Renda fixa no exterior: Como multiplicar lucros

Renda Fixa

Uma estratégia de investimento em renda fixa no exterior que fará você ganhar mais

O que eu mais ouço falarem é que investir em renda fixa no exterior não vale a pena, porque os juros são baixos e etc. Isso obviamente tem um fundo de verdade, mas esconde a melhor parte da história.

O mercado de Bonds internacionais é gigantesco, dinâmico e de alta liquidez. De acordo com os dados mais recentes que consegui (J.P. Morgan Guide to the Markets – Abril de 2020), o mercado internacional de Bonds era composto de:

  • Países desenvolvidos fora dos EUA: 46 trilhões de dólares (41%)
  • Estados Unidos: 41 trilhões de dólares (36%)
  • Mercados Emergentes: 25 trilhões de dólares (23%)

É fato que os juros estão em patamares historicamente baixos, particularmente depois das medidas tomadas nos Estados Unidos como forma de enfrentamento da crise. Na Europa e Japão, a situação é ainda pior, já que entre 4 e 5% dos títulos “pagam” juros negativos neste momento.

Entretanto, existe um universo que vai além disso.

As características dos Bonds

Ao contrário do mercado de renda fixa brasileira no qual os títulos corporativos não possuem muita liquidez e a negociação não é feita de forma transparente como nas ações, no mercado internacional você pode negociar os títulos diretamente no home-broker (dependendo da corretora), acompanhando o “book” de ofertas e os gráficos.

Seria como o mercado de Tesouro Direto Prefixado (no exterior a maior parte dos títulos é prefixada), mas você podendo negociar os títulos soberanos e corporativos com outros investidores.

Se os investidores entendem que o risco aumentou e começam a vender os títulos, o preço dos títulos cai e os juros pagos por eles consequentemente sobem. O inverso acontece quando a percepção de risco cai, os investidores começam a comprar os títulos, o preço se valoriza e consequentemente a remuneração em termos de juros cai.

O modo como a negociação de títulos de renda fixa é feita hoje no Brasil é bastante prejudicial ao mercado, em particular ao pequeno investidor.

Qual a estratégia para multiplicar lucros em renda fixa no exterior?

A estratégia é reconhecer um problema que leve ao aumento da percepção de risco de algum país ou empresa. Quando isso acontece, o mercado vende os títulos de dívida emitidos pela entidade problemática e o preço deles cai.

A ideia é comprar esses títulos desvalorizados quando você identificar que o problema é passageiro e que não afetará a capacidade de pagamento de dívida. Ou então que você perceba que o mercado irá reconsiderar para menos o risco daquela dívida no futuro, mesmo que o emissor continue em dificuldades.

Vou dar exemplos para ilustrar.

O escândalo da Volkswagen

No dia 18 de setembro de 2015 foi revelado nos Estados Unidos que a Volkswagen havia intencionalmente programado a injeção eletrônica de carros com motores a diesel para ativar determinados controles de emissão de poluentes apenas durante testes. Quando colocados nos carros, estes motores emitiam 40 vezes mais óxido de nitrogênio. Esta fraude ocorreu em mais de 11 milhões de carros no mundo todo.

A reação do mercado em relação ao aumento de risco foi instantânea, já que este tipo de fraude poderia ser punido com multas bilionárias e diversas restrições para a empresa, além de manchar sua reputação.

Os bonds da Volkswagen foram massacrados. Um em específico emitido naquele ano com vencimento em 2021 e pagando cupom de 2,5% em Euro, caiu de 95% para menos de 80% do valor de face.

Agora veja o gráfico deste título e veja se quem comprou o título no momento do desespero fez um bom ou mau negócio:

renda fixa no exterior
O círculo vermelho marca a data do escândalo de fraude nos carros da Volkswagen

Não é difícil entender que por mais que a indústria automobilística não seja uma fortaleza financeira, a Volkswagen é uma empresa gigantesca com vendas de 202 bilhões de Euros em 2014, ano antes do escândalo.

Nos Estados Unidos, a empresa foi condenada a reparar os carros ou a recomprá-los dos proprietários. As multas somaram quase 5 bilhões de dólares fora a burocracia e a dor de cabeça para satisfazer as autoridades.

É o tipo de situação que, apesar de grave, não teria capacidade de comprometer o futuro da empresa.

A Samarco e o rompimento da barragem de Mariana

No dia 5 de novembro de 2015, uma barragem usada pela companhia de mineração Samarco, uma joint-venture entre a Vale e a BHP Billiton, rompeu a 35km do centro da cidade de Mariana em Minas Gerais. O conteúdo de lama e rejeitos estimados em 62 milhões de metros cúbicos invadiram os subdistritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, bem como a cidade de Mariana. Além da morte de 19 pessoas, houve destruição e contaminação do solo e rios da região, no que foi o maior desastre ambiental do Brasil.

