Buy and forget

buy and forget

Não é piada. Esse portfólio realmente existe e pode dar bons resultados

Desde que eu comecei a investir existe aquela brincadeira de que “buy and hold” (comprar e manter) não significa “buy and forget” (comprar e esquecer). Acredito até que eu deva ter dito isso em algum artigo. Entretanto, nas minhas pesquisas por alocação de ativos e montagem de carteira, deparei-me justamente com uma estratégia que prega o famigerado “buy and forget”, ou, como ficou popularmente conhecido, o “buy and f…-se”.

O interessante é que a estratégia não adota os ETFs como pilares do portfólio, como era de se esperar em uma estratégia passiva, mas sim ações individuais mesmo. Portanto, este modelo não é exatamente uma alocação de ativos, mas sim uma atitude em relação aos investimentos que busca minimizar os custos e o tempo gasto para gerenciar a carteira.

The Coffee Can Portfolio

O portfólio da lata de café foi o termo criado por Robert Kirby em 1984 para definir a estratégia. Ele se baseou em um antigo comportamento das pessoas no Velho Oeste americano, onde era comum colocar seus pertences mais valiosos em uma lata de café e mantê-la sob o colchão.

Era uma estratégia de baixíssimo custo, pois não envolvia corretagem, taxas de administração ou quaisquer outros gastos, desde que você não estragasse o colchão. O sucesso do modelo dependia inteiramente da sabedoria e visão usadas para selecionar os objetos a serem colocados na lata de café.

Dessa forma, uma das vantagens do portfólio Coffee Can, como já dito, é minimizar custos.

“Você pode ganhar mais dinheiro sendo passivamente ativo do que ativamente passivo.” – Robert Kirby

Muitas pessoas que investem em ETFs acreditam que não estão pagando taxas ou custos de corretagem. Só que a taxa de administração é algo que deve ser levado em conta. Nos Estados Unidos, os maiores fundos passivos realmente são muito baratos, com taxas de até 0,07% ao ano, mas no Brasil as taxas costumam ser maiores. Além disso, existem custos de transação periódicos cobrados no rebalanceamento da carteira, quando o ETF compra e vende as ações.

Um outro objetivo deste modelo é minimizar a loucura de acompanhar a rentabilidade da carteira de forma mensal. Tudo bem que é importante acompanhar a evolução de um portfólio, mas dar importância em demasia aos resultados de curto prazo pode prejudicar os resultados de longo prazo.

A outra loucura relacionada à visão de curto prazo é com o acompanhamento dos resultados trimestrais das empresas. Comprar quando o resultado é bom e vender quando o resultado é ruim leva a um excesso de operações, custos maiores e atrapalha a visualização da empresa em um contexto mais amplo. Se olharmos para os últimos 10 anos, encontraremos alguns resultados trimestrais ruins nos demonstrativos da Amazon e da Apple, por exemplo, mas nem por isso as empresas deixaram de crescer e as ações de valorizarem.

Buy and forget na prática

Bom, já expliquei os objetivos, mas não expliquei exatamente como colocar em prática. Aliás, não vou explicar, vou deixar uma citação famosa do Warren Buffett, que descreve exatamente este modelo:

“Se você não está disposto a ser dono de uma ação por 10 anos, nem pense em ser dono dela por 10 minutos”. – Warren Buffett

A estratégia é exatamente essa. Você encontra as melhores ações que puder, compre-as e as deixe paradas na sua conta por anos, quiçá décadas. É simples de gerenciar e não haverá mais nenhum outro custo. Inclusive, você não precisa, e não deve, rebalancear a carteira. É pra esquecer mesmo.

O rebalanceamento prega que, à medida que seus investimentos de maior sucesso aumentem de valor,
você faça vendas parciais e transfira o capital para seus investimentos que evoluíram menos e que teoricamente ficaram mais baratos. Esse processo resulta em um fluxo de capital sendo transferido das empresas mais dinâmicas, que geralmente parecem sobrevalorizadas, para as empresas menos dinâmicas, que geralmente parecem subvalorizadas.

