada pela Geico e General Re e a parte de finanças tem o Bank of America, Wells Fargo, JP Morgan, US Bancorp e American Express como maiores representantes. O setor de alimentos tem a Kraft-Heinz e a Coca-Cola, o varejo conta com o Costco e Amazon.

Uma surpresa nas posições da carteira da Berkshire foi a presença da brasileira Stone (NASDAQ:STNE). A empresa de pagamentos voltadas para pequenos negócios teve 11,3% de suas ações compradas no IPO de outubro de 2018.

O grande segredo da Berkshire Hathaway é não só identificar e comprar excelentes negócios, mas também deixar que os próprios executivos das empresas adquiridas cuidem do desenvolvimento da mesma. Se eles chegaram até aqui, por que não deixá-los tocar o barco pra frente? Essa falta de um controle superior faz com que haja na sede da empresa em Omaha, Nebraska, apenas 25 funcionários.

“Muitas pessoas acham que se você tivesse mais processos e mais regras padronizadas – checagens e duplas-checagens – você poderia ter o melhor resultado do mundo. Bem, a Berkshire não tem praticamente nenhum processo. Nós dificilmente tínhamos alguma auditoria interna até que nos forçaram a ter. Nós apenas tentamos operar numa rede sem fios formada por pessoas que merecidamente nós confiamos.” -Charlie Munger

O crescimento da empresa ao longo das décadas impressiona. O crescimento composto em lucro bruto por exemplo ficou entre 18 e 24% entre as décadas de 1980 e 2010 por exemplo. Isso reflete a competência da empresa em colocar o dinheiro para trabalhar, fazendo excelentes negócios. O último grande negócio fechado pela empresa foi a compra da fabricante de componentes da indústria aeroespacial Precision Castparts por U$32 bilhões, anunciada em agosto de 2015 e finalizada em janeiro de 2016. Esse é o negócio de maior valor já fechado por ela e mesmo assim se espera que o fluxo de caixa gerado pela companhia de Buffett pague esta aquisição em 20 meses.

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Empresas de capital aberto no portfólio da Berkshire Hathaway – Parte 2

Outra tacada brilhante foi a série de investimentos feita pela Berkshire durante a crise de 2008, quando foi ganancioso ao comprar ações de diversas empresas, enquanto os demais investidores amedrontados  vendiam. Além disso, passou a emprestar dinheiro a juros obscenos para o padrão americano, durante a crise de liquidez que afetou os Estados Unidos naquele ano. Veja só, nos dias que se seguiram à queda do Lehman Brothers, quando investidores vendiam as ações das empresas de investimentos a preço de banana, o “oráculo de Omaha” deu o bote fechando a compra de U$ 5 bilhões em ações preferenciais do Goldman Sachs (pagando 10% ao ano de juros), com garantias para no futuro adquirir mais  U$ 5 bilhões em ações comuns. Em 2011, o Goldman recomprou as ações preferenciais por U$ 5,6 bilhões, além de pagar um bônus de U$ 500 milhões a Buffett. Em 2013, ele exerceu suas garantias, mas ao invés de adquirir os U$ 5 bilhões em ações com um deságio de 25% sobre o valor negociado a mercado, acabou recebendo numa operação sem dinheiro U$ 2 bilhões em ações do Goldman. Estima-se que o lucro de Buffett nos investimentos realizados no “olho do furação” de 2008, tenha ultrapassado a marca de U$ 10 bilhões.

Outro segredo da empresa é a sua parte de seguros. Buffer aprendeu a usar o float recebido dos prêmios pagos pelos contratantes de seguro das suas empresas como um financiamento a juros zero. Na tabela abaixo veja quanto foi o float gerado em cada um dos respectivos anos:

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Ao invés de deixar esse dinheiro esperando os segurados acionarem o seguro, a Berkshire o usa para conseguir retornos superiores. Com o passar dos anos, a empresa foi adquirindo know-how para que essa utilização seja cada vez melhor.

