Os menores investidores do mundo

menores investidores

Como pessoas simples acumularam milhões de dólares no mercado de ações

Quando procuramos aprender sobre alguma área do conhecimento tentamos descobrir quem são os melhores, quem fez mais sucesso e quem produziu mais. Procuramos os experts, aqueles que mais estudaram sobre o assunto e deixaram um legado de livros, publicações, alunos, seguidores e clientes.

Entretanto, quando se trata de investimentos existe um grupo de pessoas (quase) desconhecidas que podem ensinar algumas lições para você que os maiores investidores do mundo talvez não consigam. São pessoas comuns, com empregos comuns. Não eram gênios e nem possuíam qualificação ou conhecimentos extraordinários. Entretanto, elas alcançaram resultados em seus investimentos, que a maioria dos profissionais apenas sonham.

O que você verá a seguir são históricas de pessoas comuns, talvez com um salário menor do que o seu, que acumularam milhões de dólares durante a vida.

A secretária que deixou 7 milhões de dólares

Grace Groner vivia numa pequena casa de um quarto em Lake Forest, Illinois. Comprava roupas em brechó, não possuía carro e trabalhou a maior parte de sua vida como secretária em uma empresa  farmacêutica.

Quando faleceu aos 100 anos em 2010, ela deixou 7 milhões de dólares a serem usados para custear bolsas de estudo na universidade local. O dinheiro veio de três ações que ela comprou e manteve desde 1935.

A vida dela era extremamente frugal, talvez reflexo do tempo em que viveu no período da Grande Depressão. Nunca se casou ou teve filhos, o que provavelmente contribuiu para aumentar sua taxa de poupança. 

Quer saber onde ela investiu? Na própria empresa em que trabalhava, a Abbott Laboratories (NYSE:ABT). Naquele longínquo ano, ela comprou 3 ações da empresa por 180 dólares no total. Ela nunca vendeu nenhuma ação e reinvestiu os dividendos por mais de 70 anos. Quando faleceu, ela possuía 100 mil ações (após desdobramentos) avaliadas em cerca de 7 milhões de dólares.

Obivamente, o que ela fez foi de certa forma imprudente. “Deixar todos os ovos da mesma cesta”. Se ela fosse funcionária da Enron ou do Lehmann Brothers, o destino teria sido outro.

Em 1935, a Abbott já era uma empresa com 41 anos, mas ainda pequena perto dos padrões atuais.O IPO havia sido realizado no fatídico ano de 1929 e mesmo com a crise que atingiu o país nos primeiros anos como companhia pública, a ação subiu mais de 10 mil vezes até hoje.

O zelador que acumulou 8 milhões de dólares

Ronald Read era um zelador e atendente de posto de gasolina no estado de Vermont. Ele passava despercebido em meio às pessoas ao seu redor até que na data de sua morte em 2014, descobriram que ele tinha acumulado uma fortuna de 8 milhões de dólares.

Mesmo a família dele ficou surpresa por ele ter acumulado tanto. Ele trabalhava duro, mas as pessoas não tinham ideia de que ele era um milionário. De origem humilde, foi o primeiro da família a terminar o primeiro grau. Serviu no norte da África durante a Segunda Guerra Mundial. Após o término, voltou aos Estados Unidos para trabalhar em um posto de gasolina e como zelador na JC Penney.

Read manteve um estilo de vida frugal e nunca foi de gastar muito dinheiro. Tinha um Toyota Yaris usado, costurava as próprias roupas e cortava a própria lenha. 

Ao final de sua vida seu portfólio continha mais de 95 ações, algumas que ele havia segurado por décadas. Entre as Blue Chips, nomes conhecidos, como Johnson&Johnson, Procter & Gamble, JP Morgan Chase, General Electric, Dow Chemical, CVS Health e JM Smucker.

Em seu testamento, Read deixou 1,2 milhão de dólares para a biblioteca local e 4,8 milhões para o hospital da cidade.

A auditora e seu portfólio de 22 milhões de dólares

Anne Scheiber era auditora da Receita Federal americana (IRS). Ela se aposentou em 1944 aos 51 anos e começou a focar na administração de seu portfólio de ações pelos 50 anos seguintes. Quando ela faleceu, aos 101 anos, ela possuía um portfólio de ações avaliado em 22 milhões de dólares, que gerou no último ano 750 mil dólares em dividendos.

Anne foi criada por sua mãe, depois que seu pai faleceu. Começou a trabalhar como contadora aos 15 anos e mais tarde na IRS. Na época, as famílias priorizavam o ensino superior para os filhos. Isso significava que Anne precisava perseverar e ir para a escola por conta própria. Ela investiu em si mesma, formou-se na faculdade e foi aprovada na Ordem dos Advogados.

Mesmo qualificada, nunca foi promovida e jamais ganhou mais do que 3.150 dólares por ano durante os 19 anos na IRS. Ela teve uma vida difícil, o que provavelmente a ensinou a importância de poupar.

