Carteira Balanceada: Estudo retrospectivo de 10 anos

carteira balanceada

E se você tivesse montado uma carteira de ativos descorrelacionados nos últimos 10 anos?

Dois dos desafios de se montar uma carteira de investimentos são adequá-la ao seu perfil de risco e gerenciá-la com o passar dos anos. O investidor comum geralmente fica na dúvida do que comprar não só quando monta a carteira, mas também quando faz os aportes periódicos.

A ideia de ter uma carteira auto-balanceável e que dê o mínimo de trabalho possível para mantê-la provavelmente foi a ideia inicial que originou os conhecidos “robo-advisors”. São aqueles sistemas automatizados que gerenciam a carteira de acordo com critérios pré-definidos, ainda pouco usados no Brasil.

E se fosse possível você criar uma carteira equilibrada e que ocupasse o menor tempo possível, sendo necessário apenas um rebalanceamento anual?

O que é uma carteira balanceada?

Uma carteira balanceada é aquela que costuma dar pesos iguais ou riscos iguais para ativos diferentes e de preferência não correlacionados ou com correlação negativa. Correlação negativa é a observação de que quando um ativo valoriza, o outro desvaloriza.

Para este estudo, decidi colocar pesos iguais em cada classe de ativo, dado que para auferir riscos eu precisaria de ferramentas que não tenho disponíveis para o Brasil.

É uma carteira que eu pensei em montar há alguns anos (com uma ou outra variação), mas que acabei não colocando em prática. Decidi revisitar a ideia e trabalhá-la de forma a descobrir como ela teria se comportado.

Um exemplo clássico de carteira balanceada é o Portfólio Permanente. Ele divide a alocação de ativos da seguinte forma:

  • Ações: 25%
  • Renda Fixa de Longo Prazo: 25%
  • Ouro: 25%
  • Caixa: 25%

Outra carteira equilibra bastante conhecida é o Golden Butterfly, que é dividido assim:

  • Ações de Mercado Total: 20%
  • Ações Small-Cap Value: 20%
  • Bonds de Longo Prazo 20%
  • Bonds de Curto Prazo: 20%
  • Ouro: 20%

A terceira carteira é balanceada em termos de risco e é baseada no All-Weather Portfolio do Ray Dalio:

  • Ações de Mercado Total: 30%
  • Bonds de Longo Prazo: 40%
  • Bonds Intermediários: 15%
  • Commodities: 7,5%
  • Ouro: 7,5%

A ideia de uma carteira balanceada e com ativos descorrelacionados não é tanto o que ela pode render, mas sim, o quanto ela irá te proteger nos piores momentos do mercado.

A correlação negativa dos ativos é justamente para o ganho de um compensar a perda de outro, gerando menor volatilidade. O segredo está nos rebalanceamentos. Você sempre venderá o que subiu mais e comprará o que caiu mais. É a essência do comprar barato e vender caro.

Esse modelo reduz o “drawdown” (queda) da carteira e permite suportar melhor mesmo momentos de alta volatilidade.

Carteira balanceada no Brasil?

No Brasil, historicamente temos uma correlação negativa entre o mercado acionário e o dólar. Em geral, quando a Bolsa cai, o dólar  sobe e vice-versa. O mesmo pode ser observado em relação ao mercado de ações e o CDI.

Decidi dividir a carteira em 3 partes iguais:

  • Renda Variável
  • Renda Fixa
  • “Deu ruim”

Renda variável será composta igualmente por ações e fundos de investimento imobiliário.

Renda fixa será composta em partes iguais por títulos públicos prefixados, pós-fixados e atrelados a inflação.

“Deu ruim” será composto em partes iguais por dólar americano e ouro.

A renda variável irá se beneficiar dos voos de galinha ocasionais do Brasil. A renda fixa será equilibrada por estar atrelada aos 3 principais indicadores e tenderá a sofrer menos com as variações nas taxas de juros ou inflação. “Deu ruim” irá se beneficiar dos “Joesley Days” e toda a balbúrdia político-econômica em que vivemos.

Em resumo: 1/3 é voltado para o Brasil dar certo, 1/3 para o Brasil dar errado e 1/3 para receber juros de renda fixa.

Dito isso, a alocação definitiva para este estudo será a seguinte com seus respectivos pesos:

  • Ações (Ibovespa): 16,5
  • Fundo Imobiliário (IFIX): 16,5
  • Renda Fixa pós-fixada (CDI): 11
  • Renda Fixa prefixada (IRF-M): 11
  • Renda Fixa inflação (IMA-B): 11
  • Dólar (Dólar americano): 16,5
  • Ouro (OZ1D): 16,5

Entre parênteses, você encontra o ativo que representa aquela classe. Para quem não sabe, IRF-M é o índice para uma cesta de títulos públicos prefixados e IMA-B é uma cesta de títulos públicos atrelados a inflação.

