Tabaco ainda é um bom negócio?

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Veja se vale a pena investir nas ações de tabaco

Não precisa ser um investidor tão velho assim, mas o dia 16 de outubro de 2015 foi um dos dias mais tristes da história da Bovespa. Não houve crash e nem pânico no mercado financeiro. Neste dia, as ações da Souza Cruz (CRUZ3) praticamente deixaram de ser negociadas em Bolsa, pois no dia anterior, a British American Tobacco fez uma OPA e adquiriu cerca de 90% das ações.

A fabricante de cigarros era uma das ações preferidas dos brasileiros, por ser estável, altamente lucrativa e distribuir muitos dividendos. Além de ter sido uma das ações mais antigas (listada na Bolsa do Rio em 1946 e na Bolsa de São Paulo em 1957) foi uma das mais deu dinheiro para os acionistas. Entre janeiro de 2001 e fevereiro de 2015, as ações valorizaram 5.602%.

Não apenas no Brasil, mas também no exterior, as empresas de tabaco historicamente tem sido das mais lucrativas. Durante décadas, o hábito de fumar era bastante comum e estimulado. As propagandas eram icônicas, seja da Marlboro, que tinha o melhor visual, ou da Hollywood, que tinha a melhor trilha sonora.

Os tempos mudaram

Todo esse sucesso acabou pouco a pouco sendo eclipsado pelas questões de saúde envolvendo o tabagismo. O aumento da regulação, dos impostos e as diversas restrições, associadas a uma mudança de comportamento do consumidor, bem como mais recentemente às questões de ESG, estão trazendo novos desafios às empresas do setor.

Essa mudança de paradigma tem feito com que as empresas invistam em produtos alternativos que tenham o mesmo apelo, sem oferecer o mesmo risco de saúde aos usuários. Além disso, estão procurando diversificar suas linhas de produtos e adquirindo participação em outras empresas já vislumbrando a continuidade da queda do consumo de cigarro.

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Vendas de cigarro por adulto por dia nos países desenvolvidos

 

Atualmente já não existem mais tantas empresas de tabaco assim. Existem as grandes e tradicionais, também chamadas de “majors”,  em especial nos Estados Unidos, Europa e Japão. Até onde eu sei, não existe nenhum ETF que ofereça exposição exclusiva a essas empresas, mas sim o oposto, ou seja, ETFs que investem em tudo menos tabaco.

Principais ações de tabaco

Altria Group (NYSE:MO)

A Altria é a tradicional fabricante do Marlboro e responsável pelas marcas Parliament e Virgina Slimse nos Estados Unidos. Foi formada pela divisão da Philip Morris. A Altria ficou com o mercado americano e a Philip Morris International ficou com o exterior.

Com o consumo de cigarro caindo nos Estados Unidos, a Altria tomou medidas de diversificação de produtos. Comprou 35% da fabricante de cigarros eletrônicos Juul e  45% da produtora de Cannabis canadense Cronos Group.

Para quem não conhece, o cigarro eletrônico é basicamente um aprelho alongado que é abastecido com uma solução líquida contendo nicotina. O cigarro aquece a solução, que vaporiza juntamente com a nicotina, sendo então inalada.

Entretanto, o avanço dos reguladores em cima desses aparelhos e dos seus refis que usam algum tipo de sabor fez com que as vendas da Juul despencassem.

Mesmo com esses problemas, a Altria tem sido uma máquina de dividendos. Extra-oficialmente poderia até ser considerada Rei dos Dividendos, já que ela aumentou os dividendos 55 vezes nos últimos 51 anos.

Philip Morris International (NYSE:PM)

A Philip Morris vende as mesmas marcas da Altria só que no mercado internacional. E da mesma forma que ela, a Philip Morris também tem se deparado com queda nas vendas e buscado alternativas.

A sua diversificação fora do cigarro convencional é focada no tabaco aquecido e não queimado (Heat-not-burn ou HNB). Como o próprio nome diz, o tabaco é apenas aquecido para liberar o sabor e a nicotina. Desta forma, a emissão de substâncias potencialmente nocivas é menor comparada a um cigarro tradicional.