A Samarco não é uma companhia de capital aberto, mas seus títulos de renda fixa (bonds) são negociados no mercado. Um deles emitido em 2012 com vencimento em 2022 e pagando cupom de 4,125% estava sendo negociado à época a 80% do valor de face. Após o acidente, o título chegou a cair para 33% do valor de face, o que implicava um yield até o vencimento de 24,9% ao ano.

renda fixa no exterior - samarco mineração
O círculo em vermelho mostra os dias e semanas que se sucederam ao desastre de Mariana

Aqui a situação é um pouco mais crítica, já que a Samarco não tem o mesmo tamanho da Volkswagen e o desastre foi muito maior do que uma fraude pontual.

Após o colapso de preço dos títulos, muita coisa aconteceu. A empresa está desde então sem pagar os cupons de juros e está negociando com credores a reestruturação da dívida. Os títulos que vencem em 2022 e 2024 somam 2,2 bilhões de dólares. Este ano a produção de minério deve atingir um terço da capacidade da empresa e apenas em 2030 estima-se que ela volte à produção total.

Houve muita volatilidade em 2016 e o título voltou a colapsar, mas recuperou em 2017 (o gráfico não mostra, mas a negociação do título no ano foi normal). O fato é que quando se compra títulos neste nível de estresse, a tendência é vender na melhora da percepção, como foi em 2016 e não segurar até o vencimento. Mesmo quem segurou até 2018 e 2019, pôde vender com mais de 100% de lucro, mas ter segurado até 2020 não foi um bom negócio. Não bastasse os problemas da empresa, a crise atual está sendo cruel com os títulos high yield.

Vale, Mariana e Brumadinho

Os títulos da Vale seriam uma alternativa menos arriscada de investimento especulativo após o rompimento da barragem de Mariana. O título de vencimento em 2034 e que paga 8,25% de cupom chegou a cair quase 50% do topo em 2015.

vale - renda fixa no exterior
O círculo em vermelho mostra os dias e semanas que se sucederam ao desastre de Mariana

 

O desastre de Mariana foi impactante, mas não o suficiente para comprometer a geração de caixa e situação financeira da Vale como um todo. Os títulos sofreram mais que a empresa.

O acidente de Brumadinho, em 25 de janeiro de 2019, foi menor em extensão quando comparado a Mariana, mas custou 270 vidas. O impacto nos títulos foi pequeno, com quedas entre 5 e 10% nos títulos que consultei.

Conclusão

Existem outros exemplos de crises pontuais que proporcionaram oportunidades de investimento especulativo nos bonds emitidos pelas empresas ou países afetados.

  • Fraude da BRF em 2018
  • Escândalos de corrupção na Petrobras em 2015/2016
  • Crise e recessão no Brasil em 2015 e 2016

Portanto, estar atento a estes movimentos pode trazer bons frutos para quem tiver liquidez e souber aproveitar essas oportunidades.


Para ser apresentado a grandes oportunidades de investimento no exterior, não esqueça de conhecer o Passaporte Internacional.

No meu último desafio feito em meio ao caos de março, a ação revelada chegou a subir mais de 200% em 43 dias. Muita gente garantiu anos de assinatura com apenas um único investimento.

grafico

membro

Aviso: Declaro que não sou analista de valores mobiliários. As informações discutidas no artigo possuem propósito educacional e refletem única e exclusivamente meus estudos, pesquisas e opiniões. Não devem ser consideradas como recomendação de investimento.

Compartilhar no facebook
Facebook
Compartilhar no google
Google+
Compartilhar no twitter
Twitter
Compartilhar no linkedin
LinkedIn
Compartilhar no pinterest
Pinterest

Este post tem 25 comentários

  1. Avatar
    Douglas

    Falando em RF no exterior, você acompanha os tweets do George Soros ?
    *
    Ele não é flor que se cheire, mas tem nome no mercado internacional (e influência em muitos lugares), ando acompanhando os tweets dele e no último post publicado ele está sugerindo a emissão dos bonds perpétuos (esses bonds só pagam os cupons) pela União Européia.
    *
    “To raise the €1 trillion it needs to fight the COVID-19 pandemic and to ensure its survival as a Union, the EU should issue perpetual bonds, as Spain suggests”

    1. Raphael Monteiro

      Olá Douglas,

      Já existe bond perpétuo de muitas empresas, como Itaú e Banco do Brasil inclusive.

      Abçs!

      1. Avatar
        Douglas

        Não sabia que tinha do Itaú e do BB, uma vez vi um da Petrobras que não era “perpetuo”, mas era com vencimento em 100 anos.
        *
        Se bem que dependendo da idade do investidor, 100 anos pode ser perpétuo 🙂

  2. Avatar
    Alison

    Penso numa carteira de ETFs VOO, VNQ, SLYV. O que acha? Os 30% sobre os dividendos não comprometeria significativamente os rendimentos no longo prazo?

    1. Raphael Monteiro

      Olá Alison,

      Os 30% prejudicam sim. Uma forma de contornar isso é investir em ETFs fora dos EUA ou em países que não tributam dividendos como Cingapura e Hong Kong.

