ESG: O que é? Vale a pena investir?

ESG

ESG são três letrinhas que estão na moda, mas nem tudo é o que parece ser

Environmental, Social and Corporate Governance, ou em português, Ambiental, Social e Governança Corporativa. Nestes últimos anos, eles se tornaram três importantes fatores a serem levados em conta no processo decisório para investimentos. Cada vez mais, gestores e investidores estão filtrando empresas (e mesmo títulos de renda fixa) não só pelos dados financeiros como lucro, margens, receita e endividamento, mas também por critérios ambientais, sociais e de governança.

São critérios que vão desde o comportamento da empresa no que se refere às emissões de CO2, como ela trata os rejeitos industriais, como são as políticas de saúde e segurança em relação aos funcionários, como é a cultura corporativa, entre outros.

Esses fatores agora fazem parte da análise de fundos de investimentos que possuem mais de 20 trilhões de dólares de patrimônio. Isso significa que para que o fundo invista em determinados ação ou título, ela deve preencher critérios de ESG.

Entretanto, pouca gente sabe como o ESG surgiu e quais as suas implicações hoje. É o que você vai descobrir agora.

Qual a origem do ESG?

Eu li uma série de artigos nacionais e internacionais sobre ESG como material de pesquisa. Sabe quantos deles falavam sobre a origem do termo? Apenas um.

Isso vai em linha com algo que eu tenho percebido há algum tempo. Muita gente gosta de discutir determinada ideia e até criam dezenas de argumentos contra ou a favor dela, mas ninguém busca saber sua origem. Ideias não são criadas por geração espontânea. Elas surgem da cabeça de alguém. Saber de quem diz muito sobre ela.

Pois bem. A história do ESG começou na ONU, em 2004, quando o então secretário-geral Kofi Annan convocou CEOs de grandes instituições financeiras a participarem de uma iniciativa em conjunto. O objetivo era integrar o ESG no mercado de capitais. Desse encontro foi produzido o material “Who Care Wins”  , cujo próprio subtítulo diz: Recomendações para a indústria financeira para melhor integrar questões ambientais, sociais e de governança na análise, gestão de recursos e corretoras de valores.

No relatório é possível ver quais as principais questões de ESG que deveriam ser abordadas:

Problemas ambientais:

  • Mudanças climáticas e riscos relacionados
  • A necessidade de reduzir as emissões tóxicas e resíduos
  • Nova regulamentação ampliando os limites da responsabilidade ambiental no que diz respeito a produtos e serviços
  • Aumentar a pressão da sociedade civil para melhorar o desempenho, transparência e responsabilidade, levando a riscos de reputação se não gerenciados corretamente
  • Mercados emergentes para serviços ambientais e produtos ecológicos

Problemas sociais:

  • Saúde e segurança no local de trabalho
  • Relações Comunitárias
  • Questões de direitos humanos na empresa e fornecedores / instalações dos contratados
  • Relações com o governo e a comunidade no contexto das operações em países em desenvolvimento
  • Aumentar a pressão da sociedade civil para melhorar o desempenho, transparência e responsabilidade, levando a riscos de reputação se não gerenciado corretamente

Questões de governança corporativa:

  • Estrutura e responsabilidade do conselho
  • Práticas de contabilidade e divulgação
  • Estrutura do comitê de auditoria e independência dos auditores
  • Remuneração executiva
  • Gestão de questões de corrupção e suborno

Pois bem. Existem algumas entidades e grupos ligados a ONU que fazem pesquisas e relatórios relacionados a ESG. Um deles é o PRI, Principles for Responsible Investing, do qual muitas instituições financeiras brasileiras são signatárias. Esta entidade lista 6 princípios para o investimento responsável:

  1. Vamos incorporar questões ESG na análise de investimentos e nos processos de tomada de decisão
  2. Seremos proprietários ativos e incorporaremos as questões ESG em nossas políticas e práticas de propriedade
  3. Buscaremos divulgação apropriada sobre questões ESG pelas entidades nas quais investimos
  4. Promoveremos a aceitação e implementação dos princípios na indústria de investimentos
  5. Trabalharemos juntos para aumentar nossa eficácia na implementação dos princípios
  6. Cada um de nós apresentará um relatório sobre nossas atividades e progresso na implementação dos princípios

E quem está por trás do PRI?

Al Gore - ESG

Ele mesmo. Al Gore. O magnata da sustentabilidade.

Ele também é fundador e atual Chairman da Generation Investment Management, uma empresa de gestão de recursos focada em investimentos sustentáveis, que coincidentemente foi criada também em 2004. 

