Qualcomm

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Se você tem um smartphone, é muito provável que ele use um chip da Qualcomm

A Qualcomm foi notícia há alguns dias, quando ela e a Apple entraram em um acordo na justiça, o que fez a ação da primeira disparar mais de 20%. A Apple acusava a Qualcomm de usar sua posição dominante e praticamente monopolista no mercado de modens para aparelhos móveis para cobrar altíssimos royalties.

Dentro deste acordo, onde a Apple retirou a acusação, houve ainda o pagamento por parte da maçã em pagar os 7 bilhões de dólares em royalties que estavam sendo retidos. Não é só isso. A Apple também fechou um acordo de licenciamento e outro de fornecimento de chips da Qualcomm pelos próximos anos, o que irá catapultar os resultados da empresa.

Não bastasse isso, a Intel anunciou que sairá do mercado de modem para smartphones, deixando a Qualcomm livre para ser a maior fornecedora desta peça para os atuais e futuros aparelhos 5G.

Diante de tudo isso, achei que seria um momento oportuno para você conhecer um pouco mais da empresa.

A história da Qualcomm

Irwin Jacobs havia se formado em engenharia elétrica pela Universidade de Cornell e feito um doutorado sobre comunicações no MIT. No final da década de 60 foi convidado para fundar a faculdade de engenharia da Universidade da Califórnia em San Diego e partiu para o oeste.

Já na década de 80, ele se reuniu com outros professores para formar uma empresa de consultoria chamada Linkabit. Logo depois, em 1985, este grupo juntamente com novas pessoas acabou fundando a Qualcomm, abreviação de “Quality Communications”.

O grande salto da empresa foi o pioneirismo no uso da tecnologia CDMA, basicamente o que moveu as redes 2G e 3G pelo mundo. CDMA significa “Code Division Multiple Access”, cuja origem remonta à década de 40, mas que não havia sido implementada com eficiência. A teoria por trás dela é a de que múltiplas frequências poderiam ser usadas para enviar uma única transmissão de rádio.

Irwin achou que esta tecnologia possibilitaria que uma quantidade muito maior de informações pudesse ser transmitida na embrionária indústria de telefones celulares. Na época, a tecnologia que imperava era a TDMA.

A Qualcomm foi incansável em desenvolver e evidenciar que a tecnologia CDMA era superior, como mostra este vídeo da primeira ligação teste sendo realizada em uma van em movimento.

Eu gosto de ler sobre essa fase embrionária das tecnologias que usamos hoje. Dá a exata noção do quanto elas se desenvolveram e mostra que algo que parece banal hoje, já foi um grande marco no passado. Também serve para mostrar o quanto você perde investindo apenas no Brasil, sem acesso aos grandes avanços tecnológicos.

Além da CDMA, a Qualcomm detém avanços nas tecnologias OFDMA e LTE. Quem quiser criar um aparelho que use essas tecnologias de comunicação, precisa pagar royalties para a Qualcomm. Para você ter uma ideia, a empresa detém mais de 40 mil patentes na área.

Além do modem dos smartphones, onde detém 45% do mercado mundial, a Qualcomm também fabrica os famosos processadores Snapdragon, o mais usado nos aparelhos Android.

Os segmentos de negócio

A empresa se divide em três principais segmentos:

  • Qualcomm CDMA Technologies (responsável por 76% da receita e 45% do lucro líquido): desenvolve chips e software para CDMA e smartphones baseados em 5G. Inclui a família de chips Snapdragon, que variam desde os de baixo custo (série 200) aos  modelos premium, como os topos de linha da Samsung, Galaxy S e Galaxy Note (série 800).
  • Qualcomm Technology Licensing (responsável por 23% da receita e 54% do lucro líquido): é o negócio de licenciamento da empresa, no qual os fabricantes de smartphones pagam royalties para uso das patentes 3G e 4G LTE.
  • Qualcomm Strategic Initiatives (responsável por 1% da receita e 1% do lucro líquido): investe em startups de diversos setores, incluindo automotivo, internet das coisas (IoT), comunicação móvel, data center e saúde.

Percebeu a margem absurda que esse segmento de licenciamento tem? Gera mais da metade do lucro líquido da companhia. Ele não possui os custos de manufatura e os demais ligados a produção. Daí a importância do acordo com a Apple ter destravado tanto valor.

O último segmento não contribui em quase nada para o resultado atual, mas planta uma semente em diversas empresas das quais pode surgir alguma inovação que valha bilhões de dólares. É o que eu chamo de “investir nas categorias de base”.

A Qualcomm como investimento

O crescimento monstruoso da Qualcomm (NASDAQ:QCOM), que vale hoje mais de 100 bilhões de dólares, nas últimas décadas é fruto da incrível disseminação de aparelhos conectados sem fio em todo o mundo. Hoje este número está na casa dos 7 bilhões.

Além do domínio nos modens 3G e 4G, a empresa detém uma série de patentes voltadas a diversas outras funções contidas nos smartphones, como controle da tela, da energia, do áudio, etc.

O investimento pesado em Pesquisa & Desenvolvimento (acima de 5 bilhões de dólares por ano) tem permitido a Qualcomm desenvolver diversas soluções para comunicação móvel. Estas soluções depois são usadas por diversos fabricantes, que pagam royalties a ela.

É um modelo muito lucrativo e de margens elevadas, que servem de base para que o acionista seja muito bem remunerado, seja por generosas recompras de ações, seja pelos dividendos que têm crescido em média 15% ao ano nos últimos 10 anos.

A mudança para a tecnologia 5G também tem tomado a atenção da empresa, que busca manter a liderança no mercado mundial. O futuro modelo Snapdragon a ser lançado em 2020 trará um modem 5G já embutido.

