Geração Coca-Cola

geração coca-cola

Que atire a primeira pedra quem nunca gostou dessa música

De vez em quando bate uma onda saudosista em mim e eu acabo resgatando alguma coisa de que gostava no passado para ver novamente. Sejam os filmes clássicos que passavam na Sessão da Tarde ou mesmo avaliação de produtos e eletrônicos antigos, sempre encontro algo interessante para relembrar.

Recentemente, estive escutando as músicas antigas do Rock Nacional (até porque praticamente nem existe rock brasileiro atual) e duas delas me chamaram atenção. A primeira delas é óbvia pelo título do artigo e a segunda, que consegue ser ainda pior, falarei num artigo futuro.

A letra de Geração Coca-Cola

A música Geração Coca-Cola foi escrita por Renato Russo e lançada pela banda Legião Urbana em 1985:

Quando nascemos fomos programados
A receber o que vocês
Nos empurraram com os enlatados
Dos U.S.A., de nove às seis

Desde pequenos nós comemos lixo
Comercial e industrial
Mas agora chegou nossa vez
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês

Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola

Depois de 20 anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser

Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis

O que ela quer dizer?

A ideia central da letra é a de que somos um curral dos Estados Unidos e somos abastecidos com todo o “lixo” produzido lá. É como se houvesse uma “mão invisível” que enfiasse goela abaixo dos brasileiros os produtos enlatados americanos,  como refrigerantes, hambúrgueres, aparelhos eletrônicos, músicas, filmes e tudo mais produzido na terra do Tio Sam.

Esse é o tipo de antiamericanismo mais chinfrim que se pode encontrar. Sentimento puramente motivado pela inveja em relação ao que os outros produzem e nós não somos capazes.

Inicialmente, quando tive a ideia do artigo, achei que esse tipo de pensamento era coisa do passado e que tínhamos evoluído. Foi entrar em redes sociais e páginas que discutiam a música para descobrir que os jovens de hoje continuam idolatrando a música.

Eu já mostrei no artigo sobre a Independência dos Estados Unidos que os pilares em que o país foi criado são muito diferentes do que temos aqui. Lá, a liberdade, a limitação do estado e os valores morais são peças-chave para a estrutura de país. Os americanos, por mais que muitos tentem mudar, seguem à risca as diretrizes definidas por seus fundadores. O nível de organização e de liberdade expressas na Constituição dos Estados Unidos permitiu a eles se tornarem o maior criador de riquezas do mundo no século XX e início do XXI.

Já o Brasil eu vejo como um país invertebrado. Não temos uma ordem e uma hierarquia estabelecidas. Não temos membros dentro da estrutura do estado preocupados em manter qualquer estabilidade. Não temos um conjunto de regras simples que garantam as liberdades e as relações pessoais e comerciais. É um país confuso, onde mudam-se as regras de acordo com os negócios e com o maluco que estiver no poder na ocasião.

Os Estados Unidos se tornaram o que são por criarem as condições para que cada indivíduo pudesse buscar o sucesso, sem muitos obstáculos artificiais pelo caminho. O empreendedorismo é altamente valorizado e o número de self-made men produzido pelo país é maior do que qualquer outro do mundo. E para eles enriquecerem, precisaram basicamente produzir algo de útil para a sociedade. Não só produzir. Precisavam produzir e vender. Eles desenvolveram não só uma alta capacidade produtiva, mas também aprenderam como ninguém a vender seus produtos, tanto dentro quanto fora do país.

É por isso que vemos dezenas de empresas competindo nos mais diversos setores da economia. E eles sempre estão antenados ao gosto do público. No cinema é bem evidente. O público está gostando de heróis fortões? Então, tome Stallone, Schwarzenegger, Van-Damme, etc. Estão gostando de super-heróis? Então tome Homem-Aranha, Vingadores, Batman, Super-homem, Mulher-Maravilha, etc. O livro do Harry Porter vendeu bem? Então, vamos fazer 7 filmes e um parque na Disney. O mesmo vale para Senhor dos Anéis e Crepúsculo. Quando você entrega o que o público quer, a chance de sucesso aumenta.

Enquanto isso, no Brasil, o que temos é um estado altamente interventor, que coloca uma série de obstáculos para quem deseja criar riqueza, ao mesmo tempo em que elege seus “campeões nacionais”, ou empresários que recebem benefícios em troca de “favores” dos políticos. Está cada vez mais provado que somos sim um curral, mas não dos americanos, mas do conchavo entre políticos e grandes empresários, que nos mantêm reféns numa economia fechada e altamente regulamentada.