Olha que ideia interessante. Você cria uma moda cercada de boas intenções, abre uma empresa de gestão de recursos que investe especificamente nesta moda. Aí você espalha essas ideias pelo mundo por meio de organizações internacionais. Em alguns anos trilhões de dólares de gestores do mundo inteiro começam a investir em algo que você chegou antes. Jogada de mestre.

Basta você olhar para o meu artigo sobre Os 5 melhores ETFs de 2020 para perceber que a energia renovável foi o tema mais lucrativo do ano passado. Imagine agora com um governo Biden quanto de dinheiro será direcionado para essas empresas, seja por meio de benefícios fiscais (que já acontece), seja por acesso a financiamento. 

Sem falar que energia renovável também traz impactos ambientais. Só que por não serem tão utilizadas quanto o petróleo ainda não são tão perceptíveis. Parques eólicos são responsáveis pela morte de milhares de pássaros todos os anos. As baterias dos carros elétricos possuem uma vida útil de cerca de 8 anos e seu descarte é bem problemático pelos resíduos químicos. Os painéis solares têm vida útil  de 25 anos e seus vidros não são passíveis de reciclagem dado a quantidade de químicos inseridos. Esqueça essa ideia de que se “não sai fumaça” é limpo. Tudo tem impacto. 

Por que isso é um problema?

Agora que você já sabe da origem da sigla e das aparentes segundas intenções, vou dizer porque ESG pode ser um grande problema.

Quando avaliamos friamente os problemas ambientais, sociais e de governança que você leu acima, é fácil perceber que algumas medidas são extremamente óbvias. Governança corporativa é algo já bastante discutido. Há diversos casos conhecidos de empresas brasileiras que desrespeitaram os investidores minoritários em diversas ocasiões e com o mínimo de informação é possível evitar esse tipo de problema.

A questão ambiental é algo feito a nível local e já existem leis específicas quanto a destinação de rejeitos tóxicos, por exemplo. Mesmo o uso de certos produtos químicos na fabricação de produtos já é regulamentado.

Tratamento de funcionários é algo que se a empresa não fizer bem perderá para a concorrência. Inclusive já existe muita gente que avalia as “melhores empresas para trabalhar”. Sem falar na enorme burocracia imposta pelas leis trabalhistas.

Ou seja, não existiria um motivo plausível para tentar impor às empresas algo que já é feito de rotina pela legislação. A não ser é claro que o objetivo seja mesmo direcionar e bloquear recursos para empresas que não seguirem as regras de ESG.  

É simples de entender. Muitos executivos de empresas se sentirão obrigados a adotar medidas ESG para ter acesso a financiamentos e para que os fundos comprem as suas ações. Muitos executivos são remunerados pela valorização delas e quanto mais investidores e fundos investirem melhor.

Expandindo um pouco o raciocínio, existe o agravamente da subjetividade e da deformação de alguns critérios usados para analisar cada item. No mundo politicamente correto, já existe movimento para incluir temas irrelevantes como diversidade e gênero como critérios de ESG. Forçar a adoção de “cotas” para determinado sexo e raça acima em cargos executivos é algo que vai totalmente contra a promoção por mérito e pode inclusive prejudicar a empresa.

Não duvido que em pouco tempo já haja movimentos de boicote a empresas que não adotarem essas medidas. Conforme você leu acima, eles nem escondem algumas intenções: “Aumentar a pressão da sociedade civil”. Portanto, não ache que ESG é algo a ser levado como “adote quem quiser”. Haverá pressão para adotá-la sob a pena de perda de reputação, boicote e exclusão pelos grandes fundos de investimento internacionais.

Portanto, é uma interferência externa na empresa que gera mais custos e burocracia e pode tirar o foco daquilo que é central para seus negócios. E dado que são critérios muitas vezes subjetivos e que dão margem a dúvida, podem ser usados propositalmente para beneficiar algumas empresas e prejudicar outras.

Vale a pena investir?

Bom, vamos a resposta que talvez você esteja esperando. Ela se encontra na imagem abaixo que mostra os fluxos mensais de aplicações nos fundos ESG mensalmente até meados de 2020:

ESG Fluxo em Fundos
Fluxo de capital para os fundos ESG. Fonte:Morningstar

O gráfico mostra claramente que o volume de dinheiro aplicado deu um salto em 2019 e outro em 2020. Isso significa que categorizar uma empresa como ESG traz mais compradores para as ações, o que reflete no preço. O principal ETF ESG dos Estados Unidos é o iShares ESG Aware MSCI USA ETF (ESGU). Desde a sua criação em 2017 até o dia que eu escrevo este artigo ele já rendeu 83%, acima dos 70% do índice S&P 500. 

Conforme eu falei antes, muitos executivos podem se sentir pressionados a adotar medidas que satisfaçam esses tipos de análises e não os acionistas, visando justamente captar esse fluxo.

