Fosso competitivo: o que é?

fosso competitivo

Você já deve ter ouvido falar em fosso competitivo, mas saberia explicar exatamente do que se trata?

Todo entusiasta e estudioso de investimentos que se preze já estudou a vida e os métodos de investimento de Warren Buffett, o investidor mais rico do mundo. Para se tornar o número 1 é preciso aprender muito durante a vida, adaptar-se as circunstâncias e mudar quando for preciso.

No caso de Buffett, podemos definir sua vida de investidor em duas fases, a fase Benjamin Graham, onde ele procurava comprar as empresas que estivessem negociadas muito abaixo do seu valor intrínseco, e a fase Charlie Munger, onde ele passou a dar mais peso às qualidades das empresas do que ao preço em si. Nessa segunda fase, ela não se importava em pagar um pouco a mais do que devia em razão da qualidade superior da empresa.

Eu, inclusive, já escrevi um artigo mostrando as características que fazem uma empresa ser superior às outras.

O artigo de hoje vai mais a fundo para falar sobre a primeira dessas características, que é justamente o fosso competitivo. Este termo é derivado dos fossos que circundavam e protegiam os castelos de antigamente.

Fosso competitivo é o conjunto das vantagens competitivas fortes e duradouras que algumas empresas possuem capazes de protegê-las da concorrência e de manter a lucratividade futura.

Os componentes do fosso competitivo

Se os fossos de antigamente tinham água e eram habitados por jacarés, os das empresas atuais possuem 5 componentes-chave, que visam proteger a empresa e segurar os seus clientes:

  1. Custos de troca
  2. Ativos intangíveis
  3. Efeito de rede
  4. Vantagem de preço
  5. Escala

Custo de troca

Os custos de troca dão à empresa poder de precificação, prendendo os clientes em seu ecossistema. Além do custo de mudança, eles também podem ser medidos pelo esforço, tempo e trabalho psicológico de mudar para um concorrente.

Essa capacidade de segurar o cliente favorece muito a empresa em determinar preços e ter receita recorrente e crescente com o passar do tempo.

A Salesforce (NYSE:CRM) possui um sistema baseado em nuvem que engloba diversos aspectos da relação com os clientes. Já imaginou o custo de passar todos esses dados para outro sistema, instalar tudo novamente e ter que treinar toda a equipe para usá-lo?

Ativos intangíveis

Embora não seja tão fácil de quantificar, os ativos intangíveis podem incluir o reconhecimento da marca, patentes e licenças regulatórias. Eles podem impedir que os concorrentes imitem produtos e permitir que a empresa cobre preços acima do mercado.

Existe um fator psicológico que leva os consumidores a gostarem de determinada marca que vai muito além do custo-benefício. A qualidade dos produtos e o modo como determinadas marcas são construídas permitem que elas cobrem mais caro que os concorrentes e, mesmo assim, existe fila para comprá-los.

Alguns exemplos bastante concretos disso são a Apple (NASDAQ:AAPL), a Starbucks (NASDAQ:SBUX). e a LVMH: Moët Hennessy Louis Vuitton (PAR:MC) Quem compra nessas empresas sabe que está pagando mais caro, mas não se importa.

Efeito de rede

O efeito de rede está presente quando o valor de um produto ou serviço cresce conforme sua base de usuários se expande. Cada cliente adicional aumenta o valor do produto ou serviço exponencialmente.

Essa característica é particularmente importante agora que estamos a todo vapor na era digital. Quando mais usuários um serviço possui, mais valioso ele se torna tanto para novos como para velhos usuários.

Existe uma certa inércia quando o número de usuários atinge a chamada “massa crítica”. A partir dela, a adoção daquele serviço se torna natural por aqueles que ainda não o usam.

Existem muitos exemplos disso, em especial na internet. O Google (NASDAQ:GOOGL, GOOG) domina mais de 90% do serviço de mecanismo de busca. Quando alguém pensa em pesquisar sobre algo ou mesmo anunciar é natural que o escolha. A Netflix (NASDAQ:NFLX) se tornou o maior serviço de streaming do mundo. Agora quando alguém pensa em assinar algo assim, é o primeiro nome que vem à cabeça. Além disso, o crescimento do número de clientes fornece mais dinheiro para a empresa investir em conteúdo original.

“A chave para investir não é avaliar quanto uma indústria irá afetar a sociedade, ou quanto ela vai crescer, mas sim determinar a vantagem competitiva de qualquer empresa e, acima de tudo, a durabilidade dessa vantagem. Os produtos ou serviços que têm amplos e sustentáveis fossos ​​ao redor são os que oferecem recompensas para investidores.” -Warren Buffet (1999)

Vantagem de preço

As empresas que são capazes de produzir produtos ou serviços a custos mais baixos do que os concorrentes são capazes de ter maiores margens ou de minar a competição vendendo pelo menor preço.

Essa vantagem vem na esteira da eficiência operacional, economia de escala e menores custos de fabricação e distribuição. É uma das razões pelas quais muitas empresas se mudaram para a China ou adotaram fornecedores de lá na década de 2000.

Existem muitos exemplos disso na indústria do varejo. A Costco (NASDAQ:COST) possui um modelo de negócio que a permite cobrar praticamente o preço de custo pelos produtos vendidos nas lojas. A Amazon (NASDAQ:AMZN) possui tanta eficiência operacional e logística que a permite oferecer preços baixos e ainda entregar de forma rápida na casa dos compradores.

Escala

Em um mercado de tamanho limitado, novos concorrentes em potencial têm pouco incentivo para entrar, porque assim fazendo, diminuiria os retornos da indústria abaixo do custo de capital.

É o tipo de característica que leva a um monopólio natural, já que não há incentivos suficientes para que novas empresas entrem nesse mercado.

Os exemplos também são inúmeros, inclusive falei sobre um deles recentemente. A Visa (NYSE:V) possui metade do mercado do sistema de processamento de pagamentos no mundo hoje. A Mastercard (NYSE:MA) possui 25%. Requer muita tecnologia e licenciamento em todos os cantos do mundo para operar um sistema como esse. Haveria um custo astronômico para um novo entrante nesse mercado, que além de tudo teria que competir com a reputação de empresas já estabelecidas há décadas.

Altas margens de lucro atraem competição. Competição reduz a lucratividade.  Algumas empresas são capazes de manter a lucratividade por muito tempo, seja por repelir a competição ou estar acima dela.

Conclusão

Investir em ações de empresas com fosso competitivo tem se mostrado uma estratégia eficiente nas últimas décadas. Particularmente numa época em que muita gente não acha possível que  empresas trilionárias continuem a crescer, elas mostram que as vantagens competitivas são tantas que os resultados persistem em melhorar.

Importante sempre reavaliar as vantagens competitivas para ver se elas permanecem. A derrubada delas pode significar deterioração da empresa. Foi o caso da Cielo, que tinha uma vantagem competitiva regulatória, que foi derrubada e a ação desabou. Detalhei tudo no artigo “O investidor de retrovisor“.

Por isso, é essencial identificar se as ações em que você investe possuem fossos competitivos. A ausência deles pode indicar que a empresa está susceptível à concorrência e a queda de lucratividade no futuro.

OBS: Artigo baseado no trabalho Sources of Economic Moat da Morningstar.

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Aviso: Declaro que não sou analista de valores mobiliários. As informações discutidas no artigo possuem propósito educacional e refletem única e exclusivamente meus estudos, pesquisas e opiniões. Não devem ser consideradas como recomendação de investimento.

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Este post tem 2 comentários

  1. Fred

    Muito interessante. Só não sei se podemos aplicar este conceito no Brasil.

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