É esse pequeno grupo que controla a economia nacional o responsável por manter fraca a competitividade da nossa indústria. Sem competitividade e com altos obstáculos para novos entrantes, estamos à mercê dos poucos que chegaram ao topo. E sem pressão para inovar e desenvolver nossos produtos melhores e mais baratos, ficamos sempre alguns passos atrás dos americanos.

“São 200 milhões de patos, 5 bancos e 1 refinaria de petróleo.” – Paulo Guedes

Aliás, a melhor definição de Brasil é a de que o país é uma grande porca cheia de tetinhas e nós somos os leitões lutando desesperadamente para se agarrar em alguma. E quem consegue uma faz de tudo para não soltar de jeito nenhum.

Enquanto tropeçamos em nossos próprios cadarços, os americanos continuam produzindo carros, filmes, músicas, livros, peças de teatro, computadores, celulares, software, etc. Tanto é que em qualquer setor que olhemos os americanos são líderes ou estão próximos.

Não se trata de jogo sujo, trata-se de liberdade econômica. Quando você cria condições para o povo enriquecer por trabalho próprio, sem obstáculos artificiais, você cria países como os Estados Unidos, a Suíça, Cingapura, Hong Kong, Austrália, entre tantos outros de sucesso.

Inveja ou aprendizado?

Infelizmente ainda somos influenciados pela cultura da inveja, pela mania de criticar as pessoas ou países de sucesso pelo que elas fizeram de bom. Ao mesmo tempo, procuramos terceirar a culpa pelos fracassos.

O que devemos de fato fazer é aprender, seguir os mesmos passos dos americanos. Só que para isso precisamos transpor alguns obstáculos. Existe o obstáculo oficial, que é a mão gorda do estado atrapalhando a vida de todos os brasileiros, e existe o obstáculo mental, de achar que se tem direito a tudo, de que o problema é a falta de oportunidades ou de que é assim mesmo.

Conclusão

Abandone os sentimentos de inveja e raiva por aqueles que têm sucesso, sejam pessoas ou países. Isso não agrega em nada e só lhe traz amargura. Procure se cercar de pessoas competentes e de sucesso e descubra os segredos para também chegar lá. Procure saber como os países mais ricos do mundo chegaram nesse patamar e defenda as mesmas ideias aqui no Brasil. Não é deixando de tomar Coca-Cola ou de comer Big Mac que transformaremos nosso país numa grande nação.

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Este post tem 25 comentários

  1. Avatar

    O Brasil é a pátria dos comunistas de IPhone…

  2. Avatar

    Baita texto! Parabéns Raphael!

  3. Avatar

    Magnifico, pois nesta data 1985 montamos nossa frota de carrinhos de feira para atender as clientes e depois compramos nosso primeiro fusca branco para rodar 24,horas dai veio mas um,dois,treis e expandimos para a o transporte escola com a Kombi..tudo isso antes do 30 anos. pois sabiamos, que o espaço era vasto e lucrativo e ocupamos, bem antes das UBERs..

  4. Avatar

    Na olimpíadas do Brasil, tive a oportunidade de assistir um jogo de futebol feminino em BH.
    Como nunca tinha assistido um jogo dessa categoria, resolvi ir ver EUA x França.
    É exatamente o resumo do artigo. TODOS (tá bom, 90% do estádio) torcendo contra as americanas. Vaiando cada jogada. Nem torciam para a França, o negócio era vaiar as americanas.
    MASSSSSS, chega o intervalo do jogo. E o que vemos?
    As mesmas pessoas que vaiavam estavam: comendo pizza ou hot dog; bebendo coca-cola; tirando selfies com iphones; e, pasmem, estava tocando música americana no estádio (e a galera dançando). kkkkkk
    Inacreditável né?
    Eu torci para os EUA e saí feliz. kkkkkkkkkkkk
    Vitória das americanas.
    Abraço!

    1. Raphael Monteiro

      Olá Gil,

      Sabe que eu também peguei muito jogo dos EUA nas Olimpíadas.

      No basquete masculino era torcida toda para os americanos. No vôlei feminino a torcida era conta (Era pra Itália, se não me engano).

      Abçs!

  5. Avatar

    Um artigo com muitas verdades, é incrível que o povo ainda acredite em heróis da pátria e seja incapaz de assumir seus próprios erros.

  6. Avatar

    Excelente artigo, mais do que nunca temos que continuar com as reformas baseadas na liberdade para tirar esse hemisferio sul do atraso das ideias socialistas intervencionistas.

