Uma carteira de ações inspirada na Berkshire Hathaway

carteira de ações

Como ficaria uma carteira de ações que seguisse o portfólio completo de Warren Buffett?

Que pessoa não gostaria de ter uma carteira de ações que seguisse fielmente o portfólio do maior investidor de todos os tempos? Aposto que você gostaria.

Warren Buffett e a Berkshire Hathaway já foram destaques em alguns artigos que publiquei nos últimos anos, sempre buscando os ensinamentos que o tornaram um dos homens mais ricos do mundo.

Ter uma carteira como a dele é algo bem simples, se você optar por comprar diretamente as ações da Berkshire Hathaway, que são negociadas na Bolsa de Nova Iorque. Essa opção esbarra em alguns “problemas”, caso você queira ter maior controle sobre o seu portfólio. A Berkshire se tornou muito grande e seu universo de investimento se tornou pequeno demais. Ela possui muitas empresa de capital fechado de difícil avaliação. Ela não distribui dividendos, caso seja do seu interesse recebê-los.

Em vista disso, resolvi fazer um exercício em cima do portfólio completo da empresa. A ideia seria simplificar e recriar a carteira de ações da Berkshire Hathaway de forma que uma pessoa comum pudesse investir e ter o controle sobre todas as posições.

A metodologia

Para começar, pegamos todo o portfólio da Berkshire Hathaway, composto por ações públicas e por subsidiárias privadas. Subdividimos cada uma das partes em setores e segmentos para descobrir em que proporções elas estão distribuídas.

Do portfólio de ações públicas pegaremos as mais representativas e do portfólio de subsidiárias privadas pegaremos ações listadas que sejam as mais próximas possíveis do modelo de negócio que Buffett e Munger gostam.

Como já abordado no artigo Companhia Maravilhosa, eles têm preferência por ações de empresas consideradas seguras (com baixo beta e baixa volatilidade) e que sejam de alta qualidade (lucrativas, estáveis e de resultados crescentes).

A carteira da Berkshire Hathaway

Não é uma tarefa simples tentar resumir e estimar valores do portfólio completo de uma holding gigantesca como a Berkshire Hathaway. Qualquer metodologia usada apresentará falhas, pois são dezenas de companhias de capital fechado, muitas delas compradas há décadas, o que torna difícil estimar seus valores atualmente.

Daí a ideia de juntá-las em setores onde seria possível substituir o grupo de subsidiárias por empresas listadas semelhantes.

Eu percorri uma série de artigos nos quais exercícios semelhantes foram feitos. Tentarei resumi-los e adicionar um toque pessoal para que tenhamos algo simplificado, mas bastante próximo ao que Buffett teria se fosse um investidor comum.

Antes de começar é preciso tomar cuidado quando se lê por aí dizendo qual é a carteira da Berkshire Hathaway. O que é divulgado é apenas a porção de ações públicas da companhia. Como se sabe, investidores institucionais americanos que detêm carteira com investimentos acima de 100 milhões de dólares são obrigados trimestralmente a divulgá-la por meio do formulário 13F.

Mas é só essa parte da carteira que é divulgada. O resto é preciso ser avaliado por meio dos relatórios publicados pela própria Berkshire. Os resultados das empresas não são divulgados individualmente, mas sim por segmentos, conforme você verá logo abaixo.

Quebrando o portfólio da Berkshire Hathaway

Os dados aqui foram tirados de análises publicadas anteriormente e outros vieram diretamente dos relatórios anuais e trimestrais da Berkshire Hathaway.

Tentei aproximar algumas análises que foram feitas baseadas no resultado completo do ano de 2019 com as posições detidas pela empresa no último relatório 13F que refletiam as posições ao final de setembro de 2020. Como sabemos, a atual pandemia prejudicou uma série de negócios da Berkshire Hathaway e as receitas dos primeiros trimestres de 2020 vieram muito distorcidas em relação aos anos anteriores.