Ela aprendeu que os ricos tendem a investir na valorização de ativos que distribuem fluxo de caixa. Depois de passar anos revisando declarações de imposto de renda, logo percebeu que as pessoas mais ricas possuíam muitas ações que pagavam dividendos, imóveis que recebiam aluguel e negócios que geravam renda para seus proprietários. Este foi o conhecimento que inspirou Anne a construir sua riqueza por meio do investimentos em ações.

Segundo relatos, estima-se que o portfólio dela à época da aposentadoria, em 1951, era de 18 a 20 mil dólares e a taxa de poupança ao redor de 80%. Esse valor  somado à aposentadoria que recebia foi o que começou a criar a sua imensa”bola de neve”.

Ao falecer, em 1995, seu portfólio era composto por mais de 100 ações, algumas muito conhecidas, como Schering-Plough, Coca-Cola, Bristol Myers Squibb, Exxon, Pepsico, Rockwell e Lowe’s.

A cidade dos milionários da Coca-Cola

Alguns lugares do mundo são ricos em petróleo, mas a pequena cidade de Quincy, na Flórida, ficou conhecida por se tornar rica investindo em um outro tipo de ouro negro, a Coca-Cola.

A Coca-Cola Company (NYSE:KO) abriu o capital na Bolsa de Nova Iorque em 1919 ao preço de 40 dólares por ação. Mais de uma década depois, no meio da Grande Depressão, a ação havia caído para apenas 19 dólares. Foi aí que um banqueiro local, chamado Mark Welch Monroe, também conhecido como Mr. Pat, notou que não importava quão pobre a pessoa tinha ficado, ela sempre arrumava 5 centavos para comprar uma Coca-Cola.

Não só ele notou que a empresa continuava vendendo bem no meio da pior crise que já havia presenciado, como também calculou que a empresa estava sendo negociada por menos que o dinheiro em caixa. Isso numa época em que não havia internet. A análise fundamentalista ainda era incipiente  todos os cálculos eram feitos à mão.

Mr. Pat chegou a conclusão de que aquele era o negócio do século e começou a comprar ações de forma obstinada. Entretanto, por não ser egoísta e gozar de uma boa reputação na cidade, ele procurou convencer cada pessoa que ele encontrava a também comprar ações da Coca-Cola. Além disso, reforçava para não vender, mesmo se o preço da ação caísse em algum momento. 

O seu convencimento surtiu efeito e nestes últimos 80 anos, essa decisão gerou os seguintes resultados:

  • Os dividendos da Coca-Cola sustentaram a economia local em todas as crises e recessões
  • A cidade se tornou a mais rica per capita dos Estados Unidos 
  • Estima-se que da população de 4 mil pessoas da cidade na década de 40 pelo menos 67 acumularam fortuna acima do milhão de dólares
  • Uma única ação da Coca-Cola comprada no IPO e com todos os dividendos reinvestidos valia 10 milhões de dólares em 2013 e gerava 270 mil dólares anuais em dividendos

Conclusão

É extremamente difícil acertar na mosca como fizeram Grace Groner e os milionários de Quincy, mas é possível acumular uma fortuna em um grupo de empresas notáveis, como Ronald Read e Anne Scheiber fizeram.

As probabilidades estão a seu favor quando você coloca a “pele em risco” para participar da máquina do capitalismo americano, que cresce em lucros e patrimônio e gera riqueza para milhões de pessoas.

Muita gente passa anos e anos apenas assistindo pessoas ficando ricas no mercado de ações, com histórias aqui e acolá e não se mexem, não começam a investir. Ficam pensando se vale mesmo a pena ou se é arriscado demais.

Entretanto essas histórias (e há uma infinidade delas) mostram que não é preciso ser um Warren Buffett ou um Ray Dalio para acumular riqueza. Pessoas normais quando desenvolvem o perfil e a mentalidade corretas e entram no mercado de ações são capazes de acumular fortunas.

A estratégia de comprar ações regularmente e manter por décadas funciona. É o modo de deixar os juros compostos trabalharem. No começo parecerá pouco, mas a bola de neve precisa de tempo para crescer. Deixar as ações vencedoras valorizarem com o tempo é o que separa os homens dos meninos no mercado de ações. Fácil falar, mas difícil fazer. O prêmio final está reservado para quem segura uma ação vencedora por décadas, mesmo com os altos e baixos do mercado.

Com tanta gente entrando em pânico à primeira correção da Bolsa, ser capaz de segurar uma ação por décadas é tarefa para poucos. Quem não está preparado para anos ruins chegará tarde demais quando os anos bons forem uma realidade.

Trabalhar, gerar renda, poupar, investir consistentemente e reinvestir os dividendos ao longo de décadas são os passos necessários para acumular uma fortuna que irá lhe dar segurança na fase final de sua vida. Você só precisa tomar esta decisão.

Aviso: Declaro que não sou analista de valores mobiliários. As informações discutidas no artigo possuem propósito educacional e refletem única e exclusivamente meus estudos, pesquisas e opiniões. Não devem ser consideradas como recomendação de investimento.