Como são 3 classes de ativos, vou partir de uma base 99 ao invés de base 100 para facilitar os cálculos.

O ano escolhido para começar o estudo foi 2011, pois é o primeiro ano completo de IFIX. O estudo termina no final de maio de 2020.

A origem dos dados são os sites da B3, da ANBIMA, da Infomoney, da Investing e demais fontes, à princípio, confiáveis.

A regra é rebalancear todo final de ano aos pesos iniciais definidos. Não há aportes extras.

O resultado da carteira balanceada

O resultado ano após ano pode ser visto na tabela abaixo:

Carteira Balanceada

Acredito que o resultado foi bastante robusto. Nestes 10 anos a pior performance foi de -5,1% em 2013. E olha que 2013 foi um péssimo ano para a Bolsa, para o IFIX, para o Ouro e até para a Renda Fixa. Foi o ano em que as taxas de juros começaram a subir no Brasil.

O segundo pior ano está sendo 2020, com +6,6%. Sim, mesmo com toda a tragédia, este portfólio estaria positivo no ano. Tudo graças as alocações em Ouro e Dólar, que estão lá para isso mesmo.

Na tabela abaixo está o resultado total individualizado. Eu considerei o ano de 2020 como um período completo para fins de CAGR. Compound Annual Growth Rate, em português Taxa Composta Anual de Crescimento, estima quanto seria o retorno anual se todos os anos fossem iguais.

Carteira balanceada

Como esperado, a carteira rendeu a média dos ativos, só que com menor volatilidade e menor drawdown, exceto pelo IRF-M. O índice de prefixados rendeu um pouco a mais, só que não apresentou nenhum retorno negativo. Importante lembrar que isso só aconteceu, porque nesta década tivemos uma queda bastante acentuada de juros. Pela marcação a mercado, queda de juros implica valorização dos títulos.

Limitações e soluções

O estudo obviamente possui algumas limitações. Não está computado o custo do imposto de renda nos rebalanceamentos anuais. Não existe nenhum fundo imobiliário que replique o IFIX. O contrato de ouro tem baixa liquidez e o mínimo para negociar é bastante alto (hoje cada contrato de OZ1D sai em torno de 70 mil reais). Houve um tempo em que era 25 mil.

Nesse meio tempo, algumas soluções foram criadas para se poder alocar da forma como descrito no estudo. Veja como você poderia montar hoje uma carteira como essa:

  • Ações: ETF BOVA11, fundo de ações ou carteira própria
  • FII: Cartéria própria ou fundo de fundos
  • Renda Fixa Pós: Tesouro Selic ou Fundos DI com taxa zero
  • Renda Fixa Pré: Tesouro Prefixado ou ETF IRFM11
  • Renda Fixa Inflação: Tesouro IPCA ou ETF IMAB11
  • Dólar: Fundos cambiais
  • Ouro: OZ1D ou fundos de investimento em ouro

O Banco Inter recentemente lançou dois índices para fundos imobiliários, um para fundos de CRI e outro para fundos de imóveis físicos. Se lançarem dois fundos de fundos passivos, que sigam esses índices, seria uma ótima solução para ocupar a alocação em FIIs.

Conclusão

Dividir a carteira em ativos descorrelacionados ou com correlação negativa é uma maneira simples de controlar riscos, reduzir as quedas e poupar tempo na hora de rebalancear. É a própria definição de uma carteira balanceada. Pode não ter os rendimentos mais astronômicos, mas lhe protegerá quando você mais precisar.

Se tivesse feito estudo similar na década de 2000, acredito que a carteira estivesse na média também, com exceção de que a Bolsa e os FIIs teriam contribuído positivamente e o dólar e ouro negativamente. Caso um novo ciclo econômico recomece na década de 20, é possível que tenhamos este cenário.

E você? Possui todas essas classes de ativos em sua carteira? Costuma ter uma alocação de ativos pré-determinada? Deixe sua resposta nos comentários.

Aviso: Declaro que não sou analista de valores mobiliários. As informações discutidas no artigo possuem propósito educacional e refletem única e exclusivamente meus estudos, pesquisas e opiniões. Não devem ser consideradas como recomendação de investimento.

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Este post tem 16 comentários

  1. Avatar

    Olá Raphael, obrigado por dedicar seu tempo e compartilhar esse interessante estudo. Ainda são poucos os estudos legais assim aplicados ao mercado nacional.
    Gostaria de dar uma sugestão de modificação: o OZ1D acompanha a flutuação cambial. Assim, independente do preço do ouro em si, ele sobe ou desce com a variação do dólar. Considerando que 33% da carteira é só de dólar e ouro COM variação cambial, acho que o ativo “dólar” fica com um peso maior que os demais na carteira.
    O que acha de revisar para que o ativo ouro seja sem a variação cambial? Você pode seguir algum fundo sem variação ou mesmo pegar só a variação em dólar da commodity ouro, assim creio que o objetivo de diversificação seria ainda mais atingido.
    Abraço,

    1. Raphael Monteiro

      Olá Aposente Cedo,

      O dólar é uma commodity. Toda commodity tem um valor fixo no mundo. 1 grama de ouro vale o mesmo em qualquer lugar do mundo, independente da moeda.