O produto criado pela empresa é chamado de IQOS (I Quit Ordinary Smoking) e seu funcionamento pode ser visto no vídeo abaixo:

Como você pôde notar, o IQOS é diferente do vapor da Juul, pois usa tabaco e não apenas um líquido com nicotina. A semelhança é que ambos podem sofrer riscos regulatórios que podem, em último caso, tirá-los do mercado.

A Philip Morris tem também sido muito lucrativa e uma máquina de dividendos nos últimos anos.

British American Tobacco PLC (NYSE:BTI, LSE:BAT)

A British American Tobacco é a maior empresa de tabaco do mundo. Em 2017, adquiriu a Reynold American por 49 bilhões de dólares. A companhia detém marcas conhecidas como Camel, Newport, Dunhill, Natural American Spirit e Lucky Strike. Ao contrário das Altria e Philip Morris, a BAT atua mundialmente, inclusive no Brasil, como já falado.

Existe também uma preocupação em diversificar para os produtos eletrônicos. Em 2013, lançou o cigarro eletrônico Vype, usado em diversos países, incluindo o Reino Unido. Nos Estados Unidos, a aquisição da Reynolds American trouxe o Vuse para o portfólio de produtos.

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Projeção da BAT para o mercado de tabaco em 2025

 

Em 2019, a empresa separou as novas categorias de produtos em 3 marcas distintas:

  1. Vuse: cigarro eletrônico (vapor)
  2. Velo: produtos orais modernos
  3. glo: produtos para aquecimento de tabaco

São marcas globais e que visam colocar a empresa em evidência nos segmentos que mais crescem.

Imperial Brands PLC (LSE:IMB)   

A Imperial Brands é uma empresa britânica de alcance mundial, atuando em todo mundo. Entretanto, cerca de 72% do lucro operacional vem de 5 países (Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Austrália e Espanha).

É dona de marcas como John Player Special, West, Davidoff, blu, Salem, Backwoods, Gauloises, Parker Simpson, Winston, Kool, Pulze, L&B e Rizla.

A empresa possui hoje dois focos principais, fortalecer as marcas mais baratas (chamadas de desconto) e divulgar os novos produtos eletrônicos.

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Produtos de cigarro eletrônico da Imperial Brands

Conclusão

As empresas de tabaco passaram décadas nadando de braçada em meio ao vício disseminado do tabagismo. Agora rastejam em um campo minado de riscos regulatórios. Entretanto, mesmo em declínio, continuam sendo um negócio viável e que encontrou novas formas de atuar.

Essa próxima geração de tabaco parece promissora, mas já nasce sobre o escrutínio público e legal. É uma nova batalha sem data para acabar. Caso a indústria consiga contornar esse obstáculo, essas ações podem continuar sendo uma excelente alternativa de investimento para dividendos.

Aviso: Declaro que não sou analista de valores mobiliários. As informações discutidas no artigo possuem propósito educacional e refletem única e exclusivamente meus estudos, pesquisas e opiniões. Não devem ser consideradas como recomendação de investimento.

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Este post tem 2 comentários

  1. Raphael,

    O gráfico que colocou diz muito: é uma indústria que precisa se reinventar.

    A questão é: será que as novas gerações ainda vão consumir em larga escala um produto tão viciante e prejudicial à saúde?

    O gráfico diz muito também quando pensamos no aviso de que retornos passados não são garantia de rentabilidade futura.

    Não sabia que uma das empresas já era listada desde 1946. Isso mostra o grande poder dessa indústria.

    Mesmo que fossem muito baratas, eu não compraria ações dessas empresas, pois cigarro é um produto do qual fico longe. É algo totalmente contra meus valores e princípios.

    Boa semana,

    1. Olá Rosana,

      Sim, o cigarro é um produto que está com o consumo cada vez menor, mas esses novos produtos têm alcançado um bom público, principalmente entre os jovens.

      Entretanto, o risco regulatório é bem grande.

      Abçs!

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