O autor é contra essa abordagem. Ele não acha que você deva vender as ações que subiram mais, pois essas realmente são as melhores ações. A história que ele conta, ocorrida na década de 50, é tão fantástica que irei reproduzi-la na íntegra:

O impacto potencial deste processo (de não rebalancear) me ocorreu de forma dramática como resultado da experiência de uma cliente. Seu marido, um advogado, tratava de seus assuntos financeiros e era nosso contato principal. Eu havia trabalhado com a cliente por cerca de dez anos, quando seu marido morreu de repente. Ela recebeu a herança e nos ligou para dizer que estaria adicionando seus títulos à carteira sob nossa gestão. Quando recebemos a lista de ativos, eu achei graça ao descobrir que secretamente ele estava pegando carona em nossas recomendações para o portfólio de sua esposa. Então, quando olhei para o valor total dos investimentos, fiquei pasmo. O marido aplicou um pequeno toque pessoal: ele nunca prestou atenção em nossas recomendações de venda. Ele simplesmente colocava cerca de U$ 5.000 em cada recomendação de compra. Em seguida, ele pegava os certificados das ações, guardava em seu cofre e esquecia.

Desnecessário dizer que ele tinha um portfólio estranho. Ele possuía uma série de pequenas posições com valores inferiores a U$ 2.000. Ele tinha várias grandes posições com valores superiores a U$ 100.000. Havia uma posição gigante, em particular, no valor de mais de U$ 800.000, que excedia o valor total do portfólio de sua esposa e veio de uma pequena compra em ações de uma empresa chamada Haloid. Isto mais tarde acabou sendo um zilhão de ações da Xerox. [Se não ficou claro, a  Haloid foi a empresa que mudou de nome para se tornou a Xerox]

buy and forget
Nos Estados Unidos é muito comum encontrarem antigos certificados de ações nos inventários

O desafio

Dito isso, o desafio então passa a ser encontrar as ações que poderiam compor um portfólio como esse.

Acredito que você deva começar com aquela pergunta famosa:

Se você fosse escolher uma ação e a bolsa fechasse por 10 anos, não sendo permitido vender, qual ação escolheria?

Para encontrar uma ação assim, você deve procurar nela as mesmas características que o indivíduo mais famoso que segue o modelo Coffee Can Portfolio procura. Quem é ele? Ele mesmo, Warren Buffett.

Ok, pode ser que ele não esqueça no sentido denotativo da palavra, mas quantas vezes o vemos ser acusado de teimosia por segurar ações por décadas, como ele faz com a Coca-Cola, American Express e Wells Fargo?

Eu já publiquei um artigo sobre as companhias maravilhosas do Buffet e as 10 características principais delas são:

  1. Vantagens competitivas fortes e duradouras
  2. Liderança de Mercado
  3. Poder de precificação
  4. Presença em um mercado favorável
  5. Presença de múltiplas fontes de receita
  6. Resiliência a avanços tecnológicos
  7. Forte geração de caixa
  8. Rentabilidade superior
  9. Crescimento superior da receita
  10. Sólida posição financeira

Basicamente você escolherá as maiores e melhores empresas e que são líderes de mercado.

Você precisa diversificar em empresas de setores diferentes. Como vimos, algumas ações irão mal e você precisará aceitar isso. As melhores ações compensarão essas perdas. A matemática lhe ajuda, pois a perda será sempre limitada a 100% da posição, mas os ganhos serão ilimitados.

Essa estratégia só deve ser usada para investir o dinheiro que você não precisará gastar pelos próximos 10-20 anos, não importa o que aconteça. Isso significa que você necessariamente precisa ter investimentos em renda fixa e caixa para servirem como reserva de emergência. Sua lata de café deve permanecer intocável.

O outro lado da moeda

Como toda estratégia, ela não é perfeita. Primeiro que você precisará de uma boa seleção de ações. Não é possível aplicar o buy and forget com ações duvidosas. Elas precisam ser de primeira linha. Se você não for capaz de escolher, procure o seu analista preferido. Talvez ele possa lhe ajudar.

Segundo que é cada vez mais difícil manter-se convicto e permanecer como “sócio” de longo prazo em bons negócios, particularmente quando a fase da empresa não é boa. E olha que mesmo empresas fora de série como a Microsoft são capazes de passar uma década estagnadas.