E a tecnologia 5G não se refere apenas aos smartphones, mas sim a todo um ecossistema de aparelhos conectados, incluindo os automóveis e a Internet das Coisas (IoT).

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As soluções da Qualcomm para o 5G já são realidade

Fusões e aquisições

Não bastasse o imbróligo com a Apple, a empresa esteve envolvida numa série de movimentações de consolidação do setor que acabaram fracassando.

Primeiro foi a Broadcom (NASDAQ:AVGO) que fez uma oferta hostil de 117 bilhões de dólares para comprar a Qualcomm. Como a Broadcom é baseada em Cingapura, os órgãos regulatórios americanos bateram o pé e não deixaram o negócio acontecer, pois enfraqueceria os EUA na guerra comercial e tecnológica com a China.

Depois a Qualcomm tentou adquirir a holandesa NXP Semiconductor (NASDAQ:NXPI). Quem bloqueou o negócio desta vez foram os reguladores chineses. E por que  a Qualcomm precisava da aprovação chinesa? Porque 2/3 de suas receitas vêm do gigante asiático.

A falha desta última aquisição liberou o dinheiro para a Qualcomm fazer uma mega recompra de 22 bilhões de dólares em ações no ano de 2018.

Os grandes riscos

O maior risco para a Qualcomm e que pode minar sua lucratividade é a interferência dos reguladores nas práticas de licenciamento da empresa. A companhia já foi multada em diversos países por “abusar” da sua posição monopolista neste meio.

Ainda existe um processo grande nos Estados Unidos, que caso seja aceito, obrigaria a empresa a adotar práticas mais brandas de preço em sua política de licenciamento, o que certamente derrubaria seus resultados.

Caso este último processo seja resolvido favorável a Qualcomm, ela deve retomar ainda mais a lucratividade que ficou estacionada nos últimos anos.

O outro risco se refere ao fato de que as vendas de smartphones atingiram um platô e não terão o mesmo crescimento de outrora. Além disso, muitos concorrentes têm aparecido na área e diversos fabricantes têm desenvolvido soluções próprias de comunicação para evitar o custo com os royalties da Qualcomm.

Vamos aos números

Essa foi a evolução da ação da Qualcomm nos últimos 12 meses:

qualcomm gráfico
Gráfico de cotação da Qualcomm na NASDAQ

Aquela última pernada para cima foi no dia do fim do processo da Apple.

A ação negocia hoje a um P/L projetado de 19,84, EV/EBITDA projetado de 16,3 e dividend yield de 2,2%. Já são 16 anos de crescimento de dividendos.

Abaixo temos a evolução da receita, EBITDA e Lucro por ação (excluindo itens não recorrentes):

qualcomm receita ebitda lucro
Receita, EBITDA e Lucro por ação dos 12 meses anteriores

 

Os últimos anos não foram bons, mas agora com uma pedra a menos no sapato os próximos prometem ser melhores.

Conclusão

O pioneirismo e a inovação fizeram da Qualcomm uma das maiores empresa do mundo. Ela pavimentou muito do que temos hoje com as comunicações sem fio a nível global. Seu modelo de licenciamento tornou a companhia extremamente lucrativa e ajudou a consolidar sua posição de liderança.

Os tempos hoje estão mais competitivos e os reguladores estão em cima do modelo de negócio da empresa. O mercado de smartphones não crescerá mais como antigamente, mas a tecnologia 5G e a disseminação da conexão móvel para aparelhos diversos e automóveis pode ser a nova rota a seguir a partir de 2020. Resta saber se a Qualcomm continuará inovando e mantendo sua posição de liderança neste novo mundo conectado.

 

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Este post tem 20 comentários

  1. Avatar

    Muito Bom Artigo.

  2. Avatar

    Bom dia Raphael Monteiro…
    Um obrigado daqui da Suiça, para este alerta, mas tambem, para o excelente trabalho que tem vindo a desenvolver…
    Renovo os meus agradecimentos…
    Cumprimentos
    rui reis

    1. Raphael Monteiro

      Olá Rui,

      Obrigado por comentar.

      Em breve darei uma passadinha aí na Suíça. 🙂

      Abçs!

  3. Avatar

    Excelente análise, Raphael. Como comprar ações se você já possui conta legal nos EUA?

    1. Raphael Monteiro

      Olá Sérgio,

      Se for corretora, é só usar o home-broker. Se for banco, precisaria falar com o gerente para ver o procedimento.

      Abçs!

  4. Avatar

    Investidor Internacional,

    Interessante o seu post. Apesar de não ser muito conhecida pela maioria, acredito que é uma grande empresa que veio para ficar.

    Boa semana,

    1. Raphael Monteiro

      Olá Rosana,

      Pode não ser conhecida como investimento, mas os chips dela estão na maioria dos celulares.

      Abçs!

  5. Avatar

    Rapha, você sabe se é possível comprar algum ETF com essa ação aqui do Br?
    Obrigada!

    1. Raphael Monteiro

      Olá Mariana,

      A Qualcomm faz parte do S&P 500, mas a participação dela é bem pequena no índice.

      Tem 2 ETFs de S&P 500 negociados no Brasil. IVVB11 e SPXI11.

      Abçs!

  6. Avatar

    Blz Raphael,

    Pensei que vc não iria mais escrever sobre nossas queridas stocks..
    Excelente post.

    Abs,

  7. Avatar

    Olá, comparando com a NVDIA qual seria a sua preferida para lucrar com ações? Obrigada, Mila

  8. Avatar

    Seus artigos são bem informativos, vendo que muitas pessoas buscam informações relevantes, muito bom quando encontramos conteúdo de qualidade como esse. Parabénsl

  9. Avatar

    Caramba!Gostei muito do artigo do seu site. Estarei acompanhando sempre.Grata!!!

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