Quando vender uma ação?

vender ação

Uma das tarefas mais difíceis para o investidor é saber quando vender uma ação

Já existe uma série de artigos, livros e trabalhos que procuram mostrar como selecionar ações para compra. Eu mesmo já publiquei textos específicos sobre isso chamados Como escolher as melhores ações e 6 formas incomuns de selecionar ações e um vídeo intitulado Os 12 critérios para analisar uma ação segundo a NASDAQ. Entretanto, a situação que fecharia a operação, a venda, é pouco abordada.

O que acontece com frequência com quem está começando é vender de acordo com as flutuações de preço. Quando o preço começa a cair, o investidor fica na esperança de que irá parar de cair até chegar num ponto que ele não aguenta ver o prejuízo aumentar e acaba decidindo vender a ação.

Outra situação é quando a ação começa a subir e o investidor vende cedo para realizar o lucro, sem avaliar o potencial que a ação tem de subir ainda mais, praticamente esquecendo que existe uma empresa por trás da ação.

A flutuação de preço em si não é um motivo para executar uma venda, a não ser que dentro da sua estratégia você use “stops” como controle de risco. Para o investidor de longo prazo, a empresa é mais importante que a ação e irei falar mais sobre os critérios mais importantes envolvendo a decisão de venda.

Que seja eterno enquanto dure

Um problema comum que dificulta a venda de uma ação é o fato de muita gente acreditar na balela de que ela deve ser mantida para sempre, como se tudo que envolvesse a empresa e a economia fosse estático. Só que a empresa muda, a economia muda, a tecnologia muda, as preferências dos consumidores mudam, entre tantas outras variáveis. O mercado de ações lhe oferece a vantagem que os donos de negócios próprios não têm, que é entrar e sair dos investimentos com rapidez. É preciso saber se aproveitar disso para entrar nos melhores barcos e deixá-los na ameaça de naufrágio.

Já existe uma gama histórica de empresas que um dia foram grandes e depois viram seus negócios afundarem. As causas foram diversas, desde a Kodak e a Olivetti pelas mudanças tecnológicas até o centenário Lehman Brothers pelo excesso de exposição a papéis podres hipotecários, passando pela gigante Enron, que tinha seus balanços fraudados.

No Brasil, tivemos como caso emblemático as empresas do Grupo X de Eike Batista. Havia muita gente do mercado financeiro brasileiro, bem como inúmeros investidores estrangeiros, apostando nas ações do grupo, particularmente da OGX. Na época, a OGX era considerada por muitos a Petrobras privada. Se a Petrobras, em 2007, era uma máquina de fazer dinheiro, imaginava-se como seria uma petrolífera brasileira privada. O resultado todos sabemos.

Claro que nem sempre será possível identificar com precisão quando uma empresa sairá dos trilhos, particularmente em se tratando de fraudes. Isso torna o ato da venda ainda mais difícil. Não se trata de uma ciência exata, mas de uma análise que requer uma certa futurologia em traçar cenários baseados naquilo que está acontecendo e poderá acontecer com a empresa. É necessário uma análise tanto da empresa, como do setor e da economia como um todo para saber a hora certa de sair.

Este é o caso dos bancos brasileiros. Muitos gestores têm acreditado que a competição com bancos digitais, mais enxutos e baratos irá acabar com as grandes margens dos “bancões” brasileiros, que possuem uma estrutura cara de agências e funcionários e que cobram tarifas mais caras. Se isso se concretizar, as ações deles valerão muito menos do que valem hoje.

Saber avaliar se os bancos saberão competir no mercado digital sem perder a lucratividade ou se terão seus resultados impactados no futuro será primordial para os acionistas decidirem a manutenção ou a venda das ações.

Conforme eu já havia comentado no artigo O investidor de retrovisor, avaliar o futuro da empresa é tão ou até mais importante do que acompanhar balanços e resultados atuais. No exemplo da Cielo, foi a mudança da regulamentação que a protegia e a chegada de concorrentes, que fizeram seus resultados piorarem e as ações caírem.

Outra situação em que é interessante vender uma ação é quando você encontra outra com perspectivas melhores, mas não tem o dinheiro em caixa para comprar e resolve trocar uma ação por outra. É um motivo bastante forte para venda se você fez o dever de casa e avaliou que havia uma opção fora da carteira com maior potencial que alguma das suas ações atuais.

A troca de executivos também pode ser crucial para uma mudança nas perspectivas da companhia. Você deve se lembrar quando o Pedro Parente deixou a Petrobras. As ações sofreram fortemente, pois muitos viam nele alguém competente que recuperou a empresa após anos de prejuízo. Ao mesmo tempo, a ação de seu destino, a BRF, subia fortemente pela chegada do executivo.

Esse é um dos pontos que o investidor comum tem mais dificuldade de avaliar, que é saber quem são os responsáveis pela empresa. É um dado muito importante, pois os rumos de uma empresa são decididos por pessoas. Se os executivos da Xerox tivessem valorizado os cientistas do PARC, que criaram a interface gráfica visual e o mouse, ela hoje talvez estivesse onde a Microsoft e Apple estão.

Para finalizar, as situações mais simples para determinar a venda de uma ação são quando ela não entrega os resultados que você espera, quando ela começa a perder mercado para concorrentes, quando seus produtos não vendem mais como antes ou estão ficando defasados. Entretanto, frequentemente, quando a piora da empresa já aparece no balanço o preço da ação já caiu antes, pois o mercado costuma antecipar os resultados.

Conclusão

Não basta apenas saber comprar uma ação e se tornar torcedor depois. Você deve acompanhar as empresas em que investe, tanto no que se refere aos resultados, quanto nos projetos e estratégias que estão ou serão implementadas. Também deve avaliar o mercado em que a empresa está inserida e se há mudanças no cenário, bem como nos concorrentes.

Não é uma tarefa simples, mas ela deve estar presente na rotina de todo investidor em ações que deseja ter sucesso em seus investimentos.

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Este post tem 4 comentários

  1. Avatar

    Bom dia Raphael!
    O mesmo raciocínio vale para as Preferred Stocks negociadas no mercado norte-americano?
    Abraço, Arnaldo

    1. Raphael Monteiro

      Olá Arnaldo,

      Ações preferenciais têm uma dinâmica diferente, já que a preocupação maior é com o fluxo de caixa e endividamento da companhia, mas claro que a piora da empresa tende a desvalorizar tudo, ações preferenciais e bonds inclusive.

      Abçs!

  2. Avatar

    Oi II, muito bom como sempre.

    Uma dúvida. Você escreveu: “as situações mais simples para determinar a venda de uma ação são quando ela não entrega os resultados que você espera, quando ela começa a perder mercado para concorrentes, quando seus produtos não vendem mais como antes ou estão ficando defasados.”.

    Mas e quando as vezes a empresa sofre um turnaround? Ela estava indo super mal, e chega alguém e dá uma revertida em tudo? Exemplo da Apple nos anos 90 que vinha perdendo muito valor…aí o Steve Jobs voltou e catapultou para cima novamente a empresa.

    Outra dúvida: Você já leu “The Little Book That Beats The Market” ? O que acha desse tipo de estratégia?

    Abs,
    A

    1. Raphael Monteiro

      Olá Alexandre,

      Em geral o turnaround acontece quando a empresa já está com resultados bem ruins e a ação despencou. E nem sempre este processo de turnaround é bem sucedido.

      Ainda não li o livro, mas sei do que se trata. É uma estratégia boa, mas tem mais efeitos para carteiras grandes. O fundo do Greenblat tem quase mil ações e o turnover entre as posições é grande.

      Abçs!

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