Não dá pra competir

empresas disruptivas

Aceite, as maiores e mais inovadoras empresas do mundo são criadas nos Estados Unidos

Na semana passada, Elon Musk apresentou os mais novos produtos extraordinários da Tesla Motors. O primeiro foi o caminhão elétrico chamado Semi, que faz de 0-96 km/h em 5 segundos, tem 800 km de autonomia e que possui um coeficiente aerodinâmico melhor que o do Bugatti Chiron.

O outro produto foi a nova versão do Roadster, carro conversível da empresa. Quando for lançado será o carro mais rápido do mundo, fazendo de 0-96 km/h em 1,5 segundos e com velocidade máxima acima dos 400 km/h. A autonomia da bateria será de 1.000 km com apenas uma carga. A maior autonomia de qualquer veículo elétrico já produzido.

Enquanto eu assistia ao evento da Tesla, logo me vieram à cabeça todas as apresentações do Steve Jobs, em que ele mostrava em primeira mão os produtos da Apple. Assisti a todos, desde o antigo com o Macintosh de 1984, até o último de 2011 com a introdução do iCloud.

Decepção

Ao mesmo tempo em que via Musk ser ovacionado a cada revelação dos novos veículos, sentia uma certa decepção por não ver o mesmo tipo de evento ou a criação de produtos fora de série pelas empresas em que investimentos no Brasil. É fácil entender o porquê.

Veja na tabela abaixo as 10 maiores empresas negociadas na B3:

CompanhiaSímboloValor de mercadoPaísSetor
AmbevABEV3R$ 322 biBrasilBebidas
Itaú UnibancoITUBR$ 251 biBrasilBancário
PetrobrásPETRR$ 208 biBrasilPetróleo
BradescoBBDCR$ 192 biBrasilBancário
ValeVALER$ 174 biBrasilMineração
Banco do BrasilBBAS3R$ 93 biBrasilBancário
ItaúsaITSAR$ 79 biBrasilHolding/Bancário
GolGOLL4R$ 71 biBrasilTransporte Aéreo
TelefônicaVIVTR$ 70 biBrasilTelecomunicações
CieloCIEL3R$ 54 biBrasilServiços financeiros

Temos bancos, bebidas, setor petrolífero, mineração, companhia aérea e serviços financeiros. Já imaginou o Lemann fazer um evento para apresentar a nova cerveja cheia de milho da Ambev? Ou o Setúbal convocar a imprensa e os acionistas para mostrar o novo fundo DI com 4% de taxa de administração? Sem chance, não é mesmo?

O que temos na Bovespa brasileira são empresas da velha economia. Empresas que basicamente funcionam da mesma forma e vendem praticamente os mesmos produtos há muito tempo. Claro que uma ou outra inovação virá, mas nada que chegue perto de um iPhone ou de um carro esportivo totalmente elétrico, por exemplo.

Quer ver agora as 10 maiores empresas negociadas na NASDAQ?

CompanhiaSímboloValor de mercadoPaísData do IPOSetor
AppleAAPL$ 876 biEUA1980Computadores/Smartphones/Gadgets
AlphabetGOOGL$ 719 biEUA2004Software e Processamento de dados
MicrosoftMSFT$ 635 biEUA1986Software e Processamento de dados
AmazonAMZN$ 544 biEUA1997Vendas e Serviços Online
FacebookFB$ 520 biEUA2012Software e Serviços de Rede
IntelINTC$ 208 biEUA1971Semicondutores
CiscoCSCO$ 177 biEUA1990Equipamentos de comunicação
ComcastCMCSA$ 169 biEUA1972Serviços de televisão
NvidiaNVDA$ 126 biEUA1999Semicondutores
AmgenAMGN$ 123 biEUA1983Biotecnologia

São empresas da nova economia, com foco em tecnologia e internet. Duas inclusive com IPOs recentes, a partir dos anos 2000. Agora veja o valor de mercado. São empresas bem mais novas e que já valem mais que as empresas da velha economia. Quem iria imaginar que o Facebook, que começou praticamente como uma brincadeira universitária, chegaria a valer 500 bilhões de dólares?

Empresas disruptivas

Nem sei se o termo disruptivo existe na língua portuguesa, mas ele significa algo que vai além da evolução. É criar uma coisa totalmente nova que “balança” com uma atividade já existente. O e-mail foi disruptivo em relação aos correios. A televisão foi disruptiva em relação ao rádio. O Skype foi disruptivo em relação ao telefone.

Quando olhamos o histórico do ranking de empresas disruptivas elaborado pela CNBC, temos três fatos fundamentais:

Número 1, o domínio de empresas americanas.