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Este post tem 16 comentários

  1. Avatar
    Marco Aurélio

    Mais uma excelente matéria para reflexões pessoais de cada um de nós..! A “bola de neve” demora, mas deve começar com um “floco de neve”. Realmente consistência e foco é vital para o investidor. Um abraço!

    1. Raphael Monteiro

      Olá Marco Aurélio,

      Uma longa caminhada começa com um primeiro passo.

      Entretanto, muita gente ainda esperar ficar rico com um golpe de sorte ou uma grande tacada.

      Abçs!

  2. Avatar
    Douglas

    Faltou a história da Sylvia Bloom.

  3. Avatar
    Luciano

    Fantástica a história de vida destas pessoas, no final economia paciência disciplina e principalmente o controle do próprio ego sendo este hoje em dia o grande detrator de valor na vida da maioria das pessoas hoje em dia, fazem a diferença, para o acumulo de riqueza e tranquilidade financeira.

    1. Raphael Monteiro

      Olá Luciano,

      A probabilidade de ficar rica do dia para a noite é baixa, mas a de ficar rica em 30-40 anos é alta. Infelizmente, muita gente ainda aposta na primeira opção.

      Abçs!

  4. Avatar
    marcio andre

    Ótima matéria e bons ensinamentos para cada um na sua jornada.
    Só mudaria alguma coisa, iria curtir um pouco mais a vida. Pelo visto essas pessoas trabalharam duro e tiveram a vida toda essa mentalidade, Não sei se aproveitaram bem a vida com tanta grana no bolso, aqui na minha cidade conheço pessoas assim, que tem muito dinheiro e andam com carro sem ar-condicionado e nem se quer viajam, então creio que precisa ter o equilíbrio entre acumular riqueza e aproveitar a vida! Como disse um conhecido, caixão não tem gaveta para guardar o dinheiro.
    Creio que todos sonham com essa carteira e o primeiro passo é começar a jornada.
    Boa sorte a todos!

    1. Raphael Monteiro

      Olá Márcio,

      É preciso sim encontrar um equilíbrio. Só que esse equilíbrio varia de pessoa para pessoa.

      Inclusive é preciso pesar a história pessoal de cada um. Quem viveu a Grande Depressão ou o período de hiperinflação do Brasil tem cicatrizes e ensinamentos que talvez nenhum livro seja capaz de passar. E isso muda como a pessoa lida com dinheiro.

      Acredito, inclusive, que essa pandemia vai mudar muito a tal da história de reserva de emergência de 6 meses. Lembro que quando falei a primeira vez que a reserva de emergência deveria durar 3 anos, muita gente achou um absurdo. Só que cada dia que passa faz cada vez mais sentido.

      Abçs!

  5. Avatar
    Marcela

    A nossa liberdade contra circunstâncias depende dos recursos com que podemos contar, da nossa capacidade, disciplina de manter, repor e aumentar esses recursos, de quanto menos precisamos consumir para manter nosso padrão de vida e bem-estar. Viajar eh fabuloso, mas não era um ideal tao difundido há alguns anos.

  6. Avatar
    marcio andre

    Exatamente isso, em minha região tem muitos descendentes de alemães fugidos da guerra, e ainda tem essa mentalidade de guardar. e isso passou para as gerações futuras, mas muitos não tem o conhecimento financeiro para fazer com que esse capital seja investido para gerar mais valorização, e acabam simplesmente deixando embaixo do colchão. A reserva financeira também é muito importante para situações como essa que estamos vivendo e quem aprender isso não passa dificuldades. Não acho absurdo ter essa reserva de 3 anos, pois em períodos de depressão, leva-se até mais tempo que isso para recuperação.
    Em tempos de bonança dificilmente se preocupam com isso.
    Abço!

    1. Raphael Monteiro

      Olá Márcio,

      Devemos inclusive considerar o uso do dólar como reserva de emergência, como nossos avós faziam.

      Abçs!

      1. Avatar
        marcio andre

        Legal, Isso mesmo, Raphael, se fosse considerar uma reserva que não fosse o dólar, qual você usaria como segurança? digamos que o dólar perca seu valor e deixe de ser a principal moeda a ser usada como proteção.
        Abço!

  7. Avatar
    Bilionário

    Gostei das histórias, ainda não conhecia essa da Coca-cola, provavelmente aqui no Brasil seria muito mais difícil de isso acontecer, primeiro porque ainda temos poucas pessoas que guardam, e menos ainda que investem em renda variável, aqui na minha cidade conversei com um amigo que trabalha em banco e ele disse que é inacreditável a quantidade de dinheiro parado nas contas correntes.

    1. Raphael Monteiro

      Olá Bilionário,

      Brasil não tem cultura de investimento em renda variável, mas está melhorando.

      Se bem que o período inflacionário ensinou a investir em imóveis e dólar.

      Abçs!

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