Terceiro que sempre surgirá uma empresa da moda e haverá o desejo de vender uma posição antiga e comprar uma nova. Você deve resistir ao canto da sereia, ou no mínimo acrescentar a ação nova, sem vender as antigas.

Importante também lembrar que a estratégia foi elaborada na década de 80 por meio da observação das décadas anteriores. Naquele tempo, as mudanças tecnológicas e de mercado eram mais lentas. A Xerox foi uma potência por muito tempo, mas depois entrou em decadência. As taxas de corretagem antigamente eram maiores. Então uma estratégia de redução de custos e baixa troca de posições fazia muito mais sentido.

Aliás, a corretagem gratuita, por melhor que pareça, pode ser inimiga do investidor. Ela tira o custo imediato de decisões precipitadas e “estimula” o giro da carteira além do necessário. Perceba como é fácil evitar o giro quando as suas ações estão em certificados guardados em um cofre do que quando estão a um clique de serem vendidas no home-broker.

Conclusão

Meu objetivo com esse texto é mostrar que é possível tirar algumas lições de estratégias que pareçam insanas à princípio, como o buy and forget. A disciplina, a visão de longo prazo e o investimento fiel em grandes negócios têm sido substituídos pelo imediatismo das rentabilidades mensais, pela divulgação de resultados trimestrais e pelo prazer de investir nas ações que estão na moda.

Sempre é bom ler as histórias de investidores antigos, pois foram eles que por meio da persistência e de uma simplicidade até inocente construíram as maiores fortunas.

Aviso: Declaro que não sou analista de valores mobiliários. As informações discutidas no artigo possuem propósito educacional e refletem única e exclusivamente meus estudos, pesquisas e opiniões. Não devem ser consideradas como recomendação de investimento.

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Este post tem 8 comentários

  1. Avatar
    Laura

    Muito bom, II!
    Atualmente, parece que queremos sempre encontrar o melhor negócio “do dia”. Chega a ser estressante cuidar e acompanhar nossos investimentos, gerando-se muita ansiedade. E, muitas vezes, para resultados não muito superiores ao buy and hold ou buy and forget.
    Obrigada por partilhar suas reflexões!
    Laura

    1. Raphael Monteiro

      Olá Laura,

      Essa ansiedade é bastante prejudicial. A ideia é justamente gerar paz e tranquilidade sem se deixar levar pela variação de preço das ações no curto prazo.

      Não podemos esquecer que investimos em negócios e não apenas em ações.

      Abçs!

  2. Avatar
    YNVEST

    Tem a história daquele zelador de posto de gasolina americano que faleceu e descobriram que ele era milionário. Ele só comprava ações de empresas conhecidas e que pagassem dividendos. Nessa brincadeira ele fez uma fortuna de 8 milhões de dol.

    1. Raphael Monteiro

      Olá YNVEST,

      Sim. Nos EUA está cheio de histórias assim.

      Antigamente era mais difícil e caro vender as ações e o pessoal tinha mais visão de longo prazo.

      O home-broker tornou as pessoas mais imediatistas e com desejo de trader.

      Abçs!

  3. Avatar
    Manoel

    Boa noite Raphael obrigado pelo artigo, estou estudando o assunto, inclusive fiz uma assinatura de uma casa de análise dos USA, mas é complicado, fiquei encantado com aquela mãozinha escrevendo e mostrando as vantagens em investir no exterior e em dólar que você mostrava em um artigo, abri uma conta em maio deste ano e comecei a investir no mercado americano, é um mercado enorme e parece menos volátil.

    1. Raphael Monteiro

      Olá Manoel,

      O mercado americano é enorme e se você não tiver um mapa, pode se perder no meio de tanta opção.

      Se precisar de alguma ajuda, é só entrar em contato.

      Abçs!

  4. Avatar
    Isabel Oliveira

    Ola Rafael, tenho tido vontade de aportar todas os meus proximos investimentos no mercado externo, mas ainda não me sinto muito a vontade.O que voce teria a dizer. Obrigada. Abraço

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