Não é só isso. Outro segredo importante é como a Berkshire organiza seus negócios de compra e venda de ativos de modo a postergar ao máximo o pagamento de impostos. São dezenas de bilhões de dólares que a companhia economiza simplesmente por saber como evitar e adiar impostos indefinidamente. Há alguns anos, a Buffet negociou a troca de ações da Procter & Gamble pela Duracell, subsidiária da mesma. Caso ele vendesse os U$ 4,7 bilhões de dólares em ações, o imposto sobre ganho de capital incidiria sobre U$ 4 bilhões. Com a troca, ele adia o imposto para quando, um dia, ele vender a Duracell. Se é que ele irá vender. Além disso, a companhia recebe créditos fiscais de milhões de dólares anuais pela produção de energia renovável da Berkshire Energy.

Nada como uma boa gestão para criar soluções que atendam aos interesses dos acionistas.

Os últimos resultados

No dia 3 de agosto, a Berkshire Hathaway divulgou o resultado operacional referente ao segundo trimestre de 2019. Nele, uma surpresa bastante negativa, a queda de U$ 600 milhões no recebimento de seguros (de U$ 943 milhões para U$ 353 milhões) . Os investimentos aumentaram de U$1,14 bilhão para U$ 1,37 bilhão. O resultado das ferrovias, serviços de utilidade pública e energia subiram de U$1,89 bilhão para U$1,95 bilhão. O lucro operacional de Burlington Northern Santa Fe subiu de U$ 1,66 bilhão para U$ 1,77 bilhão. Os outros negócios permaneceram estáveis.

Ao final do primeiro semestre de 2019, o float de seguros atingiu U$ 125 bilhões, ou U$ 2 bilhões a mais que no final de 2018. A posição em caixa da Berkshire composta por dinheiro, equivalentes a dinheiro e treasuries do governo americano foi de U$ 119 bilhões, uma alta de 7,8% frente ao medido no final de 2018.

No primeiro semestre de 2019, a Berkshire Hathaway recomprou mais de U$ 2,1 bilhões em ações classe A e classe B. Algo que não é tão comum de aconteceu, mas é um procedimento que ela também resolveu aderir.

Um dado importante é que após o resultado, no dia 8 de agosto, a Kraft-Heinz Company, uma de suas maiores posições, divulgou uma baixa de valor em seus ativos intangíveis e multas que somaram U$ 1,2 bilhão.  Isso vem na esteira da baixa divulgada em fevereiro da ordem de U$ 15,4 bilhões. As ações que eram negociadas na cada de 47 dólares naquele mês chegaram ao final de setembro na casa de 27 dólares. Lembrando que o prejuízo da Berkshire com as ações da Kraft Heinz em 2018 foi de 11,3 bilhões. Este tem sido um dos piores investimentos da história da holding.

Em 2019, as ações da Berkshire não tem performado bem e está atrás do índice S&P 500:

Berkshire vs S&P500
Berkshire Hathaway Classe A (azul) vs S&P 500 (laranja)

 

Já quando estendemos a janela para 5 anos, os resultados são parecidos:

Berkshire vs S&P500
Berkshire Hathway Classe A (azul) vs S&P 500 (laranja)

 

Outro dado importante a se considerar quando falamos em longo prazo para a Berkshire é o seu valor patrimonial (Book Value). Avaliando uma janela bem longa, vemos que o preço da ação segue com bastante fidelidade a mesma curva do valor patrimonial e do valor patrimonial tangível.

Berkshire Hathaway
Evolução de preço da ação Classe B (azul), valor patrimonial por ação (vermelho) e valor patrimonial tangível por ação (laranja)

 

Se você prestou bastante atenção percebeu que a Berkshire Haathaway possui 2 tipos de ação, uma classe A e outra classe B. A classe A (BRK.A) é aquela original do início da empresa e que nunca sofreu desdobramento. Vale hoje cerca de 312 mil dólares cada uma. A classe B (BRK.B) foi criada em 1996 e na época seu preço correspondia a 1/30 do preço da ação classe A. A ideia era que pequenos investidores pudessem investir na empresa diretamente e não apenas por meio de fundos. Na época, a ação classe A valia cerca de 30 mil dólares. Dada a alta do preço da ação classe A, em 2010, a ação classe B foi desdobrada em 1/50. Hoje, então, a relação entre as duas é de 1/1500. A outra diferença é que a ação classe B possui menos direito a votos.