      Não vejo sentido em fazer qualquer tipo de hedge cambial no investimento em ouro.

      Abçs!

  2. Avatar
    1

    Parabéns por mais um excelente artigo.
    Como impactaria nos resultados finais a consideração de proventos vindos da renda variável?

      1. Avatar
        Daniel Horta

        Estimado Raphael.
        Se é levado em conta os pagamentos de proventos no Ibov, isso me leva a pensar que isso seria correspondente ao reinvestimento desses proventos. Por outro lado isso iria alterar a quantidade de ações que compõe o índice e acredito que isso não ocorra.
        Desculpe meu desconhecimento, mas se você puder responder ou indicar alguma fonte que esclareça como os proventos impactam no valor do índice e qual a diferença disso com o efeito dos juros compostos causado pelo reinvestimento. Fiquei interessado em saber como as comparações que você fez nesse artigo ficariam levando em conta esse efeito.

        1. Raphael Monteiro

          Olá Daniel,

          O Ibovespa é um índice que leva em conta a reaplicação dos dividendos. Então isso já está embutido no próprio índice.

          Abçs!

  3. Avatar
    MAGUINES

    Boa Noite. Raphael. Otima materia, estou pesquisando sobre alocação de ativos (% de carterias) e o seu artigo veio ajudar em boa hora. Suas informações sobre os etfs que replicam o índices de renda fixa e variável não saiam que existiam. Li o e-book de alocação de ativos do henrique carvalho e vai nesta linha que voce informou no seu artigo. Parabens. Você poderia escrever a respeito de investimentos de renda fixa nos eua (bonds, etf e moedas) será se compensa investir lá fora em renda fixa versus as rendas fixas aqui no brasil? o log do mente investidora escreveu a respeito disso.

  4. Avatar
    Manoel Graciano

    Boa Noite Raphael,
    Eu sigo algo semelhante, mais é meio de orelha, tenho alguns ETFs, ações de grande empresas, fundo exposto em ouro e dólar, ouro, prata, platina e paládio, tudo muito recente.

  5. Avatar
    joao jose

    ok manual muito bem elaborado obrigado

  6. Avatar
    André

    Olá Raphael!

    Perdi esse seu post em algum momento. Realmente, é o que desejo fazer lá no blog mesmo.

    Como você viu, eu usei um backtest somente do primeiro semestre de 2020 porque não saberia fazer, sem muitas complicações, um backtest mais longo com o critério de balanceamento que defini. Balancear somente uma vez ao ano, acho demasiadamente extenso. A ideia é rebalancear por desvios percentuais, aproveitando um pouco da volatilidade e descorrelacionamentos dos ativos. Ter o primeiro semestre de 2020 me permitirá um acompanhamento mais ativo com as demais carteiras e o fundo de fundos acompanhado no blog.

    Mas os resultados são interessantes mesmo. Como você deve ter lido por lá, eu nem almejo que os resultados sejam melhores do que minha carteira ativa. Pretendo apenas que eles sejam suficientemente melhores do que minha TNRP. O que pretendo mesmo, é ter mais tempo e sair da vida de gestor de papéis individuais, para me dedicar ao novo herdeiro e outros projetos.

    Como ambos comentaram, ainda devo fazer modificações na carteira, principalmente na área de FIIs, com novos fundos que estão vindo por aí. Espero que haja um fundo de tijolos somente (Inter) e um fundo apenas de recebíveis (talvez Vítreo?). Seriam duas adições interessantes para a carteira. Nesse caso, tiraria os FoFs e teríamos uma chapa puro-sangue de fundos de índices.

    Parabéns pelo estudo! Seus comentários por lá sempre serão muito agregadores.

    Abraço!

    1. Raphael Monteiro

      Olá André,

      O Banco Inter vai lançar um ETF de FIIs de papel. O índice eles já têm.

      Também estou organizando meus investimentos brasileiros para gastar menos tempo no acompanhamento.

      Nos EUA será mais ativo, mas com uma estratégia Core & Satellite que aloca parte em ETFs.

      Estou numa fase de procurar bons rendimentos, menos drawdown e ainda economizar tempo.

      Abçs!

  7. Avatar
    Danilo

    Parabéns pelo Post.
    Aprendi muito com ele. Já me inscrevi no seu blog e estou maratonando as publicações rs.
    Obrigado.
    Abraço!

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