Número 2, o número de empresas que abriram o capital em bolsa de valores.

Número 3, o número de empresas que foram adquiridas por uma empresa maior de capital aberto.

É incrível como a grande maioria das empresas americanas termina na Bolsa, enquanto ainda vemos muitas grandes empresas brasileiras com o capital fechado.

Caso você não acompanhe o calendário de IPOs (oferta pública inicial de ações) nas bolsas americanas, uma simples checada no site da Nasdaq vai lhe mostrar que nos Estados Unidos tem IPO quase todo dia! No mês que teve pouco, foram 7 IPOs.

Já no Brasil, nos 10 primeiros meses de 2017, tivemos 8 IPOs. Veja a lista:

  1. Movida (aluguel de carros)
  2. Hermes Pardini (laboratório)
  3. Azul (transporte aéreo)
  4. Carrefour (varejo)
  5. IRB Brasil (seguradora)
  6. Omega Geração (energia)
  7. Biotoscana (biofarmacêutico)
  8. Camil (alimentos)

Exceto Biotoscana, que não é brasileira, as demais empresas listadas continuam sendo da velha economia.

Criando monopólios

Quando tive a ideia do título do artigo, era para mostrar que não é possível para o Brasil rivalizar com os Estados Unidos na criação de empresas inovadoras e que movam o mundo em direção ao futuro.

Logo me veio a lembrança de uma frase brilhante do Peter Thiel, co-fundador do Paypal:

“Competição é para os perdedores”

Mas e toda aquela história que você tem ouvido de que a competição no capitalismo é saudável e que as empresas devem se enfrentar para conquistar os consumidores? Bom, do ponto de vista do consumidor, é ótimo! Do ponto de vista do empreendedor, é péssimo!

Veja que o empresário que tem competição precisa sempre estar sempre à frente da concorrência se quiser sobreviver no negócio. Precisa controlar custos, ser inovador, ter preços competitivos, etc.

O que ele prega afinal?

Que o empreendedor crie um monopólio em uma área pouco explorada do mercado. E que essa é a chave dos grandes negócios.Veja a comparação do Google com as empresas aéreas que ele mostra numa aula sobre empreendedorismo:

empresas disruptivas

A receita do Google é muito menor que a das companhias aéreas. O mercado de anúncios em mecanismos de busca é também muito menor que o de venda de passagens aéreas. Entretanto, por dominar este mercado, o Google consegue margens muito mais elevadas, lucra mais e seu valor de mercado supera o de todas as empresas de aviação americanas combinadas.

Isso vale para outras grandes empresas de tecnologia. A Microsoft domina o sistema operacional dos PCs. O Facebook domina o mercado de rede social. A Netflix domina o mercado de TV pela internet. Um domínio tão grande assim em um mercado afugenta atuais e futuros competidores.

Conclusão

Em 1997, eu já usava Windows e Word, navegava de internet discada e começava a usar e-mail. Por outro lado, não comprava nada e não assistia vídeos pela internet, não tinha telefone celular e muito menos o ainda não inventado smartphone.

Em 2017, continuo usando os mesmos (mas atualizados) produtos da Microsoft, o e-mail já é algo corriqueiro, a internet é rápida e segura, permitindo assistir vídeos e realizar compras com tranquilidade. O smartphone já é quase uma extensão do corpo humano, expandindo a capacidade de se comunicar e realizar tarefas. Sem contar tantas outras coisas corriqueiras que fazemos hoje e que jamais teríamos sonhado há 20 anos.

E como será o mundo em 2037? Difícil ter certeza absoluta, mas um pouco eu já falei nos artigos sobre robótica e inteligência artificial. O mundo tem mudado de maneira rápida e muito do que será comum daqui 20 anos ainda foi sequer cogitado. O fato é que a probabilidade das futuras grandes inovações serem criadas nos Estados Unidos é muito maior do que no Brasil. E caso você não esteja preparado para investir nessas empresas, vai ver mais uma vez o bonde passar.

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Este post tem 36 comentários

  1. Avatar

    Que excelente observação…

  2. Avatar

    É inevitável, você simplesmente está certo..!!!!

  3. Avatar

    Concordo com o teor do post. Agora, sem nem pesquisar, apenas vendo fotos na internet, é difícil de acreditar que aquele caminhão tem um coeficiente aerodinâmico melhor (menor) do que o do Bugatti.

  4. Avatar

    Excelente artigo e excelente análise. Parabéns!