Conclusão

Berkshire Hathaway
Empresas de capital aberto no portfólio da Berkshire Hathaway – Parte 3

A Berkshire Hathaway é uma empresa que soube se reinventar com o passar das décadas, mas que ainda tem seus altos e baixos.

Sempre vai ficar o suspense sobre o que será da empresa quanto Buffett e Munger não puderem mais tocá-la, já que o primeiro está com 89 anos e o segundo com 95. Acho que ninguém trabalha até essa idade por obrigação, mas por puro prazer. O envolvendo dos dois com a empresa é tão intenso que provavelmente não viveriam sem ela. Este é um relacionamento como nos velhos tempos , “até que a morte nos separe”.

O principal cotado no momento para ser o número 1 no futuro é o presidente do grupo de resseguros da Berkshire, o executivo indiano Ajit Jain, que está na empresa desde 1986. O outro que também deverá encabeçar a empresa é Gregory Abel, responsável pela Berkshire Energy. Ambos foram promovidos ao corpo de diretores em 2018.

Ted Weschler e Todd Combs, dois dos principais gestores e com alguns anos de casa, também tem cada vez mais dinheiro para investir em suas ações favoritas. Ou seja, muito da responsabilidade já tem sido passado há um bom tempo.

Existe ainda uma preocupação quanto a saúde mental de Buffett e Munger que possam atrapalhar nas decisões de investimento. Entretanto, no momento não há nada de concreto a esse respeito. Existe um conselho com gente extremamente capacitada que constantemente reavalia os próximos passos da empresa.

Munger e BuffettUm outro fator que pode preocupar é o fato dos gestores que tocam os negócios da Berkshire, mesmo não sofrendo pressão ou interferência em seus trabalhos, continuarem trabalhando a todo vapor muito também em respeito a Buffett. Será que manterão o mesmo vigor e ímpeto quando ele partir?

Se há alguns anos eu achava que o relacionamento com o grupo 3G Capital de Jorge Paulo Lemann pudesse evoluir ao ponto de um brasileiro ser alçado ao comando da Berkshire Hathaway, hoje com o desastre da Kraft-Heinz e a má performance das ações da Anheuser Busch Inbev (NYSE:BUD) não sei se haverá novos negócios entre os grupos.

De qualquer forma, a dupla ainda continua em ação, a Berkshire Hathaway permanece fazendo investimentos e adquirindo empresas e os lucros continuam elevados. A companhia mantém uma enorme pilha de dinheiro capaz de superar qualquer crise e grande parte dos negócios são em setores não-cíclicos, mais conservadores. Se a empresa conseguirá manter a mesma lucratividade pelos próximos 50 anos é impossível dizer, mas ninguém pode duvidar da capacidade daqueles que porventura venham a assumir em breve o comando da empresa.

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Este post tem 26 comentários

  1. Avatar

    Belo artigo II!

    Esta está na minha carteira. É praticamente um excelente ETF essa empresa, alem da vantagem fiscal de nao pagar dividendos.

    Abraço

    Seria legal vc comentar os múltiplos atuais e históricos dela aqui.

    1. Investidor Internacional

      Olá Frugal,

      De semelhante ao ETF só o fato de ter várias empresas sob o mesmo “guarda-chuva”. De resto há muita capacidade administrativa e seleção criteriosa para compras e realização de negócios. Os negócios multibilionários com e sem a 3G mostram o que acontece quando gente extremamente competente se reúne. É coisa pra profissional de alto padrão.

      Quanto aos múltiplos, acrescentei uma imagem cheia de informações a esse respeito.

      Abçs!

      1. Avatar

        Aah agora ficou legal. Esse site gurufocus eh mt bom. Os multiplos estao mt bons a meu ver. bem melhores que a media do mercado nos EUA.

  2. Avatar

    Olá II, boa tarde.

    Excelente artigo.

    Aproveitando que vc falou de um grande conglomerado, vc poderia comentar também o que pensa sobre os Keiretsus japoneses?