Outro ponto importante é que ESG favorece empresas grandes, rentáveis e de setores “asset light”, que não necessitam de muitos ativos para se manter. Portanto uma empresa de tecnologia que trabalha puramente na internet terá menos impacto ambiental do que uma mineradora, uma petrolífera ou uma indústria química. Empresas médias, pequenas e de margens baixas, que não tenham sobra para investir em tecnologias “sustentáveis” acabam sendo prejudicadas.

Desta forma, é muito provável que, em se mantendo o fluxo de capital para esses fundos, as ações das empresas ESG tenderão a se valorizar acima do mercado nos próximos anos.

Conclusão

A indústria das boas intenções atacou novamente e a adoção do modelo ESG vem ganhando tração em todo o meio dos investimentos. A maioria das pessoas se deixa levar pelas aparências e não percebe o que está por trás disso, que é justamente direcionar investimentos para certos fins e retirar de outros. 

Fundos ESG crescem de forma importante e muitos gestores acabarão adotando regras que poderão ir contra os desejos dos acionistas para ganhar maior visibilidade neste meio.

É possível as empresas respeitarem o meio ambiente, os funcionários e os acionistas sem precisar de uma patrulha organizada ditando regras cada vez mais absurdas. 

É tudo uma questão de imagem. ESG é um enorme filtro de Instagram aplicado às empresas e muita gente engole isso com uma facilidade inacreditável. Uma coisa é o desejo legítimo de reduzir danos ambientais, ou apoiar a comunidade onde a empresa está instalada, outra é ficar à mercê de terceiros que podem ter outros objetivos.

Vindo da ONU não é de se assustar que tente se criar mais uma vez entidades com pessoas indicadas por eles mesmos (ninguém é eleito pelo povo) que tentem interferir em assuntos que não lhe dizem respeito.

Para finalizar, saiba que a própria família do Al Gore não receberia o selo ESG. Ele é visto frequentemente a bordo de SUVs como o Chevrolet Suburban, que possui motor de 8 cilindros com 5,3 ou 6,2 litros. Zero de Ambiental. Ele também foi pivô de um escândalo de traição em 2010 e acabou se separando da mulher. Zero de Governança. O pai dele, Albert Gore Sênior, então senador pelo Tennessee votou contra a Lei dos Direitos Civis de 1964. Basicamente, foi a lei que pôs fim a segregação racial nos Estados Unidos. Ele queria mesmo é que os negros sentassem no fundo do ônibus. Zero de Social.

Aviso: Declaro que não sou analista de valores mobiliários. As informações discutidas no artigo possuem propósito educacional e refletem única e exclusivamente meus estudos, pesquisas e opiniões. Não devem ser consideradas como recomendação de investimento.

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Este post tem 29 comentários

  1. Laura

    Excelente reflexão, como sempre!

  2. Luciano

    Esse artigo é um raio de lucidez no meio dos modismos do mercado.

  3. Ruy Leme

    Mais um excelente artigo. Parabéns

  4. Raphael,

    Parabéns pelo post. Muito esclarecedor.

    Por que será que tudo tem que ter esse lado mais obscuro, as segundas intenções e com frequência o enorme abismo de incoerência entre o discurso e a ação?

    “Esqueça essa ideia de que se “não sai fumaça” é limpo. Tudo tem impacto.”
    Tudo que pode ser visualizado tem mais impacto na mente e consequentemente na atitude das pessoas. Mas todas as atividades humanas causam algo negativo. Como as hidrelétricas, por exemplo: energia limpa, mas quanta alteração nos ecossistemas!

    Não sei se você viu, mas criei uma página de livros no meu blog. Há uma seção exclusiva de indicações de leitores. Se quiser indicar algum livro – ou vários – me fale que incluo também. Pode ser aqui mesmo, no seu comentário.

    Ainda não consegui as 3 vendas qualificadas para fazer parte do programa da Amazon, então, se por acaso você for comprar algo lá, se puder comprar por um dos meus links, agradeço. 🙂

    Boa semana,

    1. Olá Rosana,

      Obrigado por comentar.

      Vou indicar uns livros para você sim. Até estou pensando em fazer resenhas dos que eu já li.

      Abçs!

  5. ?

    Top. De fato, Al Gore é um dos nomes por trás dos créditos de carbono e da modinha (hoje muito esquecida, pelo bem do planeta) do buraco na camada de ozônio. É um filho da p*$% querendo ganhar dinheiro manipulando as massas. E o que mais me mata de raiva é que tem gente que sempre compra essas ideias estapafúrdias.