      Quando você investe diretamente em bonds, não há impostos na fonte sobre os cupons.

      Abçs!

      1. Avatar
        Marilia

        É possível para não residentes investir diretamente em bonds nos EUA? Obrigada.

  3. Avatar
    Luis Muratore

    Complementando sua excelente matéria de oportunidades de compra de bonds, segue um exemplo bem recente, onde abriu uma oportunidade de compra. Embraer na semana retrasada no valor de 96, teve uma queda para 84, abrindo 16% do valor de face para vencimento 2025. Boeing desiste da fusão entre as empresas e o mercado precifica para baixo. Tenho um portfólio de bonds no exterior desde 2008, e acompanho suas matérias desde seu inicio. Gostava quando publicava a evolução da sua carteira, servia de inspiração. Abcs.

    1. Raphael Monteiro

      Olá Luis,

      Eu comprei um dos bonds da Embraer a 13% de yield. Estão ainda bem atrativos.

      Abçs!

    2. Avatar
      Leon

      Parabéns
      Bem esclarecedora a materia

  4. Avatar
    Elias de Mesquita Junior

    Parabéns , excelente matéria !!!!

  5. Avatar
    Uillians

    Interessante, deu pipino em empresas que tem esses Bonds, cai se for viável a recuperação compra, muito bom

    1. Raphael Monteiro

      Olá Uillians,

      Existem situações mais arriscadas e outras menos arriscadas.

      É preciso saber dosar.

      Abçs!

  6. Avatar
    A.

    Olá II, tudo bem?

    Uma pergunta sobre alguns ETFs que conheço, como por exemplo o SHV.
    Esse é um ETF de bonds.

    Para comprar ele, na corretora americana, é igual comprar uma ação, então?

    Outra dúvida. Esse ETF é de titulos de curto prazo, como 3 meses.
    O que acontece depois de 3 meses quando o titulo vence? Meu investimento expira? Nao entendo direito isso.
    Imagino que como é um ETF, ele fica sempre comprando os mesmos titulos, então quando um vence, ele compra outro.

    1. Raphael Monteiro

      Olá A.,

      Sim, a compra de ETFs tem o mesmo procedimento da compra de ações.

      O ETF nunca expira, a não aqueles de prazo definido. Quando o título vence e compra novos títulos e assim sucessivamente.

      Abçs!

      1. Avatar
        A

        Olá II, tudo bem?

        Vi que esse SHV é de títulos pré fixados. Eu estava procurando um ETF de bonds para ter tipo um Tesouro Selic em dólares, onde eu poderia colocar reserva de emergencia.

        Aqui no Brasil pelo menos, entendi que reserva de emergencia nâo deve ser colocada em tesouro pré fixado pois o risco do juros pode prejudicar o investimento com a marcação a mercado.

        Nos EUA existe algum ETF de bonds que seja ideal para reserva de emergencia?
        E outra dúvida…o SHV oscila de preço. Mês passado estava em 112, agora 110. Para reserva de emergencia isso é ruim, certo?

        1. Raphael Monteiro

          Olá A,

          Para reserva de emergência, você pode deixar o dinheiro em conta corrente mesmo ou em Money Market, que rende um pouquinho.

          Título pós-fixado é mais raro nos EUA, mas há treasuries com essa opção.

          Abçs!

  7. Avatar
    Daniel Moller

    Boa noite Raphael, tudo bem?
    Achei interessante esses investimentos em Bonds.
    Teria algum site onde pesquisar sobre sobre os códigos desses Bonds?

  8. Avatar
    Charles

    Boa noite, Raphael. Excelente post.

    Fui verificar alguns bonds no business insider e não estou entendendo como é calculado o annual yield quando há uma depreciação como essa dos bonds. As contas que fiz nos simuladores que achei na internet não fecham em relação ao site. Provavelmente estou inserindo alguma informação errada. Se puder, indique algum link que ensina como que calcula isso ou faça algum post demostrando como faz, se puder. Com certeza há alguma fórmula que eu não sei.

    1. Raphael Monteiro

      Olá Charles,

      O Business Insider possui diversos bugs nas atualizações de preços e yields.

      Não é uma fonte confiável.

      Use o próprio home-broker ou o site da FINRA.

      Abçs!

  9. Avatar
    THIAGO WOLF

    BOM DIA RAFAEL . NA INTERACTIVE BROKERS EU CONSIGO COMPRAR E VENDER BONDS CORPORATIVOS E SOBERANOS ? VI TAMBEM QUE BONDS DO ITAU OU BB GERALMENTE EXIGEM UM VALOR MINIMO DE 200.000 DOLARES !!! É POSSIVEL COMPRAR UMA FRACAO OU PORCENTAGEM DESSE MINIMO ?

    1. Raphael Monteiro

      Olá Thiago,

      Consegue comprar sim.

      Mínimo é mínimo. Não consegue comprar fracionado. Geralmente esses tickets elevados são voltados para grandes fundos de investimento.

      Abçs!

Deixe uma resposta

Posts com maior repercussão