    Aqui tem algumas informações:
    https://en.wikipedia.org/wiki/Keiretsu

    Entre eles podemos citar:
    Grupo Mitsui, Grupo Sumitomo, Grupo Mitsubish etc

    Abraços

    1. Investidor Internacional

      Olá Ricardo,

      Obrigado pelo comentário.

      Assim como eu falei das empresas de internet chinesas e um pouco dos bancos canadenses, darei mais espaço para empresas de fora dos EUA também.

      Essas daí estão no radar.

      Abçs!

      1. Avatar

        Obrigado pelo retorno II,

        Se vc puder, gostaria de saber se poderia incluir no radar também a Brookfield Asset Management (BAM) que é um colosso e outras empresas que trabalham de forma similar a ela.

        https://en.wikipedia.org/wiki/Brookfield_Asset_Management

        A Brookfield é uma empresa global organizada em diversas subsidiárias e com investimentos diretos em propriedades, infraestrutura, energia renovável e private equity.

        abraços

  3. Avatar

    Excelente matéria! Como esse homem sabe fazer negócios, ganhar e multiplicar o dinheiro com simplicidade. Quem está investindo nos seus papéis acho que deve estar bem contente com os retornos.

  4. Avatar

    Buffet é um gênio … será que a empresa conseguirá se manter sem seu gênio no comando? Como Steve Jobs é pra Apple …

  5. Avatar

    Quem quiser ter mais detalhes desta dupla brilhante, deve ler:
    A Bola de Neve: Warren Buffet e o Negócio da Vida
    Alice Schroeder
    Abç

  6. Avatar

    Sensacional ver o sucesso desse investidor, ainda mais num mercado de ações mais desenvolvido do que o Brasil.

    Parabéns pelo Site InvestidorInternacional

    1. Investidor Internacional

      Olá Investidor,

      É justamente por investir no mercado de ações mais desenvolvido que ele consegue esses resultados no longo prazo.

      Em breve escreverei mais a respeito.

      Abçs!

  7. Avatar

    Quem pode responder-me?
    Se a Berkshire não distribui dividendos, como remunera seus investidores?
    Apenas pela valorização das cotas?
    Se for assim, se o cidadão tem p.ex. uma ´[unica cota classe A tem que vendê-la integralmente para conseguir dinheiro?
    É isso?

    1. Investidor Internacional

      Olá Maria Paula,

      Sim. A única maneira de efetivamente lucrar com ela, é vendendo as ações.

      E quem precisou fazer isso não teve do que reclamar até hoje.

      Abçs!

  8. Avatar

    Mais uma vez você surpreendeu. Parabéns

  9. Avatar

    Espetacular reportagem !
    Parabéns!
    Deus Abençoe Abundantemente!

    Abraços,
    Levy August
    Blumenau | SC | Brasil

  10. Avatar

    Olá II,

    Você acha que esse caixa elevado é porque eles estão achando que vem uma crise nos proximos anos?

    Essas açoes categoria B possue tag-along?

    Att,
    Alexandre

    1. Raphael Monteiro

      Olá Alexandre,

      A Berkshire acumula muito caixa pois ela está sempre a procura de oportunidades. O que dá para dizer é que não estão encontrando oportunidades adequadas neste momento.

      Não me preocuparia com tag along. Aliás, nunca vi ninguém perguntando disso, seja aqui, seja nos EUA. A diferença das ações é o poder de voto e o preço desdobrado.

      Abçs!

  11. Avatar

    Numa perspectiva micro, eu tracei minha estratégia de investimento baseado no que faz a berkshire. Eu direciono meus aportes 100% para fii´s e tento comprar qualidade, ao invés de altos retornos. Os dividendos que recebo dos fii´s eu invisto em ações, também buscando qualidade.
    Com o mercado em tendência de alta, tem dado muito certo. Mas quero ver como essa minha estratégia irá funcionar quando o mercado virar. Como meu horizonte de investimento é longo, no mínimo mais 15 anos, vou seguir nessa estratégia.

    1. Raphael Monteiro

      Olá Investidor,

      Comprar qualidade pelo melhor preço possível é uma excelente estratégia.

      Também gosto muito de FIIs.

      Abçs!

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