  6. Marcos Celio

    Mais uma turminha dos democratas (leia-se PSDB ou algo pior no brasil) está de volta ao governo dos EUA e com elas todo um arsenal bonitinho de boas intenções incluindo ai guerras, interesses escusos e outras artimanhas que passam despercebidas para a imensa maioria da população do planeta cujas mentes estão em hibernação mental a muito tempo(somando-se a isso os maus intencionados a coisa fica muito feia). Parabéns pela acurácia e oportunismo da análise.

  7. SEVERINO S. SILVA

    Raphael.

    Conteúdo que leva a reflexões, como essa que você pesquisou e aborda, agrega muito valor
    ao ótimo analista do mercado internacional que você é e sempre traz benefícios aos assinantes
    e seguidores. Parabéns.

  8. Daniel

    Olá, I.I.. Lembra daquele seu artigo sobre o trainee exclusivo para negros da Magalu (www.investidorinternacional.com/atacando-a-raiz-do-problema/)? Que provavelmente era mais uma jogada de marketing para a empresa parecer politicamente correta e ganhar mercado no concorrido setor de varejo? Para parecer mais “ESG”, como você expôs no artigo? Dá só uma olhada nesta reportagem: g1.globo.com/economia/noticia/2020/09/30/no-brasil-ceo-de-empresa-de-capital-aberto-ganha-em-media-75-vezes-mais-que-funcionarios.ghtml. Magalu é uma das empresas abertas com maior diferença salarial entre o CEO e a média salarial dos funcionários. Dá para levar a sério quando uma empresa assim diz que quer ajudar na diminuição da desigualdade social/racial/de gênero brasileira?

    1. Olá Daniel,

      Olha, essa comparação de salário de funcionário com presidente da empresa é mais uma daquelas comparações estapafúrdias usadas para criar o “problema da desiguldade”.

      Não merece nem comentários dada a diferença colossal de formação e responsabilidade. Sem contar o tanto de pessoas que conseguiu subir na hierarquia empresarial devido a dedicação e esforço pessoais.

      Quanto ao Magazine Luiza, uma vez que você tenta agradar a patrulha do politicamente correto, você fica refém eles e acaba tomando medidas erradas só para satisfazer quem o odeia.

      Abçs!

      1. Daniel

        Sim, concordo com que este tipo de comparação é estapafúrdia. É igual àquelas pesquisas da Oxfam que ficam comparando o patrimônio do “1% mais rico” (e que possuem métodos questionáveis de mensuração de patrimônio). Só quis dar mais um exemplo do abismo que há entre o discurso e a prática dos ditos gestores “socialmente responsáveis”, igual ao Al Gore.

  9. Eder

    Parabéns Raphael, Bem, tudo tem efeitos colaterais, e um desses efeitos é a facilidade que o capitalismo tem em colocar muito dinheiro nas mãos de pessoas burras que habitam esse mundo, se o capital estivesse nas mãos de pessoas inteligentes o mundo não estaria no caos presente que estamos vivendo. O Capitalismo pode ruir e neste momento, está em desespero tentando sobreviver. Está fazendo o que o socialismo fez e o comunismo também fez, cometendo genocídio em nome do sistema.

    1. Olá Eder,

      Acho que não é para tanto.

      É mais uma estratégia da elite global para obter maiores poder e influência.

      Abçs!

  10. Lupercio

    Raphael, muito interessante esse artigo, sobre um assunto que eu não tinha nenhuma informação. Agora gostaria que você explicasse essa história da elite global da sua resposta ao Eder. abs.

    1. Olá Lupércio.

      Obrigado por comentar.

      Você precisaria pesquisar por globalismo (não globalização) para entender do que se trata.

      É um assunto bastante longo, mas clique no link que irá ver uma introdução.

      Abçs!

    2. Eder

      Respondendo a grosso modo ao Lupércio, seria do G6 ao g8 e top da lista de bilionários.

  11. Júlio

    Raphael,
    “para variar”, mais uma reflexão sensata, inteligente e que oferece um contraponto à mídia mainstream (“formadora” de opinião).
    A propósito, este tal de Al Gore não é aquele que no passado vivia apregoando aos 4 cantos que, nos dias de hoje, muitas cidades litorâneas estariam submersas devido ao efeito estufa e que, num gesto de magnanimidade, comprou algumas mansões na costa americana?
    Mantenha essa “pegada”, Raphael.

    1. Olá Júlio,

      Exatamente.

      Só acreditarei na inundação do litoral, quando os preços do imóveis despencarem e todo mundo começar a fugir das cidades litorâneas.

      Abçs!

  12. Gean

    Olá Raphael, excelente o seu artigo! Gostaria de pedir a sua autorização para poder utilizá-lo para meu TCC. E também, se você puder me enviar ou indicar as fontes que você utilizou para fazer esse artigo, ficaria muito grato.

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