  5. Avatar

    Olá Investidor Internacional,

    Realmente gosto do conteúdo que você apresenta aqui no site.
    Tenho visto outros conteúdos sobre economia e finanças, e há muitas análises das condições financeiras e contábeis da Tesla Motors.
    Infelizmente a empresa nunca foi lucrativa e se déficit está aumentando. O único negócio rentável para empresa foi a venda de ações, que pode caracterizar uma bolha.

    Fique ligado nas análises de pessoas que verificam os dados fundamentalistas das empresas. Ou pelo menos saiba que é possível que haja uma hora de sair da ação e/ou fazer um short na empresa.

    Até,

    1. Investidor Internacional

      Olá Ralph,

      A Tesla não é uma empresa comum e não pode ser avaliada como tal.

      É uma empresa de crescimento que gasta uma fortuna com P&D.

      “Romper” com a indústria centenária de automóveis não é tarefa simples. Vai custar muito esforço e dinheiro.

      Outro fator é que a Tesla conta com incentivos fiscais gigantescos para poder vender seus carros na Europa. Não sei até que ponto o lobby da Tesla influencia nisso, mas ele usa a questão do ambientalismo a seu favor.

      “Among the existing incentives in Norway, all-electric cars are exempt from all non-recurring vehicle fees, including purchase taxes, which are extremely high for ordinary cars, and 25% VAT on purchase, together making an electric car purchase price competitive with that of a similarly sized conventional car. Electric vehicles are also exempt from the annual road tax, all public parking fees, and toll payments, as well as being able to use bus lanes until 2018 or until the 50.000 EV target is achieved.”

      Não sei se a Tesla terá o mesmo sucesso da Amazon, que também demorou muitos anos para lucrar, mas o potencial é gigantesco.

      Abçs!

  6. Avatar

    Excelente matéria e o mind set do povo brasileiro é o grande problema, pois enquanto as novelas, heptacampeonato de futebol, carnaval forem as prioridades e esperar que o governo vai fazer algo pela população continuaremos a ver bonde passar!

    1. Investidor Internacional

      Olá Marcelo,

      O sonho do brasileiro é passar em concurso público. Do americano, é criar alguma coisa extraordinária que irá deixá-lo bilionário.

      Abçs!

  7. Avatar

    Ótimo Artigo, Não sei quando o BRASIL vai acordar e ver que nem tudo Gira em torno de (CERVEJA E PETRÓLEO)
    A respeito de Investimentos…

    1. Investidor Internacional

      Olá Eduardo,

      Um país que condena o empreendedorismo está condenado a viver de velha economia e fica dependente da tecnologia produzida em outros lugares.

      Sem contar que não estamos entre os países que retêm os talentos. Em geral, os talentos brasileiros preferem jogar nos “campos” de outros países.

      Abçs!

  8. Avatar

    Perfeita sua observação, “Investidor Internacional”. Enquanto o Estado quiser dominar tudo e controlar a economia, infernizando a vida de todos os que querem empreender, desde o mais humilde produtor rural de agricultura familiar até os grandes investidores no setor industrial, estamos condenados a ver nossos talentos preferirem desenvolver seus negócios em outros países. Com isso, nós só perdemos todos os “bondes da História”.

  9. Avatar

    II,

    Muito bom. Mas nada impede de ter umas cervejinhas na carteira também, afinal pra comemorar as novas inovações sempre brindaremos.

    Cheers!

  10. Avatar

    Excelente I.I!

    Cara esse caminhão da Tesla é muitoo feraa! Algo que penso sobre os veículos elétricos é como as cia elétricas irão lidar com a demanda de energia?

    Esta será uma boa pergunta para elas (ou o mundo) responder…

    Abraços!

  11. Avatar

    Muito bom II! Concordo contigo: aqui em terras tupiniquins vai demorar muito a assistirmos algo de revolucionário. Ao menos enquanto o Estado for o fiador-mór do (sub) desenvolvimento!

    A única coisa que penso diferente de você é abandonar o Office… Migrei há algum tempo para o Google Docs e acho que coloca o Office no chinelo. Não por não possuir um monte de coisas que você não precisa, mas por ser mais rápido e confiável. Já tentei usar o Office Online e Deus me livre rsrs

    Abraço!

  12. Avatar

    Como vai ter inovação tecnologia no Bradil diante de tanta corrupção. Os velhos não querem inovar, mas sim, ficar na mesma pagando propina e políticos ladrões achando que ser rico é ganhar dinheiro fácil.

    1. Investidor Internacional

      Olá Gil,

      Não vai ter tecnologia, porque é arriscado (em inúmeros fatores) investir no Brasil e porque a relação risco/retorno costuma ser melhor aplicando na renda fixa.