    1. Avatar

      No Brasil podemos aplicar a cultura da inveja ao setor do funcionalismo público, no qual as pessoas criticam com desconhecimento.
      Em analogia à parte final do vídeo poderíamos inferir o seguinte:
      “O funcionalismo público é o culpado de tudo”, indaga o interlocutor.
      “Não, ‘eles’ querem que você pense que o funcionalismo público é o culpado de tudo”, responde a outra.

      E assim as pessoas aceitam o que colocam para elas, sem questionamento profundo.

      “Como os países mais ricos do mundo chegaram a esse patamar?”
      Com alta taxação em tributos.
      Vamos defender isso no Brasil?
      Nãoooo, no Brasil não. Vai ter fuga de capital… e bla bla bla. Carga tributária já é alta demais e bla bla bla.

      Quanta contradição querer aplicar as mesmas coisas que países ricos mas não aceitarem as medidas desses mesmos países…

  7. Avatar

    Aqui inventamos novas formas de espoliar os contribuintes. Temos a receita federal e fazendas estaduais que estão sempre a frente na inovação tecnológica. Somos líderes em tecnologia fiscal.
    Fora nossa liderança em esquemas de corrupção. Temos os melhores software para gerenciamento de propinas e caixa 2.

  8. Avatar

    Raphael,

    “Lá, a liberdade, a limitação do estado e os valores morais são peças-chave para a estrutura de país. Os americanos, por mais que muitos tentem mudar, seguem à risca as diretrizes definidas por seus fundadores. ”
    Não é por acaso que o país deu tão certo. Acredito que tudo está na base, no início que foi tão bem planejado e estruturado.

    “Procure se cercar de pessoas competentes e de sucesso e descubra os segredos para também chegar lá.”
    Você encerrou o post com chave de ouro!

    Abraços,

  9. Avatar

    Excelente texto. Aquele que reflete e muda de opinião, evolui

  10. Avatar

    Não acredito que este país vire alguma coisa que realmente preste de forma plenamente progressista e contínua. O grande problema é cultural e mudanças culturais radicais ou se fazem a longuíssimo prazo ou são extintas (maias, incas, polinésios, etc). Felizmente estou começando a internacionalizar meus investimentos aos poucos e meu filho fará todo o high school na America do Norte. Não quero que ele assimile o way of life tupiniquim numa idade tão importante como a adolescencia. Pra variar ótimo post e grande abraço.

    1. Raphael Monteiro

      Olá Marcos,

      Faz bem com seu filho. Só tome cuidado que há muito progressismo nas universidades americanas também.

      Abçs!

  11. Avatar

    A música eu não conhecia, a letra é lixo puro, antiamericanismo rasteiro e sem base. Vou dizer várias coisas fora da curva: Os enlatados me deram mais formação moral e social que as novelas que os sucederam, o que incluiu até uma segunda língua. Atualmente sou um burguês, sim, com religião, que fez o possível para transformar este país em um lugar estável, respeitável, confiável, e olhe que nos últimos 15 anos não foi nada fácil. Sou servidor público e muito dedicado em minha área; foi a opção que encontrei porque a atividade privada em minha área era muito complicada… por fatores todos ligados à interferência governamental, direta ou indireta, que inviabilizava ou tirava o retorno de montes de coisas. Bobagem colocar a culpa nos Estados Unidos; se aqui não está melhor, é por causa de fatores locais mesmo, fatores que podem ser mudados e que têm chamado cada vez mais a atenção de quem tem alguma experiência internacional. Atitudes com a do letrista da música ajudam (ele) a ganhar dinheiro mas isolam grandes massas de jovens da visão de nossos problemas – e das soluções.

  12. Avatar

    Olá Raphael,

    Política de novo? Lembro de vc dizendo que política era assunto chato. Mas na verdade vc gosta mais de política do que parece.
    Acho que está se perdendo no blog.
    Pior os comentários. Sugiro assistir a série Homeland. Geo-política pura.
    Chegar ao ponto de analisar uma música criada há 35 anos atrás? Pra que isso? ouvir respostas legais pra amaciar seu ego?
    O mercado americano é imenso. Há diversos temas pra abordar e escrever aos seus leitores. Várias aplicações interessantes. Tô começando nos ET’F’s alavancados.

    Enfim, a vida é feita de escolhas.

    Abs.

    1. Raphael Monteiro

      Olá YNVEST,

      O tema central do artigo é o antiamericanismo. É um tema que continua atual. E analisar um música de 35 anos que ainda tem seus fãs mostra que muita gente não evoluiu.

      Hoje mesmo fique surpreso negativamente quando encontrei essa mesma música na seleção musical dos gestores que participaram do podcast Stockpickers.

      Abçs!

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