Dadas essas circunstâncias, as últimas análises indicam que o portfólio completo da empresa pode ser dividido assim:

  • Ações de empresas públicas: 35%
  • Participação em subsidiárias: 45%
  • Dinheiro em caixa: 20%

Ações de empresas públicas (35%)

Esta parcela é a mais simples de calcular, pois ela é divulgada trimestralmente. No último formulário 13F, a carteira de ações da Berkshire estava subdividida nos seguintes setores:

  • Tecnologia (50%)
  • Serviços financeiros (27%)
  • Consumo não-cíclico (13%)
  • Saúde (4%)
  • Comunicação (2%)
  • Consumo cíclico (2%)

A tecnologia é praticamente apenas as ações da Apple (AAPL). Em serviços financeiros temos Bank of America (BAC) com 10%, American Express (AXP) com 7% e Moody’s (MCO) com 3%. Consumo defensivo é composto por Coca-Cola (KO) com 8% e Kraft-Heinz Company (KHC) com 4%. Saúde é composta por DaVita Healthcare (DVA), Merck & Co (MRK) e Bristol Myers Squibb (BMY), cada uma com cerca de 1%. Em Comunicação, temos Charter Communications (CHTR) e Verisign (VRSN) com 1% cada. Em Consumo cíclico, temos General Motors (GM) e Amazon (AMZN) com 1% cada.

Para os percentuais não ficaram muito pequenos, pegarei uma ação representativa dos setores com as menores fatias. Uma ação para saúde e uma entre comunicação e consumo não-cíclico. Usarei uma outra ferramenta quantitativa para avaliar qual a melhor ação entre elas por meio da combinação de valor, crescimento e lucratividade.

Esses 35% do portfólio ficariam divididos assim:

  • Apple (AAPL): 16%
  • Bank of America (BAC): 6%
  • American Express (AXP): 4%
  • Coca-Cola (KO):4%
  • Moody’s (MCO): 2%
  • Kraft-Heinz Company (KHC): 1%
  • Bristol Myers Squibb (BMY): 1%
  • Amazon (AMZN): 1%

Participação em subsidiárias (45%)

Esta parcela é a mais difícil de calcular visto que as empresas possuem capital fechado e há uma grande parcela de companhias de seguro, cuja avaliação é mais complexa.

Alguns analistas usam a divisão por receita das subsidiárias para chegar em um número aproximado. Outros usam o lucro. A divisão por receita favorece a posição em seguradoras. A divisão por lucro favorece a posição em ferrovias. Resolvi usar as receitas.

Assim, descobrimos que a participação de cada segmento na receita da Berkshire Hathaway é a que segue:

  • Serviços e Varejo: 32%
  • Seguros e resseguros: 25%
  • Ferrovias: 10%
  • Energia e utilidade pública: 8%
  • Manufatura (industrial): 12%
  • Manufatura (construção): 8%
  • Manufatura (consumidor): 5%

Quando se considera que essa parcela corresponde a 45% da carteira, a proporção final e as respectivas ações são estas:

  • Serviços e Varejo: 14% – CVS Health (CVS) e The Kroger Co. (KR)
  • Seguros e resseguros: 10% – Chubb Limited (CB) e MetLife (MET)
  • Ferrovia: 5% – Union Pacific (UNP)
  • Energia e utilidade pública: 4% – PPL Corporation (PPL)
  • Manufatura (industrial): 6% – Honeywell International (HON)
  • Manufatura (construção): 4% – D.R. Horton, Inc. (DHI)
  • Manufatura (consumidor): 2% – Constellation Brands (STZ)

Dinheiro em caixa (20%)

Aqui não tem o que calcular. São 20% da carteira em caixa.

Resultado

A carteira de ações inspirada na Berkshire Hathaway terminaria com 17 ações e mais um posição em caixa:

  • Caixa: 20%
  • Apple (AAPL): 16%
  • CVS Health (CVS): 7%
  • The Kroger Co. (KR): 7%
  • Bank of America (BAC): 6%
  • Honeywell International (HON): 6%
  • Chubb Limited (CB): 5%
  • MetLife (MET): 5%
  • Union Pacific (UNP): 5%
  • American Express (AXP): 4%
  • PPL Corporation (PPL): 4%
  • Coca-Cola (KO):4%
  • D.R. Horton, Inc. (DHI): 4%
  • Moody’s (MCO): 2%
  • Constellation Brands (STZ): 2%
  • Kraft-Heinz Company (KHC): 1%
  • Bristol Myers Squibb (BMY): 1%
  • Amazon (AMZN): 1%

Conclusão

Montar uma carteira baseada no portfólio completo de empresas da Berkshire Hathaway é um exercício interessante por diversos fatores. O primeiro é que você procura as empresas em que ele investe e empresas semelhantes nos setores de suas subsidiárias. Procurar empresas semelhantes e com as características que Buffett e Munger gostam vai lhe ajudar a montar sua própria carteira com ações de qualidade.

Outro ponto é perceber que, neste momento, a Berkshire carrega uma posição relevante em caixa. É um alerta de que o mercado possa estar caro demais e não haja tantas oportunidades aos preços atuais.

Você sabia que poderia montar uma carteira parecisa com a do Buffett? Investe alguma das ações selecionadas? Será que essa carteira é capaz de bater a própria ação da Berkshire Hathaway nos próximos anos? Não esqueça de responder nos comentários.

Aviso: Declaro que não sou analista de valores mobiliários. As informações discutidas no artigo possuem propósito educacional e refletem única e exclusivamente meus estudos, pesquisas e opiniões. Não devem ser consideradas como recomendação de investimento.

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Este post tem 20 comentários

  1. Francisco

    Muito interessante esse artigo.

    Obrigado por compartilhar.

  2. Marcos

    Já pensou se o Raphael montasse um racional desses para o mercado brasileiro?

  3. MAURICIO

    Fica uma dúvida
    A ideia é muito boa, mas o problema é o timing da compra. A Berkshire comprou APPLE e outras, há muito tempo, quando elas estavam em baixa. Será que hoje esta ações não estão superavaliadas?
    o que vc acha?

    1. Olá Maurício,

      Toda carteira deve ser avaliada com frequência para saber se vale a pena manter as posições.

      Dado que Apple continua na carteira, é muito provável que Buffett, Munger e companhia julguem que ainda vale a pena tê-la.

      Existe um lema que eu sempre passo para os assinantes: “Keep the winners, sell the losers.”

      Apple definitivamente é uma vencedora.

      Abçs!

  4. Edvan Rodrigues De Souza

    Qual o valor que posso começar a investir, estamos em uma pandemia aqui no Brasil , nao posso investir muito e por onde eu começo?

  5. AILTON

    Olá, Raphael. Gosto dos seus posts. Gostaria de dar uma sugestão neste. Faça um back test. Sugiro voltar 1 ano e 3 anos como se tivesse investido nesta sua carteira e veja q resultado dá. Compare também com o rendimento do próprio Berkshire Hathaway Inc. (BRK-A).

    1. Olá Aílton,

      Eu já fiz esse backtest, mas achei por bem não publicar. As posições da Berkshire há 1 ano eram bem diferentes, principalmente no que diz respeito às companhias abertas. Então não seria fidedigno.

      O que dá pra fazer agora é acompanhar essa carteira atual a partir da virada do ano e comparar com a ação da Berkshire em todo o ano de 2021.

      Abçs!

  6. Antonio

    Artigo muito bom

  7. Raphael,

    Muito interessante o seu estudo.

    Gostei da diversificação. Além disso, apenas 17 empresas!

    Só fiquei surpresa ao ver a Amazon com apenas 1%, pois pensei que estaria entre as primeiras (ou ao menos com uma porcentagem maior).

    Tive um problema na migração de plataforma do meu blog para o WP, por isso, se cadastre novamente na newsletter do Simplicidade e Harmonia.
    E caso utilize, também readicione o blog nos aplicativos de leitura, como o Feedly e Inoreader, pois neles os posts após a migração não estão aparecendo.

    Feliz 2021!

    1. Olá Rosana,

      Obrigado por comentar.

      Como eu falei, é possível colocar mais empresas, particularmente essas menos representativas, mas a ideia era simplificar, por isso preferi manter assim.

      Obrigado por avisar quanto ao blog e desejo sucesso nessa nova fase.

      Abçs!

  8. Eder

    Parabéns Raphael, sempre um ótimo conteúdo. Meu comentário fora do contexto do texto é que os Nazistas de 1940 encontraram resistência, e os Nazistas de hoje, quem vai para-los. Entrevistei pessoas de baixa renda que foram ameaçadas por profissionais de saúde, nessa pandemia forjada televisionada com dados atualizados em tempo real, campanhas de marketing apelativo e repressivo.

    1. Olá Éder,

      A máquina de propaganda hoje é muito mais forte que no passado. É possível ludibriar as pessoas agora a nível mundial rapidamente.

      Muita gente defendendo o autoritarismo pelo medo criado pela pandemia.

      Abçs!

  9. nilton

    ola Raphael, como vai? feliz 2021! Fantástico a sua análise. Parabéns.

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