      Abçs!

  13. Avatar

    Olá Investidor Internacional, primeiramente gostaria de dizer que seus textos são muito bons. Tanto no sentido educativo, quanto de conselho. Agora acho que uma informação no texto ficou mal explicada.
    A NASDAQ é uma bolsa de valores de empresas de tecnologia, foi criada com o intuito de mostrar mais clareza neste mercado que era obscuro quando começou. Então é um pouco óbvio que as 10 primeiras empresas listadas lá serão de tecnologia.
    De qualquer forma é muito bom o texto para ilustrar a falta de mentalidade inovadora no brasileiro.

    1. Investidor Internacional

      Olá Victor,

      Na verdade, na Nasdaq são negociadas ações de todos os setores. É que as empresas de tecnologia acabam ficando em destaque por serem maiores.

      Você encontra lá todos esses setores da economia: Indústria básica, Financeiro, Bens de Capital, Saúde, Consumo durável, Consumo não-durável, Serviços, Utilidade pública, Tecnologia, Energia, Transporte, entre outros.

      Na NYSE tem muita empresa da economia tradicional, mas se você olhar hoje verá que a maior empresa negociada lá chama-se Alibaba. A chinesa da internet já vale U$ 100 bilhões a mais que a Johnson & Johnson!

      Abçs!

  14. Avatar

    Muito Bom mesmo todos os comentários e sem duvida e TESLA será uma grande empresa no futuro, tanto dos carros elétricos quanto nos carros guiados por satélites, mais uma coisa a empresa poderia melhorar , dar um curso de oratória para o Musk, o cara gagueja muito, repete o Haaa, Hooo e outros Bugs, também faltou uma linda mulher na apresentação até para mostrar que o SemiTruck é fácil de pilotar, iria quebrar a frieza da apresentação, meu palpite ok.

  15. Avatar

    II,

    O Brasil, como sempre, ficando cada vez mais para trás….
    Eu não acredito que a disrupção chegará com tanta força e consistência algum dia nesse país, pois fatores como cultura, educação de péssima qualidade, protecionismo e política são entraves relevantes.
    Um exemplo é a indústria do petróleo ser tão predominante em um país que poderia utilizar energia solar e elétrica nos automóveis em larga escala e também a ínfima utilização de energia eólica e a zero utilização de energia maremotriz em um país com uma costa tão extensa.

    Abraços,

    1. Investidor Internacional

      Olá Rosana,

      Tudo isso é pela acentuada interferência do governo. Você não consegue produzir nada legalmente, sem um milhão de fichas, autorizações e taxas.

      Abçs!

  16. Avatar

    Eu já tinha notado isso.

    Além disso, note que a Ambev, que é queridinha de quem faz buy&hold no Brasil, é uma subsidiária da gigante multinacional Inbev.

    Sousa Cruz é subsidiária da British American Tobbaco (não sei se escrevi certo), Garoto subsidiária da Nestlé.

    As que não são subsidiárias, possuem envolvimento imoral com o governo ou são pequenas.

    O Brasil é triste 🙁

    1. Investidor Internacional

      Olá Jorge,

      Essa empresas gigantescas têm o poderio econômico de adquirir concorrentes. É um diferencial importante.

      Abçs!

  17. Avatar

    Eu não consigo olhar para a Tesla e não lembrar da OGX, guardadas as devidas proporções.

    Os caras estão cheios de ideias revolucionárias porém na parte financeira só estão levando fumada atrás de fumada, é completamente impossível no médio prazo uma empresa não dar lucro.

    Das duas uma, ou a Tesla começa a apresentar resultados consistentes ou ela vai quebrar na próxima grande crise.

    1. Investidor Internacional

      Olá Luiz,

      Muita calma nessa hora.

      Empresa de crescimento é assim mesmo.

      O YouTube tinha prejuízos mensais de 12 milhões de dólares antes de ser comprado pelo Google.

      O Paypal começou pagando para os usuários se registrarem e tinha prejuízos mensais da ordem de 20 milhões de dólares no início.

      Claro que mais cedo ou mais tarde, terão que entregar resultados, mas até lá…

      Abçs!

  18. Avatar

    O Brasil é um país atrasado, e os investidores também. Todo mundo aqui consome os produtos das empresas americanas, mas muito poucos investem nos papéis dessas empresas. Por aqui o investidor ainda fica ligado em Petrobrás, Vale, Bancos do Brasil, Bradesco e Itaú. Tem medo de